Miguel Medina
Miguel Medina

Houellebecq causa nova polêmica na França

Ele situa ‘Soumission’, que será lançado esta semana, no ano de 2022, quando seu país é dirigido por um partido islâmico

EFE

04 Janeiro 2015 | 18h36

O escritor Michel Houellebecq admite que é “pouco verossímil” o cenário que traça em seu livro mais recente - no qual um partido islâmico chega ao poder na França - e assinala que colocou assim para provocar medo, embora assegure que não se trata de uma provocação e não crê que tenha um efeito político, como alguns acusaram.

Em entrevista publicada no sábado pela jornalista Sylvain Bourmeau em seu blog, Houellebecq explica que Soumission (Apresentação), seu novo romance que começa a ser vendido na França na quarta-feira, tem um elemento comum com os anteriores: “a ideia de que alguma religião é necessária”. Mas o que muda com relação às outras obras é que agora não são religiões criadas por seus personagens - e sim de uma existente, o islamismo, sobre a qual ele mudou de opinião depois de tê-la classificado, há alguns anos, de “babaca”.

“No fundo, depois de lê-lo, vi que o Alcorão é melhor do que eu pensava. A conclusão mais evidente é que os jihadistas são maus muçulmanos”, ele argumenta. E prossegue: “Em princípio, a guerra santa não está autorizada. Só é válida a pregação.” 

Soumission se passa na França, em 2022. Ante a força de extrema direita Frente Nacional (FN) - o primeiro partido do país -, as duas formações tradicionais de governo - o Partido Socialista e a conservadora UMP - se aliam a um partido muçulmano, a Irmandade Muçulmana, cujo líder Mohamed Ben Abbes se torna, então, presidente da República.

Esses são alguns dos elementos que desencadearam uma polêmica em que alguns, como o jornal de esquerda Libération, acusam o mais iconoclasta escritor francês contemporâneo de dar respaldo intelectual à FN de Marine Le Pen, popular, em parte, por seu discurso sobre a suposta crescente influência da imigração árabe-muçulmana.

Na entrevista, Houellebecq admite que, na realidade, o que é mais factível que ocorra - não em 2022, mas sim nas próximas eleições presidenciais, em 2017 - é o triunfo de Le Pen.

Ele insiste que seu livro não terá “nenhum efeito” no debate sobre o estereótipo dos muçulmanos como um perigo e que ele não é um intelectual, não defende “nenhum regime” e reivindica a “irresponsabilidade”.

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