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'Grande Sertão: Veredas' ganha versão em graphic novel

Com roteiro de Eloar Guazzelli e arte de Rodrigo Rosa, obra teve o aval da família do escritor Guimarães Rosa

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

28 Novembro 2014 | 18h31

Grande Sertão: Veredas, obra de João Guimarães Rosa que é considerada uma das mais importantes da literatura em língua portuguesa, chega às livrarias agora em uma linguagem que atrai cada vez mais leitores - a da graphic novel. O roteiro é de Eloar Guazzelli, que é ilustrador, autor de outras adaptações literárias (como a do conto Demônios, de Aluísio Azevedo, para a Peirópolis) e cineasta (participou da animação Até que a Sbórnia nos Separe). A ilustração ficou para Rodrigo Rosa, que tem no currículo, entre outras obras, Os Sertões, a Luta, a versão em HQ editada pela Desiderata do clássico de Euclides da Cunha.

Os dois tinham diante de si um desafio daqueles - pelo livro, pela família do autor, pelos prazos. Rosa chegou a recusar o primeiro convite da editora por falta de tempo - a sondagem foi feita por Ziraldo, que chegou a anunciar seu desejo de trabalhar com o texto de Guimarães Rosa, que conta, em prosa poética, uma história de lutas no sertão mineiro, bem e mal, pacto com o diabo, travessias e amores - e de Riobaldo e Diadorim. 

A questão que fez Guazzelli considerar cair fora foi diversa. Como num pacto com o diabo, é grande a tentação de sair e de ficar. “Mas não se recusa ouro, não? Por um lado, é uma responsabilidade imensa. Por outro, eu teria uma grande inveja de quem fizesse o meu trabalho”, conta o gaúcho que leu o livro muitos anos atrás e releu agora, várias vezes, para cumprir sua tarefa de escrever, com as próprias palavras e frases do autor, este novo livro. 

O processo, conta, foi sofrido. “Ele passa por questões muito práticas de prazo, mas também de estar à altura. São os pesadelos, os medos. Mas o mais maluco é que o livro dá as respostas. Grande Serão: Veredas é um tratado sobre como lidar com o medo e enfrentar os desafios. Ele te grita: olha como o personagem faz, ele atravessa, se joga, não tem medo. Era um manual para tudo o que pudesse acontecer no processo”, comenta. 

E aí ele mergulhou no original de mais de 600 páginas e não teve medo de cortar. Cortou, cortou, cortou e costurou a história para que ela se mantivesse fiel à original. Ele diz que, no processo, pode resgatar a essência da história, que é uma grande travessia e o conflito entre os personagens. “E uma coisa que descobri no meio de tanto sofrimento que foi cortar foi que eu podia salvar o poeta, sua poesia de frases absolutamente geniais. Removi tanta coisa que fiquei com o ouro puro.” 

Para ele, o romance de Guimarães Rosa é a própria história da construção de um romance. Tem ali, observa ele, todas as tentações, o diabo, a ideia de uma longa travessia, do sofrimento, da remissão. Uma parábola do escrever.

O clássico original, de 1956, não é leitura fácil, mas se o leitor se permitir entrar no jogo, acredita o roteirista, ele perceberá lá pelas tantas que a linguagem é incorporada e fica natural - ainda mais para nós, brasileiros, que temos uma capacidade de lidar com uma linguagem em transformação. 

Em se tratando de mexer com a obra de Guimarães Rosa, o terreno é incerto. A família do escritor, médico e diplomata é conhecida por fazer linha-dura com tudo o que se refere ao uso de sua obra - Silvio Tendler, que refez o caminho de Grande Sertão e foi proibido de exibir seu filme, e Alor Barbosa, que teve o livro Sinfonia Minas Gerais - A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa retirado das livrarias em 2008, que o digam. No caso de Barbosa, a Justiça decidiu, mês passado, em favor do autor e o livro não autorizado foi liberado.

Os autores dizem que a família acompanhou o processo. Houve uma primeira avaliação de quem seriam os artistas responsáveis pela empreitada, e depois o trabalho fluiu bem. “A única etapa que foi um pouco mais difícil foi no acertar a personagem de Diadorim. Foram algumas tentativas até chegarmos ao visual dessa personagem. De resto, eles foram muito tranquilos quanto à arte”, diz Rodrigo Rosa. Guazzelli conta que, no final, o trabalho foi mostrado à família. “Foi tudo dentro do correto, mas sempre pesa. O artista é um sujeito acostumado a lidar com a liberdade. Gostamos de ser avaliados pelo público. Não é a situação melhor, a ideal, ter o peso de um julgamento presente”, diz.

Rosa não tinha lido o livro até receber a encomenda. Viu, no entanto, a série exibida na tevê nos anos 1980 e se lembra de ter gostado muito. Agora, assistiu ao filme dos anos 1960. “Esses referenciais ajudam por um lado - como roubar detalhes do ambiente, dos costumes, roupas, etc -, mas também é necessário conhecê-los para saber do que se afastar, onde se diferenciar dessas adaptações para que a nossa tivesse uma cara própria”, comenta. Sobre o processo, o ilustrador disse que, ao ler a obra, foi apontando no livro e em cadernos aspectos que pareciam interessantes visualmente. Depois, fez uma grande pesquisa iconográfica com tudo o que pudesse necessitar na narrativa. 

A troca entre os dois autores foi grande, e Guazzelli, acostumado a ilustrar mais do que roteirizar, disse que até teve um momento em que sentiu vontade de fazer alguns quadrinhos, mas se conteve. A história, no entanto, não deve terminar aí. Formado em artes plásticas, ele conta que pensa em fazer algo nessa área. “Tem grandes imagens nessa história. É um livro imagético e assustador.”

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

Adaptação: Eloar Guazelli e Rodrigo Rosa

Editora: Globo/Biblioteca Azul (180 págs., R$ 199,90)

Bate-papo com autores: dia 4/12, 19h30, Livraria Cultura (Av. Paulista, 2.073)

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