Hay Festival
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Hay Festival deve continuar!

Peter Florence acaba de renunciar à direção do Festival por problema de ‘assédio moral’

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2021 | 03h00

Participei de muitos festivais de literatura em minha vida, mas não me lembro de nenhum como o Hay Festival, em um vilarejo na fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales, às margens do rio Way. Ele existe desde 1987, graças a Peter Florence, e é, provavelmente, o mais bem-sucedido do mundo, pela quantidade de escritores e de público que atrai e porque é o único que se espalhou pelo planeta graças à sua liberdade, improvisação, informalidade e poder de atração. O Hay Festival que, no ano passado recebeu o Prêmio Princesa de Astúrias de Comunicação 2020, tem, além disso, a sorte de ter entre seus diretores uma espanhola, Cristina Fuentes; uma mulher multitarefa que resolve todos os problemas – uma vez, me mandou de helicóptero de Londres até Hay – e que é capaz de contagiar até os mortos com sua energia extraordinária.

Escrevo estas linhas porque soube que Peter Florence acaba de renunciar à direção do Festival, pelo que entendi, devido a um problema de “assédio moral” no ambiente de trabalho (seja lá o que se entenda por isso) e, se essa renúncia é real, seria uma desgraça para o mundo da cultura – e da literatura, de modo especial –, por isso devemos impedi-la por todos os meios ao nosso alcance. O governo inglês, que não costuma intervir nesses temas e prefere deixá-los para a iniciativa da sociedade civil, abriu uma exceção desta vez, ajudando o Hay Festival a superar os efeitos da pandemia mundial de covid-19.

O vilarejo de Hay-on-Wye foi, antes de ser sede do Festival, a capital mundial (ou pelo menos europeia) dos antiquários de livros. Um homem a quem não tenho outra opção a não ser chamar de excêntrico ou louco, além de milionário, decidiu um dia, devido à beleza do lugar, comprar boa parte das casinhas do vilarejo e oferecê-las a donos de antiquários de livros de muitos países europeus e dos Estados Unidos. Não só fez isso, mas, também, pasmem, transformou essa localidade, durante alguns anos, em um lugar importante para onde universidades, bibliotecas e colecionadores particulares viajavam uma vez por ano; pois este vilarejo galês se havia transformado em nada menos, nada mais do que na capital europeia do livro antigo. Ainda restam nessa localidade alguns antiquários daqueles tempos e é uma delícia para o público que participa do Hay Festival percorrer essas livrarias com a certeza de que encontrará em suas estantes alguma maravilha por poucas ou muitas libras esterlinas. Eu encontrei, por exemplo, em uma dessas prateleiras empoeiradas, um romance de cavalaria francesa do século 17.

Naquele momento, em 1987, a intuição ou boa sorte de Peter Florence o convenceram de que o vilarejo era o lugar predestinado a ser sede do festival de literatura que teria o maior alcance. E, de fato, depois de muitos anos, conseguiu isso. Não vou enumerar a lista de escritores de todas as línguas e dos países mais exóticos (quero dizer, menos conhecidos) que participaram, durante o verão britânico, do Hay Festival (acredito que todos os convidados tenham ido e de bom grado), mas vou falar, sim, do extraordinário público, vindo de todas as partes, que participa dos debates, leituras e conferência sobre os temas mais diversos e das amizades (e inimizades, também, por razões políticas ou estéticas) que ali nasceram. E os queridos pubs onde costumam terminar as apresentações que, desde meados da manhã até a meia-noite, têm lugar em improváveis cenários, incluindo os estábulos e galinheiros desse lugar empolgante. Não costumo participar de festivais de literatura porque não tenho tempo, mas, quando Cristina Fuentes ou Peter Florence me convidam para lhes acompanhar, nunca disse que não. Porque no Hay Festival conheci grandes escritores e fiz amizades duradouras. E poucas vezes apreciei tanto um lugar onde se falava de literatura (misturada, muitas vezes, com política ou aventuras pessoais) como nessa pequena localidade onde Inglaterra e País de Gales se confundem.

