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Historiador revê condições que levaram ao surgimento de regimes autoritários na Europa

Ian Kershaw lança o livro 'De Volta do Inferno'

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2016 | 05h00

Ian Kershaw é hoje o principal historiador do nazismo, conhecido especialmente por sua monumental biografia de Hitler, já publicada no Brasil em versão abreviada, e também por vários outros títulos essenciais para entender como a Alemanha sucumbiu a Adolf Hitler – e, com ela, o mundo civilizado. Ele agora se dedica a escrever a história da Europa no século 20, período em que se desenrolou esse terrível processo de destruição, cujas marcas ainda estão visíveis em toda parte, embora o nazismo em si, para muitos, pareça algo já distante no tempo. Saiu no Brasil o primeiro dos dois volumes desse trabalho, De Volta do Inferno (Companhia das Letras), livro que trata especialmente do processo de destruição dos pilares sobre os quais se assentava a ordem mundial, com a inauguração de uma era de violência absoluta. 

Kershaw, em entrevista para o Estado, comenta alguns possíveis paralelos do momento atual – especialmente depois da vitória do populista Donald Trump na eleição à presidência dos Estados Unidos – com o processo que precedeu a chegada ao poder de partidos e líderes autoritários na Europa dos anos 20 e 30. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Em seu livro, o sr. descreve as condições objetivas que permitiram o surgimento de regimes autoritários e totalitários na Europa nos anos 30. Entre essas condições, o sr. destaca o desencanto com a democracia liberal e a desmoralização da política tradicional. O sr. acredita que o momento atual, especialmente com o sucesso de Donald Trump nos Estados Unidos e a força da xenofobia na Europa, se assemelha de alguma forma a esse cenário?

Certamente há, hoje, algumas características muito perturbadoras da política em democracias há muito estabelecidas. A raiva no establishment político, e os partidos que a sustentam, produziram polarização, um enfraquecimento dos partidos moderados conservadores, liberais e social-democratas e um fortalecimento de partidos mais extremos, às vezes da esquerda, mas mais usualmente nacionalistas e xenófobos. Isso abre o caminho para movimentos em direção ao autoritarismo. Na Europa, a ameaça à democracia liberal prevalece mais em algumas partes da Europa Central e Oriental, onde a crise dos refugiados tem exacerbado o sentimento de ameaça à identidade nacional. Na Europa Ocidental, a suposição mais provável é que a democracia liberal não dará lugar ao autoritarismo, mas que a crescente intolerância e xenofobia terá, no entanto, um impacto sobre a política dos principais partidos. Isso será muito fortalecido agora que Trump ganhou a presidência nos EUA.

O sr. atribui a deflagração da Segunda Guerra Mundial ao nacionalismo étnico, às demandas territoriais alemãs e francesas, à ameaça socialista e à Crise de 1929. O sr. diria que Hitler é o produto de uma situação em que a guerra era de todo modo inevitável? Ou o sr. acredita que, mesmo nessas circunstâncias, a guerra poderia ter sido evitada se Hitler não tivesse chegado ao poder?

Hitler foi de fato um produto das circunstâncias drasticamente alteradas que se seguiram à Primeira Guerra Mundial. Sem essa guerra é impensável que Hitler pudesse ter-se tornado chanceler da Alemanha. O resultado da Primeira Guerra Mundial fez com que a ocorrência de outra guerra se tornasse muito mais provável. Mas os desenvolvimentos da segunda metade da década de 1920 mantiveram alguma esperança de evitar grandes conflitos, até que a Europa foi atingida pela Grande Depressão que se seguiu à quebra de Wall Street. Uma vez que Hitler tinha chegado ao poder na Alemanha durante a crise da Depressão, as chances de evitar uma outra grande guerra rapidamente diminuíram e logo chegaram a zero.

O sr. escreve que o principal beneficiário da crise capitalista de 1929 foi a extrema direita, e não a esquerda, como poderíamos imaginar. Por que isso aconteceu?

A esquerda estava dividida em quase toda parte entre comunistas, que olhavam para Moscou e visavam à criação de uma “ditadura do proletariado”, e os social-democratas, geralmente o maior segmento da esquerda, que estavam dispostos a perseguir seus objetivos através da democracia parlamentar, objetivos esses que foram enormemente enfraquecidos quando o apoio à democracia entrou em colapso. A esquerda apelou essencialmente para um setor da sociedade, a classe trabalhadora industrial. Aqueles que possuíam bens, inclusive os agricultores, eram em grande parte alienados pela esquerda e especialmente temerosos do comunismo. E, num tempo de grande desordem e medo, a direita, que prometia o restabelecimento da ordem, a criação de uma sociedade baseada no interesse nacional e não setorial e o esmagamento daqueles que representavam a maior ameaça – os comunistas – obteve um amplo apoio.

Este é o primeiro volume de dois sobre a história da Europa contemporânea que o senhor está escrevendo. Na primeira metade, é claro o papel central da Alemanha. Na segundo, esse papel permanecerá?

É inegável que a Alemanha esteve no centro da história europeia ao longo do século 20, e ainda está lá. Ela desempenhou um papel importante na eclosão de duas guerras mundiais, foi o centro da Guerra Fria, foi o centro de eventos que trouxeram o fim da Guerra Fria, e tem sido mais recentemente o principal país na crise da zona do euro. Na primeira metade do século, as ambições da Alemanha de se tornar o poder dominante no continente europeu inevitavelmente levaram a grandes conflitos. Na segunda metade do século, as lições políticas da história da Alemanha foram plenamente aprendidas, mas a crescente força econômica, inevitavelmente, faz com que a Alemanha continue a ser o pivô da Europa.

Seu livro apresenta as vastas mudanças sociais que acompanharam as duas grandes guerras. A principal dessas mudanças parece ser a consolidação do homem-massa, um fenômeno em que o indivíduo perde completamente seu poder, diluído em partidos de massa, meios de comunicação de massa e guerras de destruição em massa. Poderíamos dizer que esse fenômeno mantém a própria ideia de civilização permanentemente em risco, como testemunhado na Europa do século 20?

De certa forma, a segunda metade do século 20 viu a diluição das estruturas coletivas e uma maior volta para o individualismo. Após a Segunda Guerra Mundial, os interesses coletivos da população, subsumidos nos principais partidos políticos e sindicatos, produziram mudanças sociais que foram uma grande melhoria para a vida da maioria das pessoas. A partir da década de 1970, e cada vez mais desde a época, à medida que avançamos para uma sociedade pós-industrial, a tendência tem sido a busca de interesses individuais e não coletivos e, geralmente, no contexto da economia neoliberal. Estamos vendo agora a dificuldade de manter as demandas cada vez maiores de prosperidade e liberdades individuais, já que a globalização produz muitos vencidos e vencedores, e amplia o abismo entre aqueles que têm e os que não têm. Este, no presente e no futuro previsível, será provavelmente o maior desafio que as sociedades atuais enfrentam e continuará a revelar, como se diz frequentemente, o “gelo fino da civilização”.

DE VOLTA DO INFERNO - EUROPA, 1914-1949

Autor: Ian Kershaw

Tradução: Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra

Editora: Companhia das Letras (552 págs.,R$ 79,90)

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