Alexandre Meneghini/Reuters
Alexandre Meneghini/Reuters

Humor é marca de 'O Coração é o Último a Morrer', de Margareth Atwood

Romance distópico enaltece o poder perspicaz e aterrorizante da sociedade contemporânea

Alessandro Hernandez, Especial para o Estadão

07 de maio de 2022 | 05h00

Antes de o mundo confiável ter sido destruído, o casal de classe média Stan e Charmaine não vivia dentro de um carro. Diante do grande colapso financeiro e comercial, as estruturas sociais se romperam e os dois passaram a viver como nômades dentro de um pequeno automóvel. Lá, eles se protegem das ameaças produzidas pela atual condição econômica, como o risco constante de extorsão e a perda do pouco que lhes resta. 

A escritora canadense Margaret Atwood nos apresenta em O Coração é o Último a Morrer mais uma distopia, dentre tantas outras escritas por ela. Em uma entrevista em 2013 ao jornal The Guardian, ela definiu a sua literatura como uma “ficção especulativa”. O especulativo, ela justifica como algo que poderia de fato acontecer, que está dentro do plausível, ainda que não respeite totalmente o realismo restrito do romance tradicional. 

Tudo o que se percebe nesse livro lançado agora pela Rocco, mas que foi escrito em 2015, é verossímil dentro do espaço e tempo em que vivemos. A distopia na arte, tão representada nos livros e filmes nos últimos dois anos por conta da pandemia da covid-19, caminha junto com a realidade presente no mundo e não é mais algo tão ligado a um tempo futuro, pois de fato já é vivida em muitos aspectos. Isso também acontece em O Coração é o Último a Morrer, e sua verossimilhança não se fragiliza. Pelo contrário, a autora abusa da imaginação para apresentar a construção de uma sociedade vigilante. 

No livro, em um momento em que grande parte das pessoas que vivem nos Estados Unidos está afetada pelo colapso econômico, o casal Stam e Charmaine toma conhecimento sobre o Projeto Positron, na cidade de Consilience. Supostamente criado para resolver os problemas sociais causados pela crise, o projeto oferece um lugar confortável para morar, comida boa e emprego fixo. Em meses alternados, no entanto, os residentes de Consilience deixam suas casas e se tornam internos na prisão de Positron. Após concluírem o período de serviço prisional, retornam à vida civil. 

Nesta nova sociedade, caracterizada por tal condição de vigilância e controle constantes, na qual até as relações íntimas são manipuladas, não por alguém, mas pelo próprio sistema criado, há uma rede de acontecimentos criminosos que favorece essa indústria do aprisionamento humano. Manter a nova estrutura social traz benefício e riqueza para alguém, que não é explícito no romance. 

O jogo criado pela autora apresenta personagens em permanente alternância de suspeitas diante desses atos neste mundo panóptico. Essa armadilha, engendrada por Margaret, enaltece o poder perspicaz e aterrorizante da sociedade, que cria autonomia e onisciência sobre as pessoas. 

Quem chega a Consilience passa a exercer uma nova profissão. Charmaine se torna a administradora-chefe de medicamentos e é a responsável pelo que se chama de procedimento, que consiste em executar, por meio da ingerência de drogas, os homens que não se adaptaram ao novo modo social, os tais incorrigíveis. A maneira como Charmaine conduz o ritual de morte é elogiada pelo sistema pela forma eficiente e afetuosa com que ela realiza a aplicação de uma injeção fatal, acompanhada de um beijo na testa. 

Margaret cria uma vez mais um romance visionário, agora escrito com humor e ironia. Boa parte da narrativa é construída a partir dos pensamentos das personagens diante dos acontecimentos, e são essas reflexões que dão a dimensão desse mundo perturbador criado pela autora.

O Coração é o Último a Morrer

Autora: Margaret Atwood

Trad.: Geni Hirata

Editora: Rocco (416 págs., R$ 69,90, R$ 34,90 o e-book)

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