Paulo Giandalia/Estadão - 22/9/2010
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Gilles Lipovetsky mostra leveza da sua escrita em novo livro

Em 'Da leveza: rumo a uma civilização sem peso', pensador analisa como o culto generalizado ao leve pode ter como efeito uma forte sensação de peso

Rodrigo Petronio, ESPECIAL PARA O ESTADO

21 Janeiro 2017 | 04h00

Gilles Lipovetsky tem promovido uma guinada dos temas tradicionais da filosofia e da sociologia. E assim se firmou como um dos mais originais pensadores do mundo contemporâneo. Essa guinada consiste em conferir centralidade a objetos de estudo considerados excêntricos ou marginais. Em demonstrar a relevância de aspectos aparentemente irrelevantes de nossa vida. Por isso, desde A Era do Vazio (1987) e o Império do Efêmero (1987) até A Estetização do Mundo (2015), o pensador francês tem desenvolvido uma teoria da modernidade que valoriza mais a alimentação, a moda, as dietas e o lazer do que as macroestruturas econômicas, políticas ou sociais.

O leitor pode agora apreciar um dos pontos altos deste percurso em Da Leveza: Rumo a Uma Civilização Sem Peso, lançado na França em 2016 e publicado no Brasil pelo selo Amarilys da editora Manole com apresentação de Juremir Machado da Silva. Lipovetsky articula aqui seus temas favoritos em torno de mais um signo: a leveza. Em certo sentido, esse tema atravessa de modo oblíquo a sua obra. Assim como o efêmero, o vazio e a estetização, a leveza encontra-se no centro de sua definição de hipermodernidade.

A hipermodernidade seria uma radicalização dos processos de produção modernos que emergiram da industrialização do século 18. Entretanto, até o século 19, havia uma divisão clara entre produção e consumo, entre trabalho e lazer. A partir do processo de mecanização, começou a se produzir uma paradoxal indistinção entre produção e consumo. Em outras palavras: os trabalhadores deveriam ser incorporados à esfera do consumo para ampliar o circuito da economia e da produção. O século 20 representa um salto nesse percurso. As tecnologias digitais têm revolucionado nossa relação com o mundo. A maior fluidez entre consumo e produção fluidifica o poder, o trