Yara Nardi/Reuters
Yara Nardi/Reuters

Guia propõe uma releitura da 'Divina Comédia' de Dante Alighieri

Nos 700 anos da morte do escritor italiano, seu maior poema ganha um guia: ‘Por Uma Leitura Atual da Divina Comédia’

Paula Sperb, Paula Sperb

14 de setembro de 2021 | 05h00

O poeta Manuel Bandeira, em seu Itinerário de Pasárgada, conta que, quando chamavam seu pai de “bom”, a resposta era sempre: “Bom é Deus”. Bandeira fez sua própria versão da réplica comumente adotada pelo pai. “Pois, ao me ouvir chamar de grande poeta, quero sempre dizer: Grande é Dante”, escreveu o brasileiro.

Autor do poema considerado o mais belo da humanidade, o italiano Dante Alighieri morreu há 700 anos, em 14 de setembro de 1321. O aniversário de sua morte serve como um lembrete sobre sua importância indiscutível para a literatura e demais formas de arte. Por causa dos 700 anos de sua morte, A Divina Comédia, escrita entre 1304 e 1321, será enviada para o espaço no próximo mês. A obra do “sumo poeta”, vale lembrar, foi escrita muito antes dos tipos móveis de Gutenberg, em 1439. A invenção possibilitou a reprodução dos livros de papel e sua consequente popularização.

Agora, o poema épico dividido em três partes – Inferno, Purgatório e Paraíso – será gravado em placas de titânio e ouro, que resistem ao ambiente espacial. É justamente para o céu, onde fica o Paraíso no poema de Dante, que o poeta avança desde o Inferno. As três partes do épico, aliás, terminam com a mesma palavra: estrelas.

Todavia, é aqui na Terra, onde Dante imaginou seu Purgatório em forma de uma montanha altíssima, que surge um novo incentivo para aqueles que ainda não leram Dante.

Aos 88 anos, o poeta e crítico de arte Armindo Trevisan publica uma espécie de guia que encoraja a leitura do poeta italiano. Por Uma Leitura Atual da Divina Comédia (Editora AGE) funciona quase como um manual de como, e por que, ler o poema épico. No seu livro, Trevisan atua praticamente como o poeta Virgílio, personagem da Divina Comédia que orienta Dante através do Inferno e Purgatório. Com a ajuda de Trevisan, o leitor pode se aventurar a chegar ao Paraíso, que é ler a Divina Comédia mais de 700 anos após a obra ter sido escrita.

O poema épico de Dante tem fama de difícil. Com referências cristãs, alegorias, personagens que habitaram a Itália da Idade Média e conflitos políticos da época, o livro é, no mínimo, desafiador. Porém, foi escrito em uma época em que a tradição oral predominava. Portanto, um dos seus pontos fortes é o uso das rimas. Inclusive, versos de A Divina Comédia eram cantados na cidade de Florença, onde nasceu Dante, mesmo após a morte do poeta, conta Trevisan em seu livro. A música, como sabemos, é uma linguagem universal. Assim, eis um dos motivos apresentados pelo crítico gaúcho para não se deixar intimidar pela erudição do poema: sua musicalidade.

É consenso que a musicalidade da Divina Comédia se expressa melhor no italiano, idioma original do poema. Mas não saber a língua de Dante não deve servir de impeditivo para ler a obra.

“O leitor que não sabe italiano pode também ler a Divina Comédia. Perderá alguns elementos da poética dantesca, como a incrível sonoridade do original, mas fruirá de outras possibilidades. É tão grande o gênio do poeta florentino, que borrifos de sua genialidade hão de atingir o leitor. O leitor se aperceberá de que Dante possui uma cosmovisão única da História e do Cristianismo. Além disso, as traduções, ao menos as melhores, que são as de Cristiano Martins e de Italo Eugenio Mauro, dão uma ideia em português do que é o original”, afirma Trevisan ao Estadão.

As edições da Divina Comédia costumam possuir textos de apresentação da obra e notas de rodapé para auxiliar na compreensão das referências. Também poeta, Mário Quintana chegou a brincar: “Há anos venho procurando esta raridade bibliográfica: uma edição da Divina Comédia sem comentários. Raridade? Creio que nem existe maravilha assim...”, escreveu.

Trevisan relembra a ironia do amigo para afirmar que “é imprescindível que a poesia de Dante volte a sobrepor-se aos comentários”. Segundo o crítico, “Dante deverá ser lido – acima de tudo! – como Poeta”. 

Além de Virgílio, o guia de Dante ao longo do percurso pelo Inferno e Purgatório, outra personagem célebre do poema é Beatriz. Ambos se conheceram na infância, em Florença, e se reencontraram no início da vida adulta. Entretanto, a paixão de Dante por Beatriz nunca foi concretizada. O poeta teve um casamento infeliz e diversos casos extraconjugais. Trevisan dedica um capítulo ao tema, sob o intrigante título Dante e Beatriz: O enigma mais belo do amor humano? Ou: De como uma menininha de oito anos deixou, para sempre, fascinado o maior Poeta do Ocidente.

Dantólogos costumam buscar explicações e motivações de Dante para a escrita da Divina Comédia. Trevisan não busca esta resposta e recomenda que o leitor se contente com a própria obra. “A Divina Comédia ainda fará correr muita tinta ao longo da História. O melhor é lê-la, provar que ela existe, apreciá-la como uma sorte de ‘mistério literário’ – o maior da criatividade verbal humana do mundo ocidental”, escreveu o crítico.

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