EFE/MARCUS BRANDT
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Günter Grass, o homem que queria escrever um épico e se dobrou à fantasia

Alemão morreu nesta segunda-feira, 13, aos 87 anos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

13 de abril de 2015 | 19h55

Günter Grass queria ser para Alemanha do pós-guerra o que Alfred Döblin (1878-1957) representou para o país antes da ascensão de Hitler. Em outras palavras, queria escrever um épico que fosse ao mesmo tempo a história de um indivíduo e de uma nação, como Berlin Alexanderplatz, a obra-prima de Döblin. Só que Grass, apesar de ser bom fabulador, nunca escreveu nada parecido com Berlin Alexanderplatz, cuja complexidade linguística e ousadia temática - uma associação da história do Jó bíblico com a de um ex-presidiário, cafetão e alcoólatra - ainda não encontrou paralelo na literatura alemã.

O livro mais popular de Günter Grass, O Tambor (1959), depois filmado por Schlöndorff, pretende, em todo caso, ser uma representação metafórica da República de Weimar, tão infantilizada que, a exemplo do herói do livro, Oskar Matzerath, decide parar de crescer aos 3 anos e é tomada de assalto por um bando de afásicos. Liderada por um fanático, Weimar mergulha numa espiral trágica. O fim dessa história todos conhecem.

A insanidade da Alemanha militarizada sob o nazismo tem um correspondente real em O Tambor. Aliás, o personagem Oskar está internado num hospício - e é o próprio narrador de sua história. Sua expressão verbal é substituída por um tambor infernal e por uma voz estridente, capaz de derrubar os vitrais de uma igreja - essa, sim, uma boa alegoria desperdiçada por Schlöndorff, que pouco entende de catolicismo. 


Talvez seja demais exigir de Grass coerência interna, considerando que na guerra ele lutou ao lado da Waffen-SS e que, depois do conflito, apoiou regimes totalitários como o de Fidel Castro. A leitura de seus livros - pelos quais foi elevado à condição de “consciência moral da Alemanha” - não permite, de fato, que ele seja considerado Döblin por um simples motivo: Grass entende que deve escrever um épico, mas esquece a observação de Walter Benjamin sobre Döblin, de que a voz do narrador não alimenta a tradição da epopeia. Franz Biberkopf, o anti-herói de Berlin Alexanderplatz, está tão sozinho (como Jó) que nem tambor tem para repicar. É a crise definitiva do narrador.

Já em Grass, o narrador sobrevive dentro da tradição da epopeia. Não provoca ruptura, como Döblin. Grass chega mesmo a cruzar suas memórias com a de seus personagens, um pouco ao etilo da “fantasia factual” de Döblin. No entanto, a auto citação paródica em A Ratazana enfraquece o livro, sobre como os ratos dominarão a Terra no futuro. Um dos personagens, Oskar, o protagonista de O Tambor, migra para A Ratazana como um senhor sexagenário, careca e doente da próstata, apenas para ser personagem secundário.

Em matéria de romance experimental, A Caixa é melhor. Grass elege um pai idoso que pede aos filhos para gravar depoimentos s

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