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Guillermo Cabrera Infante continua com observações originais em 'Cinema ou Sardinha'

No Brasil, livro é dividido em três partes

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2015 | 20h20

Sai agora a segunda parte de Cinema ou Sardinha, coletânea de textos sobre cinema do escritor cubano Guillermo Cabrera Infante (autor de um clássico barroco, Três Tristes Tigres). Cabem dois esclarecimentos prévios. Um, sobre a divisão da obra. No original, é volume único. No Brasil, a editora Gryphus resolveu dividi-lo em três partes para faturar mais. Em seguida, sobre o título, um tanto inusitado. Refere-se à pergunta que a mãe do escritor lhe fazia quando criança. Cinema ou sardinha? Não havia dinheiro para os dois. E o garoto, cinéfilo de vida inteira, sempre se decidia, sem pensar, pelo ingresso do filme ao invés da peixe. Alimento da alma, e dos sentidos, tinha prioridade. 

Dito isso, vamos ao texto. O volume tem como subtítulo Vivas, Bem Vivas. Apesar disso, essa seção das “vivas”é apenas a segunda, e a menor, do livro. Contém apenas dois perfis, de duas atrizes contemporâneas e vivíssimas, Melanie Griffith e Sharon Stone. A primeira parte, bem mais extensa, pelo contrário, intitula-se Pompas Fúnebres. Depreende-se que são obituários, perfis escritos sobre os grandes mortos do cinema. E, de fato, são 19 textos, de extensões variáveis, sobre nomes como William Holden, Cantinflas, Orson Welles, Charles Chaplin, Laurence Olivier, François Truffaut, Rita Hayworth e Marilyn Monroe, entre outros. 

O leitor verá que se pode dizer tudo desses textos, menos que sejam convencionais. O autor não pode ser definido como um jornalista de cinema. Nem mesmo como um crítico (embora tenha sido ambas as coisas). É um escritor, acima de tudo, que calibra suas linhas na medida de sua emoção (negativa ou positiva) em relação ao personagem e seu estilo, fortemente pessoal. Isso é um elogio. Todo texto, sobretudo cultural, deveria ser autoral, subjetivo, ser uma assinatura e destoar da suposta “objetividade” jornalística, cujo primeiro efeito é deixar tudo insosso, padronizado e sem brilho. 

Cabrera Infante escreve como quer. E escreve como nenhum outro. A par de sua extraordinária cultura cinematográfica (em especial do cinema de Hollywood), traça paralelos entre pessoas e áreas diversas do conhecimentos, além de tirar sacadas geniais, que às vezes valem por todo um artigo. Por exemplo, ao escrever sobre Orson Welles, Cabrera o defende, como ator, daqueles que consideram o autor de Cidadão Kane como um canastrão, essa que é “a pior classe de ator”. E, para definir o que seja esta figura, Cabrera sai-se com esta: é aquele que dá vontade de rir na tragédia, de chorar na comédia e de sair do teatro no melodrama. O que dizer mais? Ou menos? 

Senhor do seu estilo, barroco e multifacetado, Cabrera Infante não sucumbe a ele. Não o transforma em fetiche, mas o coloca a serviço de suas ideias. Por exemplo, quando tem que defender Welles de outra acusação, esta vinda de uma personagem de peso, Pauline Kael, a famosa e feroz crítica da revista New Yorker. Kael, em Rising Kane (Criando Kane), defende que o verdadeiro autor de Cidadão Kane seria o roteirista Herman Mankiewicz, autor da história. Cabrera: “O argumento é tão falaz que a simples visão não do filme mas de uma única foto fixa de Cidadão Kane nos convence da mediocridade de Mankiewicz frente à magistral concepção visual de Orson.”

O melhor perfil talvez seja o de Cantinflas, Mario Moreno, o famoso cômico mexicano. Descreve o personagem como um obcecado permanente pela origem pobre. A tal ponto que, já milionário, quando convidava os amigos para banquetes em sua casa, ia às escondidas comer tortillas na cozinha. Pessoalmente, Cantinflas é descrito como “insuportável”. Isso porque Cabrera foi encontrá-lo para uma entrevista e declarou que falaria apenas sobre suas obras de caridade. O então jornalista Cabrera Infante explicou, com paciência, que o encontro só se justificava se ele falasse de suas outras obras, as cinematográficas. A entrevista não se fez. Mas reconhece o talento cômico do artista, esnobado por intelectuais e críticos mexicanos. Fala do salto de qualidade com seu personagem Passepartout em A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, “onde conseguiu animar até o guarda-chuva de David Niven”. 

O mais cruel, sem dúvida é o de Charles Chaplin, por quem Cabrera Infante nutre uma antipatia sem remissão. Além de acusá-lo de ter subtraído a canção La Violetera, usada em Luzes da Cidade, tacha-o de vigarista por passar a perna em Orson Welles e subtrair-lhe o tema de Monsieur Verdoux, inspirado no assassino francês Desiré Landru. Orson ameaçou processá-lo e Chaplin concordou em remeter-lhe 5 mil dólares e deu-lhe menção nos créditos do filme. Em todo caso, uma obra-prima, reconhece Cabrera, talvez meio contrafeito. Mas a cacetada mais vigorosa vem sobre o lombo da autobiografia de Chaplin: “É inexplicável que Charles Chaplin não tenha percebido que o retrato de um homem pequeno (não só de físico), fútil, ególatra, implacável com seus amigos e profundamente desagradável”. Cabrera termina dizendo que Chaplin faz um autorretrato “stalinista”, acusação séria para um escritor que, revolucionário de primeira hora, morreu em 2005 sem se reconciliar com o regime da sua Cuba natal.

CINEMA OU SARDINHA - PARTE 2

Autor: Guillermo Cabrera Infante

Tradução: Carlos Ramires

Editora: Gryphus (124 págs., R$ 34,90

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