Uma das ideias geniais de Peter Florence e da equipe que o acompanha foi não limitar o festival de literatura ao vilarejo, mas, também, levá-lo para o mundo, principalmente o hispânico. Eles, seguindo um bom costume, não escolhem nunca as capitais, mas, sim, cidades no interior dos países. Nelas, o Festival, por razões óbvias, se transforma no evento mais divulgado e popular, e essa é uma das razões de sucesso dos festivais de literatura que ocorrem atualmente em Cartagena das Índias (Colômbia), Querétaro (México), Segovia (Espanha) e Arequipa (Peru), minha terra natal; onde até os empresários contribuíram com o sucesso do festival, abrindo a mão e, onde vi, com alegria, para a presença de jovens bolivianos e chilenos apaixonados pela literatura.

As mesas-redondas do Hay Festival são absolutamente livres – alguns as chamariam de anárquicas –, de tal modo que os participantes costumam falar daquilo que mais lhes importa e essa, sem dúvida, é uma das razões de sua popularidade. Há sempre uma indicação do assunto a ser tratado, mas os participantes assíduos sabem que aquilo é só um ponto de partida e que os convidados terminarão falando sobre o que mais lhes interessa. Embora o inglês costume ser a língua mais comum, também é o espanhol, ou a que preferirem os participantes; de modo que muitas dessas mesas-redondas ou encontros costumam se transformar em alegres e tumultuadas diversões, em aulas, colóquios, ou melhor, naquilo que os surrealistas chamavam de “espetáculo provocação”. Tudo isso funciona mais do que bem e, sobretudo, as leituras de poemas, contos ou trechos de romances que costumam ser realizadas pelos jovens, ponto central das apresentações cotidianas que, em certos lugares, chegam até a meia-noite (leitura com lua e estrelas).

Como em tudo, por trás do Hay Festival há uma personalidade incansável, ou melhor dito, uma equipe que se dedica a pensar e atuar e, neste caso, não quero superestimar Peter Florence, mas tenho certeza de que tenha sido ele quem contagiou com seu entusiasmo e seus sonhos o pequeno grupo de colaboradores que foi capaz de idealizar e materializar um festival de literatura e de encontros entre os escritores e leitores tão certeiro, tão cosmopolita e tão extraordinário como tem sido e, espero, continue sendo por muitos anos, o Hay Festival.

Essas coisas tão populares não costumam surgir das instituições ou dos governos, mas, sim, das pessoas. Não é nunca a mesma coisa quando uma instituição assume a responsabilidade de organizar um festival de literatura (como a Feira Internacional do Livro de Guadalajara, por exemplo, ou a Feira do Livro de Frankfurt, para mencionar duas das mais famosas) do que quando o evento resulta da improvisação e invenção de indivíduos particulares, como neste caso que conto. Em ambos os casos há uma função a ser cumprida, é claro, e devem ser incentivados, mas é evidente que a liberdade de improvisação e de invenção que possuem Peter Florence e seus colaboradores é muito maior que a estabelecida pelos governos, pelas instituições ou pelos costumes locais. Por isso, o Hay Festival deve continuar contribuindo para a difusão do livro e das boas leituras e para a aproximação entre escritores e leitores como vem fazendo por todo o vasto mundo (em uma época, o Hay Festival foi celebrado também em uma cidade da Índia). Tenho certeza de que os problemas de “assédio moral” pelos quais foi acusado Peter Florence têm como ser remediados.

E ver-se livre e animado de novo para continuar fantasiando e materializando, como fez até agora, a maneira como escritores e leitores se conheçam, realizem seus sonhos e obtenham esse pouquinho de felicidade que os livros nos trazem é um pouco melhor do que confinar-nos em busca da neurose ou da mais extensa inclinação de matarmos uns aos outros. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA © DIREITOS DE PUBLICAÇÃO EM TODAS AS LÍNGUAS RESERVADAS PARA EDICIONES EL PAÍS S.L. 2021

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