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Historiador lança livro que projeta cenários futuros da humanidade

'Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã', de Yuval Noah Harari, lançado pela Companhia das Letras, tem eventos e ideias transformados em protagonistas, com uma narrativa do gênero humano concebida como odisseia.

Rodrigo Petronio, ESPECIAL PARA O ESTADO

25 Março 2017 | 05h00

Imagine uma história da vida que aborde milhões de anos passados. E que ouse projetar cenários possíveis de milhares de anos futuros da humanidade. Uma história narrada com recursos da ficção. Os eventos e as ideias transformados em protagonistas, como em um storytelling. Uma narrativa do gênero humano concebida como odisseia. 

Esse é basicamente o empreendimento intelectual do jovem historiador Yuval Noah Harari em duas obras complementares. A primeira é Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, um best-seller publicado em mais de 30 países e que a L&PM trouxe aos leitores brasileiros em 2015. Agora é a vez da continuação Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã, que acaba de ser lançada pela Companhia das Letras. 

Formado em Oxford e professor da Universidade de Jerusalém, Harari consegue a proeza de escrever de modo simples sem ser simplista. E concilia divulgação científica de alta qualidade com ideias originais, em meio a informações torrenciais e bibliografias cruzadas. Situado na fronteira entre a historiografia e a biologia, já pode ser definido como um dos instigantes pensadores contemporâneos da cultura, como Jared Diamond, Steven Pinker e Frans De Waal.

A tese de Sapiens diz respeito ao papel desempenhado pelas narrativas na hominização, ou seja, no processo de milhões de anos que gerou o homo sapiens a partir dos primatas superiores. Para tanto, Harari cria o conceito de “realidades imaginadas” ou “ordens imaginadas”. As narrativas não seriam apenas relatos que serviram para registrar eventos de nossos antepassados. As narrativas foram a urdidura capaz de manter os grupos humanos coesos. Em ouras palavras: as narrativas promoveram nossa sobrevivência como espécie. 

Essas narrativas não se assemelham ao que desde o século 19 se convencionou chamar de ficção. Harari concebe a arte, as religiões, a filosofia, os impérios, os Estados e inclusive a ciência como ordens imaginadas. O humano não é apenas um animal racional (sapiens). É acima de tudo um homo narrans: um animal narrativo. Um animal capaz de relatar suas experiências e dotar de sentido um mundo sem sentido. A partir dessa premissa, Harari supera o dualismo que norteia a ciência moderna. O humano deixa de ser cindido entre o puramente biológico e o puramente cultural. O humano é um tecido intersubjetivo de narrativas coletivas. 

A partir dos princípios da seleção natural darwiniana, tais como ausência de finalidade (telos), seleção, adaptação e complexidade, Harari descreve a evolução do gênero homo na África (2,5 milhões de anos). Em seguida, passa ao surgimento do homo sapiens (200 mil anos) e às práticas dos caçadores coletores. O arco dessa grande narrativa se desdobra em três revoluções: a cognitiva, a agrícola e a científica. A Revolução Cognitiva (70 mil anos) ocorre justamente quando o sapiens começa a criar as primeiras narrativas e se distingue dos demais hominídeos, como o floresiensis e o neanderthalensis. 

A Revolução Agrícola (10 mil anos) teria alterado de modo radical o hábitat do sapiens, gerando uma lógica paradoxal dos excedentes. Surge o mito que guia a humanidade: hierarquias sociais e acumulação de riqueza. Por sua vez, as cidades, a administração e o dinheiro produziram os imperialismos e universalismos que estão na gênese das religiões universais. 

Coube à Revolução Científica relativizar os mundos conhecidos (século 16 até hoje) e até mesmo nossa noção de conhecimento. O sapiens descobre sua insignificância. Aprofunda-se um novo paradoxo: quanto maior é a potência da ciência maior é a impotência da razão. A ciência promoveu um esvaziamento das explicações tradicionais do mundo. A relação de simbiose entre ciência e império produziu também a crença em um crescimento ilimitado. 

