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Historiador revê ação da Comuna de Paris e da vida dos rebeldes

Obra do norte-americano foge dos clichês e narra o episódio histórica da execução de 10 mil manifestantes por 130 mil militares 

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

24 Outubro 2015 | 04h00

O historiador norte-americano John Merriman, da Universidade de Yale, em seu livro A Comuna de Paris: 1871 – Origens e Massacre, mostra que um dos trágicos episódios da história francesa foi também um dos mais criativos, indutor de movimentos artísticos como o impressionismo e o pós-impressionismo. Pode parecer uma associação um tanto bizarra, mas o fato é, segundo Merriman, que as ruínas das barricadas não apagaram os traços ideológicos dos communards entre a burguesia artística parisiense, a despeito dos esforços de reprimir aquele que o historiador classifica como o primeiro levante socialista europeu a ter nos postos de comando representantes da classe trabalhadora.

Merriman concedeu uma entrevista por telefone ao Caderno 2, na qual revelou seu método de abordagem do massacre brutal da Comuna de Paris, episódio histórico que ainda desafia os estudiosos. Em maio de 1871, o Exército francês enviou 130 mil soldados para reprimir a Comuna, que se rebelou contra seus dirigentes e estabeleceu, na noite de 28 de março daquele ano, o próprio governo, criando uma administração paralela. Resultado: a Comuna foi esmagada e seus integrantes viraram bodes expiatórios, pagando o preço da derrota da França na guerra contra a Prússia. Militares humilhados nesse conflito, que definiu o colapso do Segundo Império, usaram os ‘communards’ para se vingar. Em uma semana, o Exército francês executou 10 mil manifestantes e prendeu outros 36 mil.

Merriman descreve como os insurgentes se uniram num movimento popular que não foi exclusivamente formado por proletários, mas por trabalhadores comuns e artesãos. Anarquistas, diz ele, estavam infiltrados na Comuna, mas não davam as cartas no primeiro governo popular que registra a história contemporânea. Há, no livro, detalhes sobre as formas de organização política e social que levaram os manifestantes às ruas e descrições sangrentas do massacre dos líderes e integrantes da Comuna, perpetrado por um Estado dito moderno, mas incapaz de lidar com a oposição de modo civilizado.

A Comuna, diz Merriman, foi uma experiência moderna de administração, que acreditava no voto, na igualdade de direitos entre homens e mulheres e prometia a seus integrantes papel ativo na governança. Esse sonho de autonomia foi destruído com o massacre promovido pela Terceira República, entre 21 e 28 de maio de 1871. “Meu livro não é tanto sobre o sonho utópico do socialismo, mas sobre governar numa época em que a República foi forçada a assinar um impopular tratado de paz, em fevereiro de 1871, e os pobres reagiam contra a restauração da monarquia.” Esse medo foi reforçado quando a Assembleia Nacional mudou-se em março daquele ano para Versalhes, antiga residência dos reis. Quando o exército avançou sobre Paris, a Comuna bloqueou as ruas. Os soldados, num primeiro momento, se recusaram a atirar contra o povo.

Atiçados pelos oficiais, acabaram por matar homens, mulheres e crianças.

Merriman chama a atenção para os termos preconceituosos usados pelos oficiais nessa batalha contra aqueles que consideravam criminosos. “Vermes”, incorporado depois pelos nazistas, era o mais comum. “Essas atrocidades podem ser relacionadas com ações praticadas em épocas posteriores, como a Guerra Civil Espanhola, nos anos 1930, o exemplo mais próximo de um levante popular contra um regime impopular, mais ainda que o Maio de 1968”, observa o historiador. Ele admite que a consciência que tinham os trabalhadores da Comuna de seus direitos pode ter influenciado os movimentos socialistas do início do século passado. Contudo, seu interesse era mais particular que geral quando começou a escrever o livro, o que justifica a minuciosa descrição da vida de militantes como Louise Michel, feminista que chegou a convocar prostitutas como enfermeiras, provocando choque em alguns camaradas.

“Louise Michel passou anos ensinando e falando em clubes, igrejas, até construir barricadas e ter como antípoda na Comuna homens como Raoul Rigault”, observa o historiador. Rigault já foi definido como uma espécie de Danton da época, uma mistura explosiva de revolucionário sanguinário com bon vivant, apreciador de bons vinhos. “Ele era esperto, mas não muito admirado em razão de sua natureza”, comenta o historiador. Aliado a isso, os integrantes da Comuna não eram pragmáticos em relação às táticas de espalhar suas teses sindicalistas na França da belle époque. Não eram nem mesmo competentes para construir barricadas. Se há uma observação a fazer sobre o livro de Merriman é que ele é mais simpático com os ‘communards’ que com os seus oponentes. “Mas não os reduzo a estereótipos”, defende-se.

O ousado pintor impressionista Manet, por exemplo, não era a favor da Comuna, admite o historiador. “Porém, ele era contra a repressão aos communards.” Renoir, embora mantivesse cautelosa distância da classe operária, acabou por pintá-la em telas que retratam domingos festivos de tipos populares em lugares públicos. Já Degas, filho de banqueiro, passou ao largo da Comuna. Bom pintor, até pintou lavadeiras e passadeiras entre 1876 e 1878, talvez para livrar sua consciência culpada, não por militância pela causa operária. Preferia mesmo o mundo do balé, dos cavaleiros e da próspera burguesia parisiense. “Você encontra poucos apologistas da Comuna entre artistas e escritores franceses, essa é a verdade.”

Em todo o caso, foi a primeira exposição impressionista, em 1874, que trouxe uma nova luz para a arte francesa, revelando ao mundo que havia beleza na diversão do homem comum e no trabalho digno das passadeiras e lavadeiras, além dos trens que chegavam à estação enevoada da Paris dos ‘communards’. “A Comuna não tinha a mínima chance de vencer o Exército francês, mas ainda a vejo como um exemplo inspirador, embora seja difícil imaginar algo parecido nos dias de hoje.”

Trecho 

"A classe social podia determinar a vida ou a morte...

...Communards de classe média tinham uma probabilidade maior de convencer os versalheses que encontravam a liberá-los. Sutter-Laumann sobreviveu porque se lavou com cuidado, penteou o cabelo e falou “em bom francês, sem sotaque da classe trabalhadora” quando foi parado por um oficial dos Voluntários do Sena.

Se aqueles que eram parados falavam o jargão das ruas e dos locais de trabalho parisienses, geralmente seguia-se a execução. Um oficial interrogou um homem numa barricada na rue Houdon. “Quem é você?” “Um maçom”, respondeu o homem. “Então agora são os maçons que vão comandar!” O oficial matou o homem a tiros no local. A estigmatização social levou ao massacre.

Estrangeiros capturados tinham pouca chance de sobreviver, porque sua presença em Paris correspondia a uma imagem da Comuna, em parte, cuja origem se deu a partir da obra de imprestáveis poloneses, russos e alemães”.

A COMUNA DE PARIS – 1871: ORIGENS E MASSACRE. Autor: John Merriman Tradução: Bruno Casotti. Editora:

Rocco (400 páginas, R$ 59.50) 

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