Amazon Prime Video
Amazon Prime Video

Humanidade tem jeito?

Crises mundiais ressuscitaram o sentimento de ódio e barbárie que parecia hibernado

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2021 | 03h00

Há 6 mil anos, fizemos as primeiras cidades. A possibilidade de haver uma civilização avançada em outro planeta no mesmo espaço de tempo que o nosso é ínfima, ainda mais se olharmos para a capacidade de autodestruição que acompanha nossa evolução social e tecnológica. 

O filme Viajantes, que acaba de estrear na Amazon Prime Video, de Neil Burguer, situado num futuro próximo, narra a odisseia de 30 meninos e meninas que são enviados ao espaço numa missão multigeracional em busca de um novo lar, um planeta habitável a mais de 80 anos-luz distante.

Acabaram os recursos da Terra. São educados, alimentados e dopados por um sistema autônomo do foguete. Seus netos irão povoar o tal planeta. No começo, se dão bem. Ao crescerem, descobrem a toxina que os acalmava. Boicotam e desenvolvem sentimentos de desejo, raiva, ciúmes, inveja.

A liderança é questionada. Desconfiam da existência de um alienígena na nave. O medo os brutaliza, cria rixas. Um novo líder elege a preguiça e as festas o novo sentido. A ameaça de se matarem paira. O projeto de eternizar a civilização corre o risco de ser extinto no espaço.

No episódio Seis Graus de Liberdade, da temporada de Além da Imaginação da CBS All Access, produzida pelo mestre do novo terror e narrador Jordan Peele (Run!, Us) e Simon Kinberg (X-Men), o paradoxo acima é citado.

A tripulação de uma nave que parte no primeiro voo tripulado para Marte descobre no caminho que a Terra é extinta. Eles se tornam os únicos representantes vivos da Humanidade. Têm conhecimento para viver em Marte. Mas a viagem de 280 dias traz consequências nas relações pessoais.

George Orwell lutou na Guerra Civil Espanhola, em que Franco, com apoio da máquina de guerra alemã, se aproveitou do racha entre uma utópica união das esquerdas, a força republicana – comunistas, anarquistas, socialistas – e praticou a primeira grande atrocidade contra a população civil, o que pegou a Europa de surpresa.

A guerra relâmpago, ou Blitzkrieg, arquitetada pelo general Heinz Wilhelm Guderian, viável por conta do avanço da tecnologia, deixou o conceito de guerra de trincheiras para trás. A nova tática militar usou rapidez e pânico, com forças móveis e bombardeamento sem piedade de cidades, para romper a linha de comando e suprimentos e desmoralizar o inimigo.

Guernica, de Picasso, a “declaração de guerra contra a guerra”, mostra os horrores que a modernidade inseria nas guerras e o massacre da cidade basca pela aviação alemã. 

O mundo testemunhava a ascensão do fascismo, nazismo, stalinismo. As teses niilistas de Nietzsche e a grande profecia de Dostoievski (“como Deus e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo se tornar um homem-deus, seja ele o único no mundo a viver assim”), que Sartre simplificou (“se Deus não existisse, tudo seria permitido”), entraram na pauta literária.

Orwell publicou A Revolução dos Bichos justamente em 1945 e depois o ícone da distopia, 1984. Muito se falou da histeria e destruição que Hitler provocou, mas o foco do escritor era o stalinismo, com o qual a intelectualidade mundial de esquerda rompia, depois de notícias de censura e violações. Foi ele quem cunhou o termo “guerra fria”. 

A Revolução dos Bichos reproduz os passos dados por regimes autoritários. A partir do sonho de Major, um enorme porco, seus camaradas da Fazenda Solar expulsam o dono. “Alguma dúvida então, camaradas, de que todos os males desta nossa vida decorrem da tirania dos seres humanos?” 

Major morre, seus herdeiros lutam, proclamam a revolução com um sistema de governo em que os animais que na terra trabalham sejam donos da propriedade e mudam o nome para Fazenda dos Animais. 

A autogestão fracassa por conta dos conflitos de interesses e visão de futuro. Uma liderança é dividida entre dois porcos. Um se cerca de cães ferozes e bane o outro. A liberdade aos poucos ganha forma de tirania.

Na mitologia grega, os filhos de Zeus, Apolo e Dionísio, formaram uma dicotomia. Na Revolução Francesa, Robespierre guilhotinou Danton. Na bolchevique, Stalin eliminou Trotsky. 

O Senhor das Moscas, de William Golding, de 1954, supõe que a autodestruição é um componente embutido na nossa estrutura social. Pré-adolescentes ficam sozinhos numa ilha deserta, o garoto Piggy vira líder e estabelece três princípios: diversão, sobrevivência e manutenção de um sinal de fumaça para um resgate. 

Mas o tédio e a possibilidade de existir uma fera na ilha contaminam a autogestão. Em pouco tempo, chegam à desordem e discórdia, ritos selvagens e sacrifícios, guerras, caçadas e tortura.

Os últimos acontecimentos, o descrédito das instituições, a crise climática, a ascensão do populismo de direita e a xenofobia crescente ressuscitaram o sentimento de ódio e barbárie que parecia hibernado. 

É uma grande contradição darwinista: procriarmos, mas não sobrevivermos. Abrir mão de privilégios talvez não seja da condição humana. Nazismo, guerra fria, crise climática, desastres astronômicos e atômicos são alguns dos indícios desse paradoxo.

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

Tudo o que sabemos sobre:
meio ambiente

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.