O tempo presente representa o paroxismo dessa revolução científica. E sinaliza para uma das mais profundas transformações da humanidade. A substituição das tecnologias do carbono pelas tecnologias do silício inaugura um novo estágio da vida na Terra. A seleção natural, regida pelo acaso, cede espaço a uma seleção artificial, programada pela biotecnologia. 

O ciclo do homo sapiens foi definido pela construção da eternidade por meio das narrativas religiosas. Em breve, uma inesperada aliança entre religião e tecnologia deve realizar o projeto de divinização do humano: o homo deus. A odisseia do homo sapiens até agora se baseou no combate contra três inimigos: a fome, a peste e a guerra. A nova revolução que nos conduz ao homo deus consiste na realização de outros três imperativos: a felicidade, a imortalidade e a divindade.

Como se sabe, alguns teóricos têm definido a era atual como Antropoceno, à medida que o humano já teria produzido marcas na Terra que terão a duração de eras geológicas. Contudo, para Harari essa nova Era do Humano paradoxalmente vai testemunhar a extinção do sapiens. O devir das espécies, as mutações genéticas e a seleção artificial darão origem a novas espécies de hominídeos, como ocorreu há milhões de anos, por meio da seleção natural. As criações in vitro e o controle artificial da vida podem tornar a morte obsoleta. A imortalidade terrena deve se consumar com o corpo glorioso do homo deus. Harari chama essa busca de imortalidade de Projeto Gilgamesh. 

O advento do homo deus é cada vez mais plausível graças à estrutura paradoxal do humanismo moderno. Para Harari, desde o século 18 o humanismo se apresenta como secular, mas no fundo é uma nova religião. Desde os primórdios, o humano narra seu embate com Deus e com deuses. A modernidade colocou o humano como protagonista solitário de um drama em um cosmos vazio. A morte de Deus e o eclipse dos deuses acabou por sacralizar o humano. A narrativa da modernidade engendrou três tipos de humanismos: o liberal, o socialista e o evolutivo. 

Ao longo do século 20, o humanismo liberal derrotou os outros dois humanismos, o evolutivo-nazifascista e o socialista-coletivista. Mas é cedo para comemorar. O século 21 traz uma novidade: a ciência será responsável pela destruição do humanismo liberal. O liberalismo acredita em indivíduos. A ciência prova que somos seres divíduos ao infinito. Não existe uma unidade metafísica. A alma, o corpo, a mente, as células são infinitamente subdivisíveis em subsistemas fisioquímicos cada vez mais discretos. Mesmo divinizado, o homo deus está fadado a presenciar a morte do eu. A absoluta dissolução da individualidade. 

Outro limiar que nos aguarda é o Grande Desacoplamento: a inteligência passa cada vez mais a se desprender da consciência. A vida inteligente não depende mais do corpo biológico. A resposta a esse desacoplamento pode vir por meio de uma restauração tecno-humanista. Ou por meio de uma nova revolução: a religião dos dados sem sujeito, conhecida como dataísmo. À medida que concebe os organismos como algoritmos, o dataísmo pode transpor as fronteiras entre orgânico e inorgânico, entre vida e não vida. Cria assim uma definição de vida que abrange todos os seres sencientes (sensíveis à dor) e não apenas seres conscientes ou inteligentes. Nesse cenário, o humano se dissolveria como poeira no oceano do cosmos e da consciência. 

Em Sapiens há transições muito rápidas entre os domínios tão heterogêneos da economia, da religião e da ciência. Em Homo Deus há um fatalismo dos algoritmos. Se os algoritmos são moldados pelo desejo humano, por que os algoritmos determinam o desejo? Por que o desejo não é capaz de determinar os algoritmos? Contudo, nenhuma dessas objeções macula o brilhante empreendimento intelectual que não teme se aventurar nas grandes narrativas. Harari é o Carl Sagan da historiografia. Um autor que ousa criar novos passados possíveis e novos futuros prováveis para a nossa frágil e contraditória humanidade.

HOMO DEUS: UMA BREVE HISTÓRIA DO AMANHÃ

Autor: Yuval Noah Harari

Tradução: Paulo Geiger

Editor: Companhia das Letras (448 págs., R$ 54,90)

* Rodrigo Petronio é escritor, filósofo, doutor em literatura comparada pela UERJ e professor da FAAP

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