Walter Craveiro/Divulgação
Walter Craveiro/Divulgação

Homossexualidade de Mário de Andrade domina abertura da Flip

Festa literária de Paraty contou ainda com intervenção do ator Pascoal da Conceição

Ubiratan Brasil, Maria Fernanda Rodrigues e Guilherme Sobota, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

01 Julho 2015 | 22h18

PARATY A afirmação da homossexualidade do escritor Mário de Andrade e uma performance surpresa do ator Pascoal da Conceição, interpretando o próprio autor de Macunaíma, marcaram a mesa de abertura, na noite desta quarta-feira, 1, da 13ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que confirmou ainda os jornalistas Ioan Grillo (inglês) e Diego Osorno (mexicano) como substitutos do italiano Roberto Saviano, na mesa das 19h30 de sábado, 4.

A influência da dúbia sexualidade de Mário em sua obra sempre foi tema de pesquisas e debates, mas jamais de forma conclusiva. “Tudo que era relativo a sexo ficou intocado. Assim, cabe a nós dizermos hoje o que sempre foi proibido: Mario de Andrade era homossexual, era gay, e há resquícios dessa sexualidade em toda sua obra”, cravou a ensaísta Eliane Robert Moraes, que dividiu a mesa de abertura com a crítica argentina Beatriz Sarlo e o biógrafo do autor de Macunaíma, Eduardo Jardim. “É preciso lembrar, porém, que não falamos de uma obra gay, ou seja, não podemos reduzir seu trabalho à homossexualidade. É sobre esse fio que hoje devemos trabalhar.”

O tema foi também lembrado por Jardim, que tanto tratou da diversidade poliédrica da obra andradeana como apontou a bivitalidade do escritor, ou seja, como equilibrava a razão com a emoção. Já Beatriz Sarlo mostrou como o modernismo brasileiro e o argentino aconteceram simultaneamente, mas com uma diferença: Mario de Andrade não encontrava equivalente entre os portenhos, especialmente por conta da expansão de sua obra artística.

A apresentação dos estudiosos foi subitamente interrompida, porém, por Pascoal da Conceição que, no momento em que Jardim declamava uma poesia da fase final de Mario de Andrade, tomou a palavra e continuou a recitação. Em seguida, subiu ao palco e parabenizou os palestrantes. “Foi algo totalmente inesperado”, disse o curador da Flip, Paulo Werneck. De fato, Conceição contou ter tentado vir à Flip como convidado. Não conseguiu. “Depois, o Sesc ficou de nos trazer, mas não conseguiu por conta da crise econômica. Assim, eu e meus alunos da Escola Livre de Santo André viemos por conta própria”, disse ele que, na sexta-feira, diante da Igreja da Matriz, promete encenar uma versão de Macunaíma.

Pouco antes da abertura oficial da Flip, a organização conseguiu preencher a lacuna deixada pelo italiano Roberto Saviano, que cancelou, na segunda-feira, por recomendação de sua segurança, a participação no evento do qual ele seria a principal estrela. Seu livro mais recente publicado no Brasil foi Zero Zero Zero, sobre o tráfico internacional de cocaína. E foi mais pautado pelo tema desta obra do que pela repercussão do autor que o curador Paulo Werneck convidou dois jornalistas: o mexicano Diego Enrique Osorno e o inglês radicado no México Ioan Grillo. Eles participam, no sábado, às 19h30, da mesa Jornalismo de Guerrilha. 

“Os dois atuam na linha de frente, se enfiam na chapa quente, e como o assunto tráfico cresce no Brasil, e há jornalistas sendo perseguidos, o tema é atual”, diz Werneck. Para o curador, quem esperava ver um debate sobre drogas com Saviano vai ter o mesmo nível de discussão no encontro com os jornalistas, que ainda não são publicados no País. O ingresso da mesa do Saviano poderá ser usado neste novo debate. Quem não tiver gostado da troca pode pedir o dinheiro de volta. 

Enquanto a Flip corria para definir os novos nomes, Saviano, jurado de morte pela máfia italiana e vivendo sob proteção policial, estava na Inglaterra participando de evento na Sociedade Geográfica Real. O tema do encontro realizado na tarde de quarta (horário de Brasília) foi justamente a guerra contra o crime organizado. Ele chegou a postar uma selfie no Twitter comentando que fazia sol em Londres.

Na tarde de quarta-feira, quando os participantes da Flip começavam a chegar a Paraty, o Itaú Cultural anunciava uma ajuda à Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, cancelada este ano por falta de patrocínio. Durante seminário que debateu a literatura fora do eixo Rio-São Paulo, na Casa de Cultura, informaram que patrocinariam 13.º Seminário Internacional de Pesquisa em Leitura e Patrimônio Cultural, que ocorre paralelamente à Jornada.

Será nos dias 28, 29 e 30 de setembro, em Passo Fundo, e no dia 1,º de outubro, em São Paulo. Do evento gaúcho participam os franceses Roger Chartier, historiador francês especializado em leitura, práticas culturais e os efeitos da revolução digital; Anne-Marie Chartier, especialista em história do ensino da leitura; e os brasileiros Lucia Santaella, Francisco Marinho, Edvaldo Souza Couto e Regina Zilberman. A edição paulistana terá Chartier e Tânia Rösing.


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