REUTERS/Gonzalo Fuentes
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Herói de livro de David Grossman contempla a sociedade israelense dos anos 1960

Toda a fragilidade do presente contínuo é abordada em 'O Livro da Gramática Interior', lançado agora no Brasil

Luis S. Krausz, Especial para O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2015 | 03h00

Ambientado no período imediatamente anterior à eclosão da Guerra dos Seis Dias, de 1967, e escrito no fim da década de 1980, O Livro da Gramática Interior, de David Grossman, retoma, de certa forma, a narrativa de Momik, a bem-sucedida primeira parte de seu romance Ver: Amor, de 1986, que conta a história de uma infância na Israel dos anos 1950 e 1960. Em ambos os livros, o pano de fundo sobre o qual se desdobra a narrativa é a angústia de um país jovem e vulnerável, sempre sob a mira de vizinhos hostis, estigmatizado pelos traumas da catástrofe dos judeus na Europa nos anos 1930 e 1940.

De um lado, está a ideologia do sionismo, que estruturou a formação do Estado de Israel em suas primeiras décadas de existência, com seu propósito de inaugurar uma nova era na história judaica e de romper, de maneira definitiva, com todo o legado histórico e cultural do judaísmo diaspórico. De outro lado, está a realidade dos imigrantes que não querem ou não podem se desvencilhar de seus passados, de seus idiomas – o ídiche era oficialmente execrado neste período – ou de suas memórias. O embate entre estes dois universos, a grande questão da sociedade neste período, insinua-se na vida interior dos personagens para ocupar um lugar fulcral na narrativa de Grossman. 

É em meio a este ambiente conflituoso, povoado de fantasmas e de tabus, que o jovem Aharon Kleinfeld, protagonista de O Livro da Gramática Interior, chega à adolescência, evento que, na tradição judaica, é marcado pelo rito de iniciação do Bar-Mitzvá, em que se marca o ingresso na vida adulta por meio da leitura pública de um trecho da Torá, especialmente designado. 

Mas o significado deste ritual, assim como o de toda a tradição espiritual do judaísmo, esmaeceu-se para a família Kleinfeld: os avós, na Europa, deslumbrados pelas maravilhas do mundo moderno, mergulharam no frenesi do hedonismo ou nos sonhos revolucionários e deixaram para trás o legado de seus antepassados. Os pais, imigrados para Israel, estão preocupados com o quotidiano comezinho de uma família de classe média baixa, num país politicamente tenso e de economia frágil. O Bar-Mitzvá torna-se, neste contexto, apenas um pretexto para que possam oferecer uma festa capaz de provocar a admiração dos convidados, recorrendo, para isto, a um empréstimo bancário.

As distorções de uma vida social dominada pelos sentimentos negativos são claramente percebidas por Aharon, e o revoltam. A narrativa gira em torno de suas tentativas de preservar a pureza e a ingenuidade em meio a um ambiente dominado pela sensualidade grosseira e pela vileza. 

Aharon gosta de imitar o famoso mago Houdini, escapando, de maneira admirável, de baús fechados e de geladeiras trancadas com correntes e cadeados. Mas do círculo perverso da sociedade que se fecha sobre ele como a aranha que, numa passagem do livro, aprisiona uma borboleta em sua teia – “rápidas, meticulosas e metódicas, suas teias transparentes envolveram o corpo fraco e apavorado” –, estreitando-se cada vez mais, será ele também capaz de escapar?

A borboleta, a aranha e sua teia tornam-se metáforas aptas não só de uma realidade social específica, mas de um destino humano irremediável. Em grego antigo, uma só palavra, Psyché, designava a alma humana e a borboleta, com suas fragilidades e seu caráter vacilante.

Ao retomar, em nova chave, o gênero do romance de formação, Grossman representa e discute o destino de um jovem sensível e perceptivo ante as imperfeições do mundo. Se passar para a condição de adulto é, também, entender-se com a precariedade da existência, com a morte e com a sexualidade, a sociedade que parece inaceitável a Aharon o conduz ao confinamento em sua “cidadela interior”, para usar um conceito de Goethe. Nas aulas de inglês do colégio, ele fica fascinado pelo ‘present continuous’, tempo verbal que não tem correspondente na língua hebraica. É um presente que se estende indefinidamente, e que, por eclipsar as perspectivas de passado e de futuro, que estão por trás das maquinações dos adultos, torna-se, para ele, um tempo verbal particularmente desejável, um escudo que o defende do mundo. 

É impossível não deixar de pensar em termos autobiográficos – e nos termos da biografia de um artista – ante este livro que representa os dilemas da sensibilidade. Aharon acha que “tudo o que eles tocam, os adultos, é infecto”. Tem um dente de leite que se recusa a cair como se quisesse estender, indefinidamente, sua situação liminar, entre infância e vida adulta. Sua integridade e sua pureza, representadas por este dente como pela borboleta que gostaria de escapar das teias, precisa germinar, como um grão, sobre o solo árido de uma terra marcada por tensões seculares, em meio a uma sociedade que molda seus membros com o ferro e o fogo. O que não é tarefa para principiantes.

LUIS S. KRAUSZ É ESCRITOR E PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA E JUDAICA NA USP E AUTOR DO ROMANCE DESERTO (PRÊMIO BENVIRÁ)

O LIVRO DA GRAMÁTICA INTERIOR

Autor: David Grossman

Tradução: Paulo Geiger


Editora: Companhia das Letras (528 págs., R$ 59,90 (papel) e R$ 39,90 (digital)

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