Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

'Gostaria Que Você Estivesse Aqui' propõe viagem ao Rio dos anos 1980

Novo romance do escritor e jornalista do ‘Estadão’ Fernando Scheller apresenta o auge do rock nacional e da epidemia de HIV

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 05h00

Gostaria Que Você Estivesse Aqui, o novo romance de Fernando Scheller, escritor e jornalista do Estadão, propõe uma viagem no tempo até a década de 1980. A obra, publicada de forma antecipada para os assinantes do clube de leitura Tag e agora lançada ao público geral pela HarperCollins, costura a vida de vários personagens em uma trama que aborda amadurecimento, escolhas, vingança, mas sobretudo a questão da perda.

Aprovado no vestibular, Inácio não quer seguir os passos do pai, que é engenheiro. Ele só pensa em Baby, pelo menos até conhecer o produtor musical César, que vira sua vida do avesso. Enquanto isso, o porteiro Rosalvo tenta desvendar o assassinato de sua filha Eloá, que é transexual. Passada durante o auge da epidemia de aids, a narrativa retrata o terror daquela época, envolta em medo e desconhecimento a respeito da nova doença. Embora Scheller tenha escrito o livro antes da pandemia de covid-19, presente e passado se unem por meio das similaridades entre os surtos.

Como algumas pessoas já puderam ler a obra por meio da Tag, Scheller já soube um pouco da recepção dos leitores: “É muito interessante, principalmente nas pessoas mais jovens, o entendimento de como a epidemia de aids foi uma coisa grave nos anos 1980 e como realmente era uma sentença de morte”, diz. “Você sentia que seu tempo começava a se esgotar, especialmente no começo da década de 80, em que não existia nem teste, não se sabia nem se a camisinha era um fator de proteção ou não. A cada ano foi vindo um pouco mais de informação”, completa.

Nesse sentido, o livro une os anos 1980 aos tempos atuais: “Você tem seu conceito de tempo, que era inesgotável, e de repente você tem uma ameaça para aquilo. Sua visão, mesmo que temporariamente no caso da covid, vira outra, porque, quando você vê pessoas próximas morrendo muito antes do que deveriam, isso dá uma sensação de que seu tempo é limitado”.

E não apenas as questões sanitárias revelam similaridades entre os dois períodos, segundo Scheller. “Há várias coisas que começam infelizmente a se cruzar. A gente estava saindo do regime militar e agora vivemos uma ameaça à democracia com o governo atual. Acho que tem vários níveis de interseção com o tempo que a gente está vivendo”, avalia o autor.

Gostaria Que Você Estivesse Aqui trata bastante da questão LGBTQIA+, contando com um personagem transexual e um gay. Mas houve uma certa dificuldade para abordar essa temática na perspectiva dos anos 1980: “Dei uma atualizada, mas ao mesmo tempo eu não poderia usar as expressões de hoje para não ficar uma coisa inverossímil”.

O romance começa tratando de temas mais leves, como o vestibular, e vai ganhando tons mais densos, o que acabou por surpreender alguns dos leitores de primeira hora, revela Scheller. “É um livro sobre a iminência da perda, sobre a perda em si e sobre o pós-perda. Como você lida com as ausências. É uma coisa com a qual todo mundo agora na pandemia teve de lidar.”

O autor tem algumas estratégias para “virar a chave” da escrita jornalística para a prosa literária: “Eu viro a chave porque não misturo muito. O desenvolvimento do livro, quando estou criando a trama, os personagens, decidindo o que o livro vai ser, eu consigo fazer paralelamente (à atividade jornalística). Numa hora de folga, indo para casa, estou sempre pensando naquilo e construindo. Mas para escrever o livro, e isso já aconteceu com o meu anterior, eu paro”.

Scheller passou, em duas estadas, três meses no Rio de Janeiro – cenário principal de Gostaria Que Você Estivesse Aqui. “Aí eu largo, não penso em jornal, porque a gente é muito demandado e o processo de escrita de um livro não combina muito com a interrupção.” 

Entre as principais influências literárias, Scheller menciona Jonathan Franzen e Ian McEwan, dois autores que examinam a experiência humana a partir de personagens muito realistas.

Apesar de os eventos narrados na obra serem dramas que certamente ocorreram com diversas pessoas na época, o livro não tem uma veia autobiográfica. “Eu era criança nos anos 1980, não vivi aquela época com a mesma idade desses personagens, quando o livro começa eu tinha 3 anos”, esclarece o autor, embora admita que compartilha algumas características com seus personagens. 

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