Maria Fernanda Rodrigues/Estadão
Maria Fernanda Rodrigues/Estadão

Historiador Boris Fausto fala sobre seu diário de luto, maioridade penal e PT em Paraty

Convidado da Flip, ele deve protagonizar uma das mesas mais emotivas desta edição; diário começou a ser escrito depois da morte da mulher

Entrevista com

Boris Fausto

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

02 Julho 2015 | 21h03

O historiador Boris Fausto, 84 anos, “o mais novo veterano da Flip”, como se apresenta, deve protagonizar, na manhã desta sexta-feira, dia 3, a mesa mais emotiva do festival. Ele fala sobre O Brilho do Bronze (Cosac Naify) – diário que iniciou um mês após a morte de sua mulher, companheira por quase meio século. “Mas pedi que o debate fosse mais abrangente. Se vou ter um encontro geral com as pessoas, acho mais interessante dar uma visão diversificada das coisas que consegui fazer e discutir alguns temas do que concentrar demais num livro que estimo muito, que é de coração, mas é apenas uma parte de todo um trabalho de muitos e muitos anos”, disse, em conversa com o Estado. Ele falou sobre a escrita da obra, que durou quatro anos, sobre o luto, a maioridade penal e o PT.

Por que escreveu o diário?

Sempre tive um espaço aberto, no dia, para escrever, que é a coisa de que mais gosto de fazer. Eu não tinha condição de fazer uma pesquisa, algo afastado de mim, e tinha essa tristeza grande. Então tive vontade de colocá-la no papel.

Depois de decidir publicá-lo, reescreveu alguma coisa?

Eu tinha escrito cerca de 30%. O que aconteceu foi que tinha partes muito difíceis, que eu queria escrever, mas não ousava. Velório, cremação, certos momentos de despedida. Quando resolvi que era melhor parar, porque você pode escrever um diário pelo resto da vida, voltei fazendo um esforço, mas de uma maneira já mais suavizada. 

Pela distância no tempo ou pelo processo da escrita, do luto?

Pelas duas coisas. As cenas vão se tornando mais familiares e menos assustadoras e a passagem do tempo também ajuda, felizmente.

Como é transformar esse sentimento tão particular em história?

Sempre gostei e brinquei com as palavras. Para o bem ou para o mal. Escrever é uma coisa natural, gostosa.

Mesmo sobre assuntos como o que o senhor abordou?

Mesmo. Mas com ressalvas, afinal, não sou nenhum herói. Havia coisas que eu não conseguia pôr no papel. Tinha coisa que era demais, que ainda estava dentro de mim, não saía.

Escrever esse livro o ajudou a encontrar um lugar para a dor?

Sim, mas não só ele. A recepção também. Fui me abrindo muito pós-luto. Fui procurando pessoas, novas amizades. Isso me ajudou enormemente.

No livro, o senhor fala do brilho das lápides, que com o tempo se perde. Tem a ver com a dor, que encontra uma acomodação?

A dor vai se transformando em memória. Uma memória meio nostálgica, gratificante. Encontramos um lugar na consciência, na lembrança, para aquela pessoa. Sobre a questão das lápides, eu materializo o cemitério como lugar de memória. A ideia de conservar aquilo, levar flores, conversar, para mim, faz sentido. Não que eu acredite que alguém esteja lá.

O senhor já tem outras duas obras de memórias. Em que lugar este diário se insere em sua bibliografia?

Elas estão na rota intimista. Escrevi alguma coisa de história entre esses três livros. Mas dei uma virada aí num sentido mas intimista, de me expôr, de contar a vida achando que ela tem coisas interessantes a serem reveladas. Quem me deu o primeiro impulso foi meu filho. Demorei muito para escrever o segundo. O terceiro entra nesse gênero, mas como uma espécie particular, de luto, é uma outra coisa. O detonador foi a morte da minha mulher, mas eu já estava nesse trilho. Gostei da experiência.

É preciso coragem para contar coisas tão íntimas para desconhecidos?

Sim. Comecei com essa proteção – dizer que estava escrevendo para mim e para os meus filhos. Quando minha psicanalista me deu esse impulso, eu achei que tinha coisas para dizer e que seria interessante para mim e para outras pessoas.

O senhor mescla essa narrativa mais particular com fatos que estavam acontecendo por aqui. Como vê o País, agora, a questão da maioridade penal?

Como está, estabelecer 18 anos como limite, contraria nossa realidade social. Não dá para deixar assim porque temos que reconhecer que a moçada se desenvolve com maior rapidez, se insere na vida com maior rapidez e tem uma série de responsabilidades. Então tem que ser responsabilizado. Se você pergunta se redução da maioria para certos crimes graves contribui muito para reduzir a criminalidade, eu diria que provavelmente não. Mas temos uma situação de ipmunidade que é sustentada por uma leniência equivocada, que é pegar personagens sinistros, como alguns jovens, e impor uma internação na Fundação Casa, que certamente deve ser um inferno, e pôr um limite de três anos e depois essa pessoa está na rua. Isso não é viável e é uma aberração nossa. Acho que tem mesmo que reduzir para alguns tipos de crime. Se olhar o Ocidente, porque cada vez mais o Oriente Médio faz sua própria justiça e cabeças rolam, não há mais esse tipo de concepção.

E o senhor acha que o País está em derrocada ou estamos em pânico?

Não estamos na Grécia. Temos recursos, estrutura, gente com capacidade, uma porção de coisas que vão evitar que tenha uma derrocada fatal. Acredito também, não sendo especialista na economia, que vai ser muito duro sair dessas condições. E devo dizer, em poucas palavras, que em grande parte isso se deve aos governos do PT.

Outro livro no caminho?

Estou numa espécie de parada. Pensando em voltar, mas sem urgência. Toda essa parte mais íntima, para mim, está meio esgotada. Não iria mais por esse caminho. Tenho que dar uma virada, mas que ainda não está muito clara.

E ficção?

Nunca tentei, tenho inveja de quem escreve, não me arrisco. Um sonho seria fazer um romance policial bom, mas não vou fazer um romance policial bom; então, para fazer um ruim eu não faço.

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