Anne Frank House/Reuters
Anne Frank House/Reuters

'O Diário de Anne Frank', lançado há 75 anos, é a 'afirmação do humano' em meio à guerra

Especialistas e escritores falam sobre a importância do diário que Anne Frank ganhou aos 13 e que foi publicado em livro em 25 de junho de 1947

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2022 | 05h00
Atualizado 24 de junho de 2022 | 16h03

Amsterdã, 12 de junho de 1942. Anne Frank acorda ansiosa porque era o dia do seu aniversário de 13 anos – e ela não comemorava havia dois anos (em 1940 porque “as lutas mal haviam terminado na Holanda”, que havia se rendido aos alemães, dando início à ocupação nazista; em 1941, porque sua avó precisou ser operada). As coisas não estavam especialmente melhores naquele fim de primavera, e, ela não sabia, ainda piorariam muito. Mas naquele dia, há 80 anos, a casa amanheceu alegre, com pacotes, flores e biscoitos, e no domingo haveria festa.

O presente mais especial daquele ano, e que faria esta adolescente nascida na Alemanha em 1929 ser conhecida no mundo inteiro, foi o diário que ela ganhou de seu pai Otto (ele o publicou pela primeira vez no dia 25 de junho de 1947). “Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda”, Anne Frank escreveu em sua primeira página. 

Mais adiante, ela comenta que passou uns dias sem voltar a ele porque, antes de tudo, queria pensar sobre o diário. “Ter um diário é uma experiência realmente estranha para uma pessoa como eu. Não somente porque nunca escrevi nada antes, mas também porque acho que mais tarde ninguém se interessará, nem mesmo eu, pelos pensamentos de uma garota de 13 anos”, lemos na página preenchida no dia 20 de junho. Ela se sentia sozinha, queria ter uma amiga, e disse que depositaria em Kitty, nome que deu ao caderno com capa xadrez vermelha, tudo o que estava “preso” em seu peito.

Mas o que seria um simples confidente, um caderno desses que as meninas fecham a sete chaves e depois esquecem numa caixa ou jogam no lixo, se tornou um dos principais documentos do Holocausto.

Recapitulando: em 8 de julho, pouco menos de um mês de seu aniversário, Anne já escrevia de dentro do esconderijo organizado pelo seu pai, no prédio em que ele trabalhava, e que virou abrigo à sua família e aos Pels por dois longos anos de guerra e perseguição aos judeus.

No dia 1.º de agosto de 1944, aos 15 anos, ela escreveu pela última vez. Três dias depois, membros da SS, a polícia de Hitler, entraram no prédio e prenderam as oito pessoas que estavam escondidas no chamado Anexo. Acabava ali a esperança. Com exceção de Otto, pai de Anne, todos morreram em campo de concentração. Anne morreu provavelmente no fim de fevereiro ou início de março de 1945, de tifo, em Bergen-Belsen. Em abril, o campo foi liberado pelas tropas inglesas.

Páginas salvas

Miep Gies e Bep Voskuijl, secretárias que trabalhavam no prédio e ajudavam as duas famílias escondidas, encontraram as folhas do diário de Anne espalhadas pelo chão após a prisão. Quando a Segunda Guerra chegou ao fim, Miep deu o material a Otto. E ele sabia que a filha gostaria de vê-lo publicado – isso porque, em 1944, ela ouviu no rádio um membro do governo holandês dizendo que queria recolher testemunhos, sobretudo cartas e diários, sobre aqueles tristes tempos. Foi quando ela voltou aos seus escritos para melhorar aqui e ali.

Dois anos depois do fim da guerra, em 25 de junho de 1947, chegavam às livrarias holandesas os primeiros 3.036 exemplares de O Anexo Secreto – uma edição organizada por Otto a partir das duas versões da filha e com base no que ele achava que deveria ser publicado. Por exemplo, ele omitiu partes em que ela falava de sexualidade e criticava a mãe e outras pessoas do esconderijo.

Em 1950, o livro era publicado na Alemanha e na França. Em 1952, após ter sido rejeitado por 10 editoras, a obra saiu nos Estados Unidos. Houve uma peça ainda nos anos 1950, depois um filme. Tempos depois, documentários, HQs, adaptações infantis e até um musical. Hoje, O Diário de Anne Frank está publicado em 70 idiomas e, segundo a Fundação Anne Frank, vendeu mais de 30 milhões de exemplares no mundo.

