Daniel Teixeira/ Estadão
Daniel Teixeira/ Estadão

História de Leilah Assumpção se confunde com a própria origem do teatro brasileiro 

A incansável dramaturga é uma voz potente do teatro brasileiro, que há tempos se dedica a delinear os diversos perfis da mulher moderna

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2019 | 06h00

A peça Fala Baixo Senão Eu Grito, que marcou sua estreia no palco em 1969, revelou o que seria a principal marca de sua escrita: personagens femininas densas em busca do autoconhecimento e da liberdade. Crítico teatral do Jornal da Tarde, Sábato Magaldi registrou: “disposta a colocar em xeque determinadas posturas assumidas no mundo do trabalho e no espaço familiar, a autora voltou-se para os problemas existenciais da mulher imersa numa estrutura política ditatorial”.

Surgia uma voz potente no teatro brasileiro. Leilah passou a delinear, como poucos, os diversos perfis da mulher moderna. Para isso, contou com exuberante presença cênica de Marília Pêra em 1969, com Fala Baixo... – e com a não menos inesquecível Irene Ravache, cuja carreira tomou novo rumo a partir de Roda Cor de Roda (1975). São suas peças em que o comportamento da mulher surpreende.

Fala Baixo... trazia Marília como Mariazinha, a solteirona marcada por frustrações que tem o quarto, certa noite, invadida por um homem armado (vivido inicialmente por Paulo Villaça). O fato desencadeia uma transformação na rotina pacata da mulher, que envereda em uma alucinante busca do autoconhecimento e liberdade. “Marília me disse que via Mariazinha como uma concha, e que ela, Marília, tinha essa concha dentro dela também. E só bem mais tarde é que percebi que a personagem tinha algo de mim, que eu também tinha uma concha escondida lá dentro.”

Roda Cor de Roda, reputada por muitos como o melhor texto dramatúrgico de Leilah Assumpção, aprofunda a análise sobre a mulher que ela desenvolvia ao longo de seu trabalho. A peça nasceu, na verdade, em 1973, quando foi dirigida por Aderbal Freire-Filho e se chamava Amanhã, Amélia, de Manhã. A montagem carioca foi prejudicada por cortes e uma produção deficiente. Reestruturada e com uma inteligente direção de Antonio Abujamra, o texto, agora com novo título, mostra a mulher que, ao descobrir que o marido tem uma amante, transforma a própria casa em um bordel.

“A peça nasceu quando uma amiga manequim que morava comigo num apartamento teve um caso com um homem casado de Belo Horizonte”, escreve Leilah. “Ela se levantava cedo, ligava para a mulher dele e ficavam, as duas, hooooooras se xingando. Perguntei-lhe se as duas não tinham percebido ainda que elas é que estavam tendo um caso uma com a outra; o marido havia ficado de lado. Ele acabou vindo a se casar com ela em São Paulo. Hoje, já morreram todos.” Ficou intacta novamente a dissecação do mito feminino e seus caminhos de libertação.

Apesar de em momentos a linguagem soar poética, Leilah criou diálogos duros, secos, para seus personagens. Para isso, não vacilou ao utilizar palavrões. “Para mim, sempre foi uma arma”, garante ela, que utiliza o baixo calão como efeito dramático. “Em Fala Baixo..., o palavrão desestabiliza Mariazinha”, observa. “Nunca falei palavrão na minha casa, mas tive que falar depois de assistir à algumas peças do Plínio Marcos; caso contrário, eu não conseguiria escrever as minhas peças.”

O autor de Dois Perdidos Numa Noite Suja, aliás, é lembrado em outra passagem das memórias, quando Leilah conta que um dos censores de Brasília implicou com a incidência de palavrões em seus textos – segundo o senhor engravatado, Plínio Marcos podia porque era um homem do cais do porto – e ela era uma mulher fina. “Para deixá-los mais à vontade, comecei a recitar palavrões na frente deles – com toda a classe, é claro”, anota a escritora que, com tal estratagema, conseguiu impedir a troca da palavra “gozar” por “atingir o clímax”. “Meu argumento definitivo foi dizer que jamais um ladrão diria que ‘atingiu o clímax’.”

No livro, Leilah lembra de outro curioso recurso utilizado pela classe artística nos anos 1960 e 70, quando a vigilância da ditadura beirava o insuportável: alguns escreviam seus textos recheados de palavrões para que o censor cortasse todos e deixasse a essência. A dramaturga decidiu usar o mesmo recurso para Roda Cor de Roda, mas, surpresa, a peça foi liberada sem cortes. “Eu, a censurada, não podia cortar os palavrões que ficaram demais”, recorda-se Leilah, obrigada a manter o texto original.

Sábia solução, pois as palavras de Leilah são sempre diretas e ilustram cenas cuja dramaticidade atingem o espectador no estômago. “Eu sou o teu Orlando, não lembra? Teu marido arrependido”, clama o adúltero em um dos grandes momentos de Roda Cor de Roda. “Agora é só um freguês! E com as contas atrasadas!”, replica Amélia, a mulher de verdade que transformou a casa em um prostíbulo.

Em sua trajetória, Leilah evita fazer concessões. Em Seda Pura e Alfinetadas (1980), revela os bastidores da alta-costura, que conheceu de perto. Mas, se há uma peça que rivaliza com Roda... é Intimidade Indecente (2001), que a reaproximou de Irene Ravache. Ela (que seria substituída por Vera Holtz na continuação da temporada) dividiu a cena com Marcos Caruso na avaliação da vida de um casal, do começo do casamento à morte, sempre encarando a vida sem máscaras.

Incansável, finaliza uma nova peça, que poderá se chamar Mergulho no Mistério Dela. Leilah faz mistério sobre a trama – revela apenas que são duas personagens, uma filósofa e uma ex-atriz, ambas com certa idade. “Espero ter Vera Holtz no elenco”, confidencia ela, prometendo mais um excitante jogo entre prazer e poder.

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