Humor e ritmo do discurso são o forte do livro 'O Irmão Alemão'

O escritor Chico Buarque lança mão de ardilosos, estratégicos narradores, que desde seu romance Estorvo vêm demarcando terreno próprio no campo da ficção. Torna-se já reconhecível um certo modo de narrar, uma base de estilo que empresta personalidade a uma obra ficcional em que incisivas notas realistas e imaginosas transfigurações permeiam-se numa mesma passagem, possibilitando tanto o reconhecimento de uma situação familiar como a estranheza de um súbito lance de nonsense que a desvia do prosaico. Nessas alternâncias entre saborosos registros mundanos e recursos narrativos acrobaticamente expostos, o leitor saltita ao comando caprichoso da verve do escritor. A esse convite à dança confesso que respondo com prazer intelectual e alguma resistência emocional, mantendo a expectativa de que o autor não evite tanto as notas da poesia limpa e forte que por vezes fazem acordes no subterrâneo da narração, tais como os que marcam as cenas da morte do pai e de uma lição de piano.

ALCIDES VILLAÇA - CRÍTICO LITERÁRIO, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2014 | 03h00

Sim, já estou falando de minha recentíssima e ainda não digerida leitura de O Irmão Alemão, romance de imaginação autobiográfica, em que Chico Buarque entra na pele de sua história pessoal para ganhar altura no descortino criativo e literário de sua família, da cidade de São Paulo, da vida boêmia, dos eventos culturais e da barra política dos anos 60/70, com direito a incursão pela Alemanha na busca impulsiva do seu irmão mais velho, que o pai Sergio Buarque, no início da década de 30, ainda solteiro, gerara com Anne, jovem namorada berlinense, desaparecida no tempo. Essa busca é o impulso básico da narrativa, e certamente não deixará de estimular apreciações psicanalíticas de toda ordem, inclusive a de que esteja também nela a busca da história do pai, um certo Sergio de Hollander, tão perto entre as montanhas de livros da casa, e tão distante, em suas viagens por múltiplas culturas, línguas e literaturas, desse seu filho Francisco de Hollander. Não faltam na casa as mediações de dona Amélia, digo, de dona Assunta - inesquecível e cativante personagem.

Pergunto-me se o narrador não exorbita aqui e ali em seu direito de se divertir nas artimanhas, direito que é também dos leitores, mesmo dos mais sisudos. O humor é uma das forças do romance, como também o são o domínio da frase, da oralidade, do ritmo do discurso, das remissões cultas e eruditas com ou sem efeito paródico. Não faltam, ainda, significativos espelhamentos como neste segmento: “meu irmão [O ALEMÃO]pode estar colhendo aqui e ali matéria para um romance autobiográfico onde inventará um pai brasileiro, não muito distante da imagem que faz de seu pai incógnito”, no qual fica clara a maleabilidade da matéria forjada pela narração. Diria que Chico Buarque ironiza, sem descartar, recursos da nouvelle vague, dos filmes de Antonioni e de Godard (citados entre tantos e tantos artistas de fronteira), da força desafiadora dos sonhos, das sombras e dos simulacros que pontuam e mesclam gêneros artísticos da modernidade. O efeito de uma história grave assentada em bases fluidas, ou o da mescla entre as vivências fundas do sujeito e a potencialização delas numa outra órbita engenhosa, é o da relativização permanente dos fatos, do contínuo deslocamento entre o espaço da experiência e o da imaginação, entre a concretude de uma casa sólida, recheada e sustentada por histórias, pessoas e livros, e a ampla alegoria um universo cultural que já se tornou espectral. A pujante engenharia retórica é também irônica e machucada perspectiva histórica.

O desejo de escrever o “melhor libro del mondo” estaria, segundo dona Assunta, no pai Sergio, historiador e intérprete do Brasil, avesso a modismos da contemporaneidade, mas não deixa de estar também no filho Francisco de Hollander, que, a certa altura, se explica: “Perdão, madame, como a senhora pode ver meu forte não é a música mas a literatura”, lembrando entrevista já antiga em que Chico Buarque dizia explorar os artifícios da prosa para suspender a poesia das canções. Noutra passagem do romance, lê-se: “Os aplausos do público interrompem o fluxo do meu pensamento”, uma legenda para a necessidade de concentração do escritor/narrador no estilo reflexivo e imaginoso de O Irmão Alemão.

Ao final do livro, há nota explicativa para os documentos oficiais inseridos na narrativa e a notícia do resultado final da efetiva busca de Chico Buarque pelo irmão alemão. Mas, depois de tantas peripécias romanescas e metaliterárias, não deixa de ser divertido imaginar que os documentos oficiais seriam tão inventados quanto a figura de um editor Schwarcz, e que o sofisticado livro-produto nas prateleiras é um antídoto de um sucesso que acabará por obter, contestando-o.

* ALCIDES VILLAÇA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA USP

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