Albert Gea/Reuters
Albert Gea/Reuters

Houellebecq, o 'enfant terrible' da literatura, fala sobre 'Submissão'

Somente com democracia direta se pode sair da crise política, diz o escritor francês; obra acaba de chegar às livrarias brasileiras

EFE

28 de abril de 2015 | 18h49

Escoltado por agentes da polícia francesa desde o atentado à revista Charlie Hebdo e em meio a medidas de segurança próprias de um chefe de estado, Michel Houellebecq apresentou nesta terça-feira, 28, em Barcelona, Submissão (o livro acaba de chegar às livrarias brasileiras pela Alfaguara), ficção sobre uma França comandada por um presidente muçulmano. O sempre polêmico escritor situa a história no ano 2022, depois da eleição vencida por Mohammed Ben Abbés, o que mudará, em pouco tempo, o cotidiano dos franceses e fará com que o protagonista François, um professor universitário especializado no escritor Joris-Karl Huysmans, abrace a fé islâmica.

Filho de uma mulher que praticou ao longo de sua vida "zapping espiritual" e que morreu como cristã ortodoxa, o "enfant terrible" das letras francesas explicou que quando começou a escrever o romance sua primeira intenção era de que François se convertesse à fé católica, mas que mudou de ideia quando viu que estava difícil capturá-lo.

No entanto, ressaltou que o que queria realmente tratar na obra era sobre política e sobre as pessoas que usam a religião como objeto de poder. "Construí um livro com um pobre personagem de quem tiro tudo: namorada, pais, trabalho, vida social, possível conversão ao catolicismo e sua relação com Huysmans. No fim, não lhe sobra nada, apenas problemas. É quando aparece alguém que lhe propõe duas ou três mulheres e um novo salário. Em troca, só tem que renunciar a liberdade de consciência, o que é uma proposta tentadora", argumentou.

Mal vestido, com intermináveis silêncios entre cada frase, fumando um cigarro eletrônico, Houellebecq disse que não sabe o que responderia se alguém fizesse proposta parecida para ele e comentou que no momento está muito favorável à "democracia direta porque a democracia representativa é um embuste". Ele afirmou que "a democracia direta é a única maneira de sair da crise política em que estamos imersos" e não hesitou em dizer que os parlamentos deveriam ser suprimidos e que as mudanças de lei deveriam partir de plebiscito ou de iniciativas cidadãs. No caso da França, manteria o presidente da república - é factível que um dia ele seja muçulmano - "mas que poderia ser demitido a qualquer momento".

Na coletiva de imprensa, Houellebecq soltou outras pérolas, como quando disse que a esquerda francesa é "muito agressiva porque se sente ameaçada e até condenada" ou que a França é um país "estranho, paradoxal, de gente deprimida, mas com uma taxa de natalidade que segue sendo alta". Mesmo assim, reafirmou que são "colaboracionistas por natureza". "Sinto muito", disse. 

Houellebecq assinalou que leu o Corão e que "o perigoso" são as "interpretações violentas". Além disso, recordou que o Corão fala sobre como os muçulmanos devem se comportar com os judeus e os cristãos e que isto não foi algo adotado pelo grupo jihadista Estado Islâmico, a quem atribuiu uma "versão anormal" deste livro.

Ainda que tenha ocorridos algumas mudanças em sua vida desde os atentados ao Charlie Hebdo, o escritor afirmou não ter medo - “mas pode ser que eu esteja errado” –  e até brincou que os agentes da escolta que estão ao seu lado a toda hora são simpáticos e que se dá bem com eles.

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