'O Diário de Anne Frank' no Brasil

A Record edita o livro aqui desde 1978, tem hoje versões em capa dura, econômica e em HQ, e afirma ter vendido 1,8 milhão de exemplares nesses 44 anos. Em 2021, o livro vendeu duas vezes e meia mais do que em 2011 – com um crescimento considerável depois da estreia, em 2014, do filme A Culpa é das Estrelas, adaptado do best-seller de John Green, de 2012. O motivo: o casal da história visita a Casa de Anne Frank, onde ela se escondeu e que abriga hoje um dos museus mais populares de Amsterdã.

A edição da Record é a chamada “definitiva”, organizada por Otto Frank e com texto fixado por Mirjam Pressler. 

Em 2015, iniciou-se uma discussão sobre a entrada do livro em domínio público. Isso acontece na maioria dos países depois de 70 anos da morte do autor. No caso de Anne, acreditava-se, qualquer pessoa poderia publicar o diário a partir de janeiro de 2016. Mas a Fundação Anne Frank, fundada por Otto na Suíça, e herdeira dos direitos autorais (parte é doada para a Unicef), e as suas editoras trataram logo de esclarecer que Otto, morto em 1980, era o autor. Assim, domínio público do diário organizado só em 2051. O texto original, sem edição, sim, já pode ser usado. 

O Diário de Anne Frank se tornou um dos maiores símbolos da luta contra o antissemitismo e contra a barbárie da guerra. Por ter sido escrito por uma adolescente, o interesse na obra é constantemente renovado, geração a geração”, comenta Sonia Jardim, presidente do Grupo Record.

Em 2018, a editora lançou Anne Frank – Obra Reunida, que traz as três versões do diário (a original, a editada por Anne e a do pai) e outros textos escritos pela garota, para a escola ou no Anexo. E, um ano antes, publicou a versão em HQ, de Ari Folman e David Polonsky. Em 2015, a Rocco publicou o infantil O Mundo de Anne Frank, de Janny van der Molen.

Mais recentemente, a Zahar incluiu em sua coleção de clássicos Querida Kitty: Um Romance Epistolar – o livro que Anne Frank queria publicar após a guerra. 

Há muitas obras sobre Anne Frank, e muitos outras que complementam as histórias que acompanhamos no diário. Uma delas é Eu Sobrevivi ao Holocausto (Universo dos Livros), de Nanette Blitz Konig. 

Nanette estava na festinha de Anne 80 anos atrás, deu um broche para ela, viu o diário por ali. Eram colegas de escola, duas meninas judias que talvez não simpatizassem muito uma com a outra (Nanette aparece no diário como E.S.: “fala muito e não é muito engraçada”), mas quando se encontraram por acaso em Bergen-Belsen, em 1945, fiapos de gente, o abraço foi apertado. Isso Nanette contou ao Estadão em 2015, quando lançou o livro, em uma conversa em sua casa, em São Paulo, onde ela, hoje com 93 anos, vive.

Legado de Anne Frank

Joyce Rodrigues S. Gonçalves, professora do núcleo de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e autora da tese de doutorado Narrativas Autobiográficas: Memórias de Mulheres Sobre a Segunda Guerra Mundial, ressalta que O Diário de Anne Frank, que ela estudou, constitui uma referência importante como documento. 

“Seus registros incluem fatos sociais e políticos de enorme valor para a historiografia. Por meio de sua escrita, ela deu voz a um grupo imenso que não teve a chance de se expressar.” Ela completa: “Muitos outros registros memorialísticos foram escritos e publicados após a guerra, todavia, O Diário de Anne Frank se destaca pela qualidade literária incomum a uma adolescente de 13 anos. A perspectiva de Anne sobre a vida, em suas levezas e asperezas, continua servindo de referência”.

Anne Frank foi uma grande escritora, diz professor da USP

Luis S. Krausz, professor de literatura hebraica e judaica da USP e escritor, também ressalta a qualidade da obra, que ele leu adolescente. “Penso que o livro recebeu e recebe tanta atenção dos leitores em todas as partes do mundo até hoje porque, de fato, essa jovem era uma grande escritora. Da mesma forma como há uma tendência horrenda de colocar as vítimas do genocídio numa categoria única, quando sabemos que havia, entre elas, pessoas de culturas, posições sociais, habilidades, aparências, idades etc. muito diversas, cada uma delas com sua complexidade e especificidade, há também uma tendência de colocar os escritores que tratam do genocídio numa mesma categoria.” Isso, para o professor, é uma simplificação grosseira. 

