REUTERS/Neil Hall
REUTERS/Neil Hall

'Harry Potter and the Cursed Child': uma jornada de bruxos no tempo

Mesmo que falte ao livro os efeitos especiais muito comentados da peça, ele acaba sendo uma atraente leitura para ficar acordado a noite toda

Michiko Kakutani, The New York Times

02 de agosto de 2016 | 11h59

A mágica série de sete volumes de Harry Potter, da escritora J. K. Rowling, é o bildungsroman definitivo, que traça o amadurecer daquele jovem bruxo enquanto ele não apenas batalha contra o mal mas também se esforça para corresponder às responsabilidades, perdas e fardos da vida adulta. No decorrer dos livros, vemos um jovem estudante valente, dividido pelas dúvidas e confusões adolescentes, se tornar um herói épico, da mesma família de Rei Arthur, Luke Skywalker e Homem-Aranha.

Agora, em uma peça situada 19 anos mais tarde, vemos como esse herói lendário se encaixou na idade adulta como um funcionário público em Londres, trabalhando no Ministério da Magia. Mais importante, temos a chance de ver Harry como um pai - e os esforços do seu filho adolescente, Albus, para lidar com as expectativas sufocantes que vêm com ter um pai famoso. Harry Potter and the Cursed Child é sobre a jornada de Albus ao crescer, e os papéis que ele e seu melhor amigo, Scorpius (filho de Draco Malfoy), desempenham quando as forças das trevas, talvez aliadas a Voldemort, mais uma vez ameaçam o destino do planeta.

A versão em livro de Harry Potter and the Cursed Child é o roteiro da peça de sucesso que estreou em Londres, e mesmo que lhe faltem os efeitos especiais muito comentados da montagem, acaba sendo uma atraente leitura para ficar acordado a noite toda.

Escrito pelo dramaturgo Jack Thorne (e baseado numa história original de J. K. Rowling, Thorne e do diretor John Tiffany), a peça começa no ponto em que o último romance, Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007), terminou, e então avança para os últimos anos de Albus em Hogwarts. Ao roteiro falta a amplitude imaginativa e imersiva dos romances de Rowling, mas ela fez um trabalho tão bom naqueles volumes, conjurando um universo ficcional, que a peça agilmente se sustenta simplesmente por situar sua sagaz história naquele mundo, e seguindo verdadeira em relação a seus personagens e regras.

Como nos livros, o suspense aqui é elétrico e não para, e foi construído de maneiro esperta ao redor de acontecimentos que lembram os eventos nas novelas originais - cenas do Torneio Tribruxo em Harry Potter e o Cálice de Fogo, a invasão do Ministério da Magia por Harry, Rony e Hermione (usando a Poção Polissuco para se disfarçar) em Relíquias da Morte; e uma visita a Godric’s Hollow, no mesmo volume. Como um bônus, uma dispersão de novos e interessantes insights sobre as vidas de Harry, Dumbledore e Voldemort também são oferecidos aos fãs.

Dumbledore, como Sirius Black, é uma das figuras paternas de Harry, e a dinâmica edipiana é central para Cursed Child, muito como a relação Luke Skywalker-Darth Vader é central para Star Wars. Há tensões crescentes não apenas entre Harry e Albus, mas também entre Draco e o inseguro Scorpius, sobre quem, como sabemos logo no início, circulam rumores de que ele seja na verdade o filho perdido de Voldemort. Para o desalento de Harry, Albus rapidamente se liga a Scorpius por causa dos problemas relacionados a seus pais e ambos se tornam párias em Hogwarts (onde Albus se assusta ao ser mandado para a Sonserina pelo Chapéu Seletor).

Albus se ressente de ser o filho d’O Eleito, e ele é cada vez mais tomado pela raiva com as expectativas que o cercam. E apesar de Albus ter muito em comum com o jovem Harry - sentimentos de ser um excluído e o desejo de se provar - ele está cada vez mais em confronto com seu pai, cuja preocupada e superprotetora paternidade alimenta o antagonismo entre eles.

Cursed Child habilidosamente intui que a juventude traumática de Harry - perder mãe e pai enquanto criança, crescer com os terríveis Dursley, e então tem que liderar uma guerra de anos contra Voldemort - pode muito bem ter cobrado uma dívida psicológica, pelo menos o deixando desajeitado para expressar emoções e muito receoso de novas perdas.

Embora os leitores devam sentir falta da imaginação sem fim de Rowling, que seguia continuamente elaborando o universo que criou nos livros, Thorne tem um entendimento visceral das dinâmicas e temas em questão nos romances: a complicada equação entre destino e livre arbítrio, a atração entre dever e amor, e o papel que a solidão e raiva podem ter para alimentar o ódio. Como naqueles livros, as forças da luz (bondade, empatia, inclusão) são dispostas contra as forças das trevas (medo, raiva e um desejo autoritário pelo poder), que estão ameaçando crescer novamente após anos de paz - uma dinâmica, como os leitores podem perceber, com ressonância particular hoje em dia.

O poder do tempo é central nos livros de Rowling - mesmo quando suas narrativas são arremessadas para a frente com um impulso irresistível, o entendimento de Harry sobre Voldemort e sobre si mesmo envolveu excursões ao passado. E o mesmo é verdade em Cursed Child. Nos livros, jornadas no tempo e no espaço eram auxiliadas por instrumentos maravilhosos como a Penseira e as Chaves de Portal. Em Cursed Child, o elemento chave é um Vira-Tempo, similar ao que Hermione utiliza em Prisioneiro de Azkaban para encaixar aulas a mais em sua agenda e para salvar o hipogrifo ameaçado de Hagrid, Bicuço.

Aqui, um Vira-Tempo é usado com consequências que vão lembrar os espectadores de De Volta Para o Futuro, e leitores de um conto clássico de Ray Bradbury, A Sound of Thunder, no qual um viajante no tempo descuidado viaja para a era dos dinossauros e acidentalmente pisa numa borboleta, assim alterando o resto dos tempos.

Nesse caso, não seria entregar muito da história dessa absorvente e engenhosa peça ao simplesmente lembrar as palavras de Dumbledore em Prisioneiro de Azkaban: “as consequências de nossas ações são sempre tão complicadas e tão diversas, que predizer o futuro é um negócio bastante complicado mesmo”. E viagem no tempo, como a arte de escrever ficção, permite a possibilidade de imaginar futuros alternativos ameaçadores e mundos alternativos surpreendentes e pungentes. / Tradução Guilherme Sobota

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.