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Homenageada na Flip, Ana Cristina Cesar ganha rica fotobiografia, biografia e reedições

Evento de literatura de Paraty, no Rio, começa nesta quarta, 29

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2016 | 05h00

“No campo sozinha/ Havia uma flor/ Uma flor delicada/ No campo havia./ Naquele silêncio/ Juntinho da flor,/ Eu estava sozinha/ Com muito ardor. / Andei, passeei/ Por aqueles terrenos/ Onde lembro a saudade/ Onde lembro o amor. / A noite chegou/ Abracei-me com a flor/ Não estou mais sozinha,/ A tristeza findou.”

Ana Cristina Cesar (1952-1983) só tinha 9 anos, mas já era uma poeta experiente quando publicou este poema na revista da Igreja Metodista, em 1961. Fazia versos desde antes de saber ler ou escrever. A garota que estampou a capa da Bem-Te-Vi passou seus primeiros anos ditando versos para a mãe, e explicou isso antes de apresentar os textos que selecionou de seu caderno para a edição. “Quando eu dizia um pedacinho do verso, a mamãe ia téc-téc-téc na máquina e escrevia o que eu ditava.”

A foto da capa e a reprodução das páginas estão em Inconfissões – Fotobiografia de Ana Cristina Cesar, que o Instituto Moreira Salles lança no dia 30, na Festa Literária Internacional de Paraty. Ana C. é a autora homenageada desta edição do festival, que será realizado de quarta, 29, a domingo, 3. Longe das livrarias por muito tempo, a obra da poeta se reaproximou do grande público em 2013, com o lançamento de Ana Cristina Cesar – Poética (Companhia das Letras), e agora chega com força total. Além da fotobiografia, estão sendo lançados suas críticas e ensaios, estudos sobre sua obra, uma biografia, seleção de cartas e antologias em que ela é um dos destaques (veja ao lado).

Ana C. viveu pouco – deprimida, morreu aos 31 – e publicou poucos livros, mas marcou uma geração de poetas. Parte de sua trajetória é contada no livro que o IMS lança agora com base no acervo que, herdado pelo poeta Armando Freitas Filho quando a amiga morreu, pertence agora à instituição.

“Começamos o livro pela última foto dela e vamos retrocedendo até encontrá-la no colo dos pais. E temos a impressão de que ela nunca deixou de ser poeta. Vai mudando a letra, o poema, o rostinho, o tamanho, mas em nenhum momento existe uma ruptura, ou um momento que diga: aqui ela começou a escrever. Ela escreveu sempre”, diz o também poeta Eucanaã Ferraz, organizador do volume ricamente ilustrado com fotos, manuscritos, datiloscritos e desenhos.

A Ana C. que o leitor descobrirá na obra é a Ana Cristina que ele construiu com base nas fotos que foram tiradas, guardadas e que estão no vasto acervo, alerta. “Essa Ana Cristina é uma pessoa muito interessante, camaleônica, muito bonita, charmosa, que dialoga com a câmera e que faz sempre pose. Ela tem a noção de que uma fotografia é um relato, uma microbiografia”, diz. Ao mesmo tempo em que aparece muito exposta, parece que ela está usando uma máscara, comenta Ferraz. “As imagens célebres dela com os óculos escuros são muito emblemáticas – como se eles recusassem uma visão total dela.”

Na obra, amigos de Ana, como Armando Freitas Filho e Heloisa Buarque de Hollanda, descrevem algumas das fotos enquanto poetas da nova geração imaginam os momentos.

Caio Fernando Abreu é uma das ausências sentidas – embora os dois tenham se correspondido mais do que se encontrado. “A minha Ana Cristina não conheceu o Caio. Não tinha nenhuma imagem deles, nenhuma carta”, explica. Mas Eucanaã conseguiu chegar a um namorado inglês pouco lembrado quando se fala nela. Christopher Rudd contou a história por trás de uma das fotos incluídas no livro: os dois na rua em que Emily Brontë morou – àquela época, Ana, estudante de tradução literária na Inglaterra, lia O Morro dos Ventos Uivantes.

PROGRAMAÇÃO

Quarta-Feira, 29 de junho

Sessão de abertura 

'Em Tecnicolor', 19h

Armando Freitas Filho e Walter Carvalho

Sessão de Cinema, 19h45

“Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície” 

Quinta-Feira, 30 de junho

Mesa 1 - A teus pés, 10h

Annita Costa Malufe

Laura Liuzzi Marília Garcia

Mesa 2 - Cidades refletidas, 12h

Francesco Careri Lúcia Leitão

Mesa 3 - Os olhos da rua, 15h

Caco Barcellos Misha Glenny

Mesa 4 - Histórias naturais, 17h15

Álvaro Enrigue Marcílio França Castro

Mesa 5 - Matéria cinzenta, 19h30

Henry Marsh Suzana Herculano-Houzel

Mesa 6 - Na pior em Nova York e Edimburgo, 21h30

Bill Clegg Irvine Welsh

Sexta-feira, 1 de julho

Mesa 7 - Breviário do Brasil, 10h

Benjamin Moser Kenneth Maxwell

Mesa 8 - A história da minha morte, 12h

J.P. Cuenca Valeria Luiselli

Mesa 9 - O show do eu, 15h

Christian Dunker Paula Sibilia

Mesa 10 - Encontro com 

Karl Ove Knausgård, 17h15

Mesa 11 - Mixórdia de temáticas, 19h30

Ricardo Araújo Pereira Tati Bernardi

Mesa 12 - Sexografias, 21h30

Gabriela Wiener Juliana Frank

Sábado, 2 de julho

Mesa 13 - Encontro com Leonardo Froés, 10h

Mesa 14 - De Clarice a Ana C, 12h

Benjamin Moser Heloisa Buarque de Hollanda

Mesa 15 - Encontro da arte com a ciência, 15h

Arthur Japin Guto Lacaz

Mesa 16 - Encontro com

Svetlana Aleksiévitch, 17h15

Mesa 17 - O falcão e a fênix, 19h30

Helen Macdonald

Maria Esther Maciel

Mesa 18 - O palco é a página, 21h30

Kate Tempest Ramon Nunes Mello

Domingo, 3 de julho

Mesa 19 - Síria mon amour, 10h

Abud Said Patrícia Campos Mello

Mesa 20 - Encerramento: Luvas de pelica, 14h

Sérgio Alcides Vilma Arêas

Mesa 21 - Livro de cabeceira, 14h15

Arthur Japin, Helen Macdonald, Heloisa Buarque de Hollanda, J. P. Cuenca, Karl Ove Knausgård, Kate Tempest, Laura Liuzzi, Marcílio França Castro, Misha Glenny e Ricardo Araújo Pereira

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