“Anne Frank foi, em primeiro lugar, uma escritora e talvez se sua vida tivesse sido diferente ela teria escrito sobre outro tema, e provavelmente ainda bem melhor. Ela não foi uma vítima que escreveu. Foi uma escritora vitimada. Há aí uma grande diferença”, afirma Krausz.

Ele fala ainda sobre o poder da escrita. “Talvez o diário seja uma tentativa de resistir a esses acontecimentos aos quais, como sabemos, não foi possível, afinal, a Anne Frank resistir. Em outras palavras: a afirmação da subjetividade, da interioridade, da intimidade, das pequenas coisas que fazem um ser humano, em meio a um contexto de aniquilação, isto é, a sobrevivência do indivíduo – e do individual – em meio à tormenta da história.” Ele conclui: “O Diário de Anne Frank é a afirmação do humano num contexto de desumanização”.

Infância roubada e registros de outras guerras

Infelizmente, sempre haverá uma guerra e uma criança registrando seu dia a dia. Na Ucrânia, agora mesmo, deve ter algum diário sendo escrito. E o leitor interessado nesse tipo de narrativas biográfica encontra alguns livros nas livrarias. 

Em 2018, a Darkside publicou um volume sobre uma guerra recente, que esta geração acompanhou pela TV e fora, com os deslocamentos de refugiados – para cá, inclusive. A pequena Myriam Rawick começou a escrever aos 6 anos, em 2011, e até 2017 registrou sua vida em Alepo. A história pode ser lida em O Diário de Myriam: A Guerra da Síria Vista Pelos Olhos de Uma Menina.

Também escrito e publicado no calor da hora (em 1994, pela Companhia das Letras), O Diário de Zlata: A Vida de Uma Menina na Guerra conta a rotina de Zlata Filipovic, então com 11 anos, em Sarajevo, durante a Guerra da Bósnia (1992-1995). Ela tinha um diário havia um ano, com registros corriqueiros, quando leu o de Anne Frank e achou que poderia desenvolver mais a escrita e dar um nome a ele: Mimmy. Nele, Zlata fez registros sobre a escola, amigos, festinhas. Até que a guerra veio. “Tudo mudou, o diário mudou. Eu estava completamente isolada, em casa, e o diário foi um amigo. Eu escrevia sobre as pessoas que estavam sendo mortas, sobre não ter comida ou eletricidade, desabafava com Deus”, conta ela ao Estadão – hoje com 41 anos e vivendo em Dublin.

Após o sucesso de seu diário, foi convidada a mergulhar em cadernos de crianças que sobreviveram, ou não, a outras guerras. Em 2006, ela organizou Vozes Roubadas (Companhia das Letras). Para ela, a leitura, de qualquer coisa, nos ajuda a nos conectar com o outro. É um momento de acalmar nossos próprios pensamentos e ouvir o que o outro tem a dizer. Um momento de empatia. No caso de diários como o dela e o de Anne, eles ajudam a tornar essas guerras mais pessoais e reais. 

“Quando olhamos para as guerras, na história ou hoje nos noticiários, ouvimos ‘10 mil refugiados’, ‘150 mortos’, ‘esse general’, aquele presidente’, e tudo parece distante. Esses diários permitem ver a pessoa que está vivendo a experiência. Em vez de pensar que 150 mil pessoas estão sitiadas numa cidade, ao ler o diário de uma delas você pode multiplicar essa experiência por 150 mil e terá uma noção melhor de como isso está afetando as pessoas. E isso vai nos fazer entender que a guerra acontece com pessoas como eu e você.” 

Isabel Lopes Coelho, doutora em teoria literária e publisher da FTD Educação, finaliza: “Anne Frank morre como tantas outras crianças e adolescentes, escancarando para o leitor a fragilidade e brevidade da vida, lições difíceis de serem aprendidas na adolescência. Que a obra tenha sobrevivido e sua autora não é uma das mais cruéis constatações que a guerra pode fazer – e também um dos mais poderosos recados para os jovens de qualquer época: o caráter perene e eterno da literatura”.

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