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Importante obra de Maura Lopes Cançado é reeditada

Escritora foi um vulcão em eterna atividade - nas letras e na agitada vida pessoal

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2015 | 05h00

A escrita e a loucura caminham juntas, ainda que por trajetórias tortuosas. As certezas movediças, o humor incerto, o limite frágil, tudo contribui para que alguns escritores alimentem suas obras graças a uma mente totalmente aberta, delirante. Foi o que incentivou figuras tão díspares, como o carioca Rodrigo de Souza Leão, o francês Antonin Artaud e o paulista Renato Pompeu, entre outros, a criarem verdadeiras joias literárias. E também a mineira Maura Lopes Cançado, que escreveu pouco, mas com muita intensidade - livros há muito fora de catálogo e que agora ganham nova edição graças à feliz iniciativa da editora Autêntica.

Trata-se de uma caixa com dois volumes: Hospício é Deus - Diário I, publicado em 1965 (apesar de escrito seis anos antes), e O Sofredor do Ver, coletânea de contos que saiu em 1968. São obras fortemente marcadas pelos períodos em que Maura ficou internada em hospícios em Minas e no Rio. “Um dos mais contundentes depoimentos humanos já escritos no Brasil”, atesta o poeta Ferreira Gullar, um dos grandes incentivadores - na medida do que foi possível - da carreira da autora.

Maura nasceu em 1929, em São Gonçalo do Abaeté, interior de Minas Gerais, filha de uma família rica. Desde pequena, já revelava sinais de que teria uma vida atribulada. Epilética, enfrentou problemas na escola por não lidar direito com outras meninas, pois acreditava ser a pessoa mais importante de sua casa. Em Hospício é Deus, diário sobre sua internação voluntária no Hospital Gustavo Riedel, no Engenho de Dentro, zona norte do Rio, entre o fim de 1959 e o começo de 1960, é possível descobrir que Maura foi uma criança angustiada, especialmente por ter sido abusada sexualmente três vezes, por empregados da família.

E, apesar da epilepsia e da alma atormentada, Maura foi capaz de audácias, como tirar brevê para pilotar aviões - chegou a ganhar um modelo Paulistinha da mãe, com que sobrevoava as fazendas de Minas Gerais. “Era uma pessoa à frente do seu tempo, por isso ficou doidinha varrida”, diz Pedro Rogério Moreira, neto do presidente do aeroclube, em depoimento colhido pelo jornalista Maurício Meireles, autor de um esclarecedor perfil biográfico da escritora, que acompanha os dois volumes. “Mas todo mundo na cidade falava daquela menina que pilotava um avião. Ela era muito audaciosa, por isso as mulheres tinham inveja dela. Era vista como bonita, mas também como libertina.”

Meireles descreve Maura como uma figura ambígua: “Ao mesmo tempo em que inspirava cuidados - seu tom de voz, dengoso, era uma de suas características -, a moça de cabelos volumosos era dada a arroubos. A fama de excêntrica crescia junto à reputação de escritora brilhante”. 

A estreia oficial nas letras aconteceu em 24 de agosto de 1958, quando o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, um dos importantes da história da imprensa brasileira, publicou um poema de Maura. A iniciativa partiu de Ferreira Gullar, que recebeu o texto em uma carta enviada por ela e, depois de gostar, recomendou a publicação a Reynaldo Jardim, que editava o suplemento.

Incentivada pela boa recepção ao poema, Maura escreveu um conto chamado No Quadrado de Joana, sobre uma paciente catatônica, que foi publicado na capa do suplemento em 16 de novembro de 1958 e foi elogiado por Clarice Lispector. Aos poucos, ela sedimentava a fama de ótima escritora e também de uma mulher irascível, imprevisível. “Quem lembra bem de uma cena é Cony: irritada com algum colega, Maura derrubou um arquivo de aço em cima do sujeito”, conta Meireles, em seu perfil biográfico. “Outra vez, a jovem começou a fazer escândalo com um ascensorista, porque o homem havia fechado o elevador antes de ela entrar - o que Maura julgou um grande insulto. ‘Essas pessoas, quando têm esses surtos, têm uma força obscura’, lembra Cony.”

O fato é que a escrita de Maura encantava por promover o encontro entre o pensamento e o gesto, entre a arte e a existência. Hospício é Deus denuncia os abusos sofridos por ela e outros pacientes, tornando-se um marco na luta antimanicomial e até inspirou tese na Sorbonne. “Durvalina tem um olho roxo. Está toda contundida. Não sei como alguém não toma providencias para que as doentes não sejam de tal maneira brutalizadas. Ainda mais que Durvalina se acha completamente inconsciente”, escreve.

Apesar dos esforços dos amigos e do filho Cesarion, que nasceu quando ela tinha apenas 14 anos, Maura não se continha - desconfortável na sua pele, intranquila em sua mente, ela se envolveu em confusões que resultavam em internações até que, em 1972, assassinou outra interna na Casa de Saúde Dr. Eiras. Peritos constataram um surto psicótico. Condenada por homicídio, passou seis anos de reclusão. Morreu de ataque cardíaco, em 1993. Não mais escrevia. Artaud talvez dê a dimensão da angústia também vivida por Maura: “Até quando devo refugiar-me no não-ser para ter o direito de ser o que sou?” 

HOSPÍCIO É DEUS e O SOFREDOR DO VER

Autora: Maura Lopes Cançado

Editora: Autêntica (caixa com os dois volumes: 368 págs., R$ 74)

 

TRECHO

"Não aceito nem compreendo a loucura. Parece-me que toda a humanidade é responsável pela doença mental de cada indivíduo. Só a humanidade toda evitaria a loucura de cada um. Que fazer para que todos lutem contra isto? Não acho que os médicos devam conservar ocultos os pátios dos hospícios. Opto pelo contrário; só assim as pessoas conheceriam a realidade, lutando contra ela. Entrada franca aos visitantes: não terá você, com seu indiferentismo, egoísmo, colaborado para isto? Ou você, na sua intransigência? Ou na sua maldade mesmo? Sim, diria alguém, se pudesse: recusaram-me emprego por eu ter estado antes internado num hospício. Sabe, ilustre visitante, o que representa para nós uma rejeição? Posso dizer: representa um ou mais passos para o pátio. - Eu quis, mas não posso viver junto deles. Que fazer? Odeio-os então por isto".

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