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Imortais

O que é imortal, de verdade, é a vontade de recriar o mundo pelas letras e ideias

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 03h00

A piada é conhecida. Ao ser questionado sobre o que significava ser imortal, Olavo Bilac afirmava que era “não ter onde cair morto”. O humor é certeiro: a pretensão é desmantelada pela ironia. Desejamos o cume das montanhas com nossos qualificativos e pronomes de tratamento; somos recobertos pelo pó da insignificância nos caminhos da vida. É a lição permanente de Ícaro: cuidado com a luz do Sol. Quando as penas da vaidade, unidas pela frágil cera da glória fátua, encontram a realidade do calor do real, sabemos que o céu não é nosso lugar. Aqui, seria o lugar ideal para inserir um brocado do Lácio: “sic transit”... 

O parágrafo inicial pode funcionar, na retórica clássica, como a petição de clemência, na qual o orador invoca seus defeitos para cativar a benevolência da plateia. “Sou o último que deveria estar aqui proferindo este discurso”, diz, humílimo, do púlpito, o ego inflado do orador. “Todos me excedem, aqui, em conhecimento e elegância”, arremata com a frase que, se fosse levada ao pé da letra, causaria a imediata deposição do falso modesto do púlpito. Temos egos enormes, todavia, mesmo eles não são imortais. “Lembra-te que és pó” é a sábia disposição do início da Quaresma. Como todas as pessoas, seremos todos, a meu/nosso tempo, pulverizados. 

Tenho consciência do fato. A humildade, forçada pelo real e por sóis superiores sobre mim, produz um efeito bizarro. Sendo mortal e não o mais brilhante das criaturas de Prometeu, tenho de arrumar o banquete da vida com a louça disponível. O que tenho como vontade é ter amigos, bons e inteligentes, próximos a mim. Foi com tal desejo que aceitei a eleição para a Academia Paulista de Letras. Anseio por gente de verdade e com um epíteto extra: “gente de letras”. 

Leitores podem ser (ou deveriam ser) interessantes. Mesmo um canalha como Ricardo III, na imaginação de Shakespeare, faz discursos memoráveis. Os ambíguos, como Hamlet, ora assassino e ora consciente, liam bastante. Os heróis, como Henrique V, proferem frases agudas. 

A Academia Paulista de Letras é uma instituição mais do que centenária, com 40 membros que se reúnem às quintas, agora de forma virtual. Quanto eu tive o privilégio de entrar para o time de escritores do Estadão, pensei na honra de ser colega de Ignácio de Loyola Brandão. Um dia, tomei um susto: ele me enviou e-mail dizendo ser leitor dos meus textos. Na APL, encontro-o quase toda semana. O presidente, José Renato Nalini, conduz com habilidade a tarefa complexa de lidar com tantos perfis. A riqueza da casa é sua variedade e cromatismo. 

As academias consagram talentos literários indubitáveis. A Paulista divide sócios com a Brasileira: Lygia Fagundes Telles, Celso Lafer e o já citado Ignácio de Loyola Brandão. Também partilhamos Fábio Lucas com a Academia Mineira. 

Acho a diversidade da Paulista muito notável: músicos (como João Carlos Martins e Júlio Medaglia); um fotógrafo (Marcio Scavone); um arquiteto (Ruy Ohtake); um bispo católico (dom Fernando Antonio Figueiredo); médicos (Raul Marino Jr., Raul Cutait); um jornalista (Luiz Carlos Lisboa); diplomatas (Rubens Barbosa, Synesio Sampaio Goes Filho); educadores (Paulo Nathanael Pereira de Souza, Gabriel Chalita); cientistas políticos e sociais (Jorge Caldeira, Bolívar Lamounier, José de Souza Martins, José Pastore); um publicitário (Roberto Duailibi); um físico (José Goldemberg); um artista dos quadrinhos (Mauricio de Sousa) e atores (Juca de Oliveira e Jô Soares). Há vários filhos de Santo Ivo (juristas/advogados/juízes), como Miguel Reale Jr., Célio Debes, Eros Grau, José Gregori, José Fernando Mafra Carbonieri, Ives Gandra da Silva Martins, Antonio Penteado Mendonça, Tércio Sampaio Ferraz Jr. 

Gente intensa e de biografia notável oferece dificuldades de classificação. João Lara Mesquita é músico, fotógrafo, autor e jornalista. Ruth Rocha é formada em Ciências Sociais, mas a conhecemos como consagrada autora de literatura infantojuvenil. Maria Adelaide Amaral é brilhante dramaturga e, igualmente, tradutora. A saudosa Renata Pallottini (falecida em julho) escrevia e traduzia com talento. Walcyr Carrasco é autor consagrado e conhecido do grande público por grandes novelas. Célio Debes é da tribo jurídica e, igualmente, historiador de três alentados volumes históricos sobre o presidente Washington Luiz. Jô Soares, muito conhecido do grande público, seria tradutor, ator, humorista, diretor de teatro, entrevistador ou literato? Diversa no todo, a APL também o é em cada um dos membros. 

Há desafios. Há muitos homens e poucas mulheres. A diversidade de carreiras é impressionante, todavia, faltam grandes intelectuais negros e indígenas. Há muito a ser feito, sempre, sinal da sua vitalidade.

O membro da Academia Brasileira de Letras R. Magalhães Júnior (falecido em 1981) falou, em uma entrevista, sobre um conselho aos novos que reproduzo. “Jovem literato: seja rebelde com as academias, casas de medalhões e de glorificação fácil.” Porém, dizia o cearense, “depois de gritar bastante, entre para a academia e tente melhorá-la”. Enquanto houver críticos e jovens, a academia sobreviverá. O que é imortal, de verdade, é a vontade de recriar o mundo pelas letras e ideias. Todo nome de rua, um dia, já atacou o busto da praça ou a referência da avenida. 

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘A CORAGEM DA ESPERANÇA’, ENTRE OUTROS

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