Elena Seibert/The New York Times
Elena Seibert/The New York Times

Haruki Murakami lança o livro 'Romancista como Profissão'

Escritor japonês disserta na obra a importância do ofício de autor 

AFP, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2015 | 19h53

"Para quem escrever? Como escrever e por que continuar escrevendo romances?". Haruki Murakami, o autor contemporâneo mais universal do Japão, explica os motivos em "Romancista como Profissão", seu novo livro.

"Quase todos os autores (92% na minha opinião), eu incluído, consideram que o que dizem e escrevem é o mais justo", explica o autor de livros aclamados como "Kafka à Beira-Mar" e a trilogia "1Q84". "Muitos escritores são essencialmente pessoas egoístas, que têm orgulho e um senso agudo de rivalidade", completa, em um retrato pouco complacente do mundo que integra, mas do qual sente-se afastado. "As situações nas quais a proximidade de vários escritores é negativa são mais numerosas que aquelas em que é positiva".

O escritor, que se recusa a conceder a maioria das entrevistas propostas pela imprensa, havia anunciado há um ano à AFP que desejava "falar de seu ofício e de literatura", enquanto a os meios de comunicação pedem sua opinião sobre o que acontece no mundo.

Murakami aproveita desta vez as 300 páginas de seu livro, composto por muitos trechos inéditos e textos publicados em três revistas distintas nos últimos anos, para dissertar de maneira profunda sobre o ofício de autor. Além de um autorretrato do autor com muitos exemplos do trabalho de escrever o livro, lançado na quinta-feira,  10, no Japão, também é uma resposta às críticas recebidas por Murakami.

"Quando escrevi Underground (uma longa reportagem sobre os autores e as vítimas do atentado com gás sarin cometido em 1995 pela seita Aum no metrô de Tóquio), os autores de 'não ficção' disseram que eu não respeitava as regras do gênero (...), mas eu nem sequer havia imaginado que pudessem existir supostas regras definidas", recorda.

Ele afirma que se tornou escritor porque quase todos os que sabem escrever podem fazê-lo, sem necessidade de uma técnica particular nem de aulas específicas. "Um dia escrevi um primeiro romance (ou ao menos algo que parecia com um romance), 'Hear the wind sing' (em inglês), recebi um prêmio de uma revista literária. E assim, sem entender muito bem por quêm me tornei um romancista profissional".

Sucesso editorial

Após 35 anos de carreira, Murakami é atualmente o autor contemporâneo japonês mais famoso, com milhões de livros vendidos em seu país e ao redor do mundo. Não por acaso, livraria Kinokuniya aproveitou o novo livro de Murakami para denunciar a crise do setor, ampliada pelo domínio de gigantes como a loja on-line Amazon.

A famosa livraria de Tóquio adquiriu 90% da primeira tiragem de 100.000 exemplares de "Romancista como profissão", que, pela primeira vez, tem uma foto em preto branco de Murakami na capa. "Tivemos muitas reservas antes do lançamento, vendemos mais de 100 em poucas horas", disse o gerente da Kinokuniya do bairro de Shinjuku em Tóquio.

A Kinokuniya escolheu desta vez um livro de Murakami porque tem certeza da venda dos exemplares. O objetivo é denunciar a atitude do setor de distribuição e as editoras, que segundo a livraria costumam favorecer os vendedores on-line, em detrimento das pequenas livrarias em dificuldades.

"Queremos que as editoras imprimam exemplares suficientes para que até as pequenas livrarias de bairro possam vendê-los", anunciou a empresa japonesa. "Compramos 90% e distribuímos a todas as livrarias que nos fazem pedidos. Faremos outras ações deste tipo com livros de autores de renome", avisou a livraria. Murakami não fez nenhum comentário sobre a estratégia da Kinokuniya.

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