Editora Todavia
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HQ sobre um policial na Lua retrata a melancolia do isolamento

'Temos de estar constantemente empenhados em viver melhor', diz o quadrinista escocês Tom Gauld, autor de 'Guarda Lunar', em entrevista ao Estadão

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2021 | 05h00

Guarda Lunar é um quadrinho de ficção científica cujo protagonista é um policial que atua na segurança de uma colônia humana na Lua. Por essa descrição, é lícito imaginar que a obra contenha ação desenfreada, disparos de laser e explosões ruidosas em pleno vácuo. No entanto, a graphic novel do quadrinista escocês Tom Gauld, lançada agora no Brasil pela editora Todavia, não poderia passar mais distante dos clichês do gênero: melancólica e contemplativa, narra o cotidiano de um guardinha numa paragem deserta, decadente e sem crimes – porque é quase desabitada.

A quebra de expectativa se dá logo nas primeiras páginas, ocupadas por painéis que retratam a monotonia da paisagem erma e rochosa da Lua, com prédios futuristas de arquitetura desengonçada. 

O protagonista sem nome é o único policial da colônia, mas não está sobrecarregado: numa comunidade com criminalidade zero, ele dá carona a uma criança, procura um cão perdido e recupera um androide de Neil Armstrong que fugiu do Museu Lunar.

Entre um café e outro, sua rotina maçante é explicada pelo fato de que praticamente todos estão indo embora de volta à Terra. Os cenários vão ficando progressivamente vazios e as coadjuvantes vão partindo. “Desde garoto eu sonhava em ser guarda e viver na Lua, mas agora que eu estou aqui, parece que a festa acabou e todo mundo vai embora”, lamenta o protagonista para a moça que trabalha na cafeteria, igualmente sem nome e sua única companhia naquele lugar deprimente.

Enquanto se afeiçoa à última conexão humana que lhe resta, o guarda lunar lida a todo momento com aparelhos – robôs, telas, computadores – que nunca deixam de apresentar defeitos: a máquina de café emperra, o carro voador quebra, o terminal da polícia pifa. Em dado momento, o protagonista questiona um robô, que rebate: “Não me pergunte, estou apenas seguindo ordens”. E é assim que o guarda se sente: uma máquina a seguir ordens sem sentido.

Em Escritos da Casa Morta, o autor russo Fiodor Dostoievski recorda seu tempo preso na Sibéria e argumenta que “se alguém quisesse esmagar plenamente um homem, destruí-lo, castigá-lo com o mais terrível castigo, de modo que o mais temível assassino estremecesse perante esse castigo e o temesse de antemão, bastaria apenas dar ao trabalho o caráter da mais absoluta e plena inutilidade e falta de sentido”. Talvez seja assim que o guarda lunar se sinta quando, enfim, pede transferência de volta para a Terra, mas tem sua solicitação negada e ainda recebe um robô terapeuta para auxiliá-lo com seus sintomas de depressão. A máquina, obviamente, não funciona direito, como todas as outras.

A melancolia da HQ reflete o desencanto com o progresso tecnológico nos anos subsequentes à corrida espacial, mas, em um nível mais íntimo, revela a frustração do artista em relação à rotina de quem realiza seus sonhos – no caso dele, o de se tornar um quadrinista de sucesso.

Sobre essas questões, Tom Gauld respondeu às seguintes perguntas ao Estadão por meio de videoconferência:

Em Guarda Lunar, as máquinas nunca funcionam adequadamente. Em que medida nosso progresso tecnológico vem trazendo danos e benefícios?

Acredito que o progresso sempre trouxe esses dois lados, coisas que ganhamos e coisas que perdemos. Quando eu estava fazendo Guarda Lunar, pensei muito sobre o fim dos anos 1960, quando a tecnologia era vista como o que iria salvar o mundo. Era algo quase infantil, como naquelas ilustrações que imaginavam realisticamente hotéis que seriam construídos na Lua. Agora nós estamos finalmente percebendo que, apesar dos benefícios, toda essa tecnologia nos trouxe coisas ruins.

A HQ parece questionar o valor de seguir ordens sem sentido.

Eu sou uma pessoa que não gosta de entrar em conflitos. Não quero discutir, quero apenas seguir as regras. Só quero vir ao meu estúdio e desenhar quadrinhos todos os dias. E os protagonistas das minhas graphic novels, tanto Guarda Lunar quanto Golias, estão tentando evitar confrontos. É essa aversão ao conflito que os faz seguir ordens que não fazem nenhum sentido. Mas nessa HQ pelo menos o guarda está tentando tomar o controle de sua vida e ter mais contato com seres humanos.

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Nós costumamos achar que, se encontrarmos nosso lugar ao sol, a vida será boa lá. Mas quando chegamos lá, a vida continua tendo problemas. Temos de estar constantemente empenhados em viver melhor
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Tom Gauld, quadrinista escocês

A obra também parece lançar um olhar crítico à ideia de que ter um bom emprego é sinal de sucesso. O que você acha dessa hipervalorização do trabalho na nossa sociedade?

O guarda acaba aprendendo que há mais na vida do que realizar seu sonho de infância de ser um policial e morar na Lua. É um pouco como a minha carreira. Sempre sonhei ser um artista e acreditava que, se eu me tornasse um quadrinista de sucesso e pudesse viver da minha arte, a vida seria perfeita. Nós costumamos achar que, se encontrarmos nosso lugar ao sol, a vida será boa lá. Mas quando chegamos lá, a vida continua tendo problemas. Temos de estar constantemente empenhados em viver melhor. Eu não deveria reclamar, é claro. Tenho um emprego muito legal. Mas a vida nunca é tão simples.

O sonho de infância do guarda lunar parece estar se esfacelando diante dele. Mas em um escopo maior, o que você pensa dos planos de colonização da Lua, de Marte e de outros corpos celestes?

Eu acho que indo para um novo lugar nós não mudaremos. Continuaremos a ser idiotas, egoístas, estúpidos. Uma colônia em outro planeta seria uma bagunça como é a vida na Terra. Mas vejo que a ficção científica tende a pensar apenas nos extremos. Às vezes, vai para a utopia, quando as pessoas fizeram um mundo melhor, e às vezes para a distopia, quando tudo deu errado. Mas a realidade está sempre no meio. A loucura em que vivemos sempre estará lá, não importa para onde a humanidade vá.

Sei que você fez 'Guarda Lunar' muito antes da pandemia, mas há ali uma visão sombria a respeito da melancolia provocada pelo isolamento. A atual crise que estamos vivendo mudou de alguma forma o impacto ou o sentido da HQ?

Eu realmente não tinha pensado sobre isso, porque essa edição brasileira é a primeira a ser publicada em um bom tempo. É interessante… É diferente, mas há muito ali do que estamos vivendo. Ele está solitário, se comunicando por meio de telas, precisa usar capacete para respirar, há os espaços públicos vazios… No começo da pandemia, eu estava bastante deprimido e li muitas das obras de Ian M. Banks, porque eu queria me sentir em um mundo onde computadores fariam tudo por mim, foi um momento bastante escapista.

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