Renato Parada
Renato Parada

Giovana Madalosso cutuca a ferida escravagista do Brasil em novo livro

Autora fala sobre a relação entre patrões e empregados domésticos em 'Suíte Tóquio'

Renato Prelorentzou, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 05h00

Maju, a babá, perseguindo o sonho da maternidade, tenta fugir com a criança a quem conhece melhor que a própria mãe. Fernanda, a mãe, ocupada demais com o trabalho e a possibilidade de uma paixão, demora a perceber o sumiço da filha – e quanto está distante da família, do casamento, de si mesma.

 Esta é a trama de Suíte Tóquio, mais recente romance de Giovana Madalosso, publicado pela editora Todavia. Nascida em Curitiba no ano de 1975, Giovana também assinou A Teta Racional e Tudo Pode Ser Roubado. Na conversa a seguir, ela fala de como chegou a esse enredo vertiginoso e tragicômico, da busca de suas personagens e do que move a sua escrita.

Entre todas as questões tão espinhosas e tão familiares que perpassam o livro – nossos afetos inconfessáveis, nossos privilégios sociais – qual foi a que disparou a escrita?

Quando minha filha tinha 2 anos, achei uma babá por uma agência de empregos. Fiz uma entrevista, chequei a referência, contratei-a. No dia seguinte, saí para uma jornada de trabalho e pensei: acabo de deixar minha filha por dez horas com uma completa desconhecida. A partir daí comecei a pensar no sistema em que vivemos. Poucas creches, cargas horárias absurdas e homens que ajudam muito pouco. Se é difícil para uma mãe de classe média, imagine para as babás, que muitas vezes também são mães, deixando seus filhos com outras pessoas por períodos ainda mais longos. Ninguém pensa muito nisso, mas vivemos em uma sociedade que só se sustenta porque é carregada nas costas, e no colo, por um “exército branco”. Milhões de babás e funcionárias domésticas que, embora tenham um papel tão crucial, marcham por aí invisíveis, muitas vezes privadas de seus direitos mínimos. Suíte Tóquio é como Fernanda chama o quarto de empregada da sua casa depois que faz uma reforma para torná-lo mais atraente para a babá, de forma que ela passe a morar no cubículo. Escolhi o título do livro para cutucar essa ferida escravagista do nosso país e também para representar o epicentro das tensões domésticas, um lugar de onde tanto babá quanto mãe querem escapar.

Como você vê sua trajetória desde o primeiro livro até aqui?

Venho amadurecendo junto com os meus livros. Com exceção de Tudo Pode Ser Roubado, escrito com base em experiências que tive uma década antes, todas as minhas narrativas caminham ao meu lado, como sombras, projeções, formas de elaborar o que estou vivendo. Da mesma forma que algumas pessoas olham para trás e veem suas vidas marcadas pelas casas em que viveram ou pelas relações que tiveram, tenho a impressão que verei a minha como “a fase desse ou daquele livro”. Agora estou burilando a ideia de um romance narrado por uma mulher entrando na menopausa e, às vezes, já me pego ansiosa, pensando quando vou parar de menstruar para ter logo calorões e escrever melhor a respeito. O que revela, de um lado, um quadro tragicômico de narração compulsiva e, de outro, algo belo sobre o fazer literário: se não posso evitar a dor, pelo menos posso transformá-la em matéria-prima.

Suíte Tóquio é narrado por duas personagens em tudo diferentes entre si. Como se deu a construção dessas vozes? 

Desde que resolvi escrever esse livro, sabia que meu maior desafio seria encontrar uma voz única para cada narradora. Tanto que fiquei meses só desenvolvendo essas vozes. Criei um vocabulário e uma sintaxe para cada uma. A Fernanda, por exemplo, diz trepar. A Maju, fazer amor (parece um detalhe, mas esse tipo de coisa diz muito sobre um personagem ou uma pessoa). Uma delas usa frases mais curtas, outra mais longas, sôfregas, cheias de vírgulas. E, acima de tudo, defini a forma de cada uma ver o mundo, porque é daí que nasce o jeito de falar, naquele sistema de mão dupla em que o sujeito molda a linguagem e a linguagem molda o sujeito. Mas acho que o mais difícil mesmo foi encontrar um senso de humor distintivo. Porque na literatura e na vida é a mesma coisa: narradores com senso de humor são mais carismáticos. E eu não queria abrir mão desse recurso para nenhuma delas. Então tive que dividir até o humor em dois terrenos: para uma, a ironia e o sarcasmo, para outra, a graça que brota da irreverência.

Você mesma viajou para narrar as viagens que as personagens fazem no livro? Como elas transformaram o enredo, as personagens, a autora?

Meus livros sempre me levam para algum lugar. Quando estava escrevendo o Tudo Pode Ser Roubado, fui caminhar de madrugada pelo centro de São Paulo, entrei sozinha num hotel de viração, quase me meti numa encrenca. Para o Suíte Tóquio, viajei de ônibus até uma fazenda de bichos-da-seda no interior do Paraná e fui até uma reserva indígena no Acre. Em todos os casos, fui procurar uma coisa que não encontrei. E é por isso mesmo que faço essas pesquisas: para não achar o que procuro, para encontrar coisas que nunca me ocorreriam. Na fazenda fui buscar a rotina de quem produz seda, porque foi num lugar desses que cresceu a personagem Maju. Voltei para casa com seis lagartas dentro de uma caixa de sapatos e, para desespero da minha família, criei esses bichos, abrindo no romance um flanco que não havia planejado, sobre animais e sobre o conflito, sobretudo humano, entre o doméstico e o selvagem. No Acre, fui visitar os iauanauás porque queria conhecer a primeira mulher pajé desse povo, Raimunda Putani, e cruzar a sua trajetória com a da personagem Yara. Só que cheguei à aldeia no meio do festival anual da comunidade, o Mariri, e deparei com centenas de iauanauás cantando e dançando em cerimônias e rituais que iam noite adentro. Fascinada, acabei deixando de lado o que tinha ido fazer ali. Só fui entrevistar a pajé no último dia. E tudo bem, porque ao contrário de um biólogo ou de um historiador, boa parte da pesquisa de um escritor se dá pelo inconsciente, na captura aleatória de cheiros, sons, imagens. E é isso o que mais me interessa.

SUÍTE TÓQUIO

Autora: Giovana Madalosso

Editora: Todavia

208 páginas

R$ 59,90

R$ 39,90 em e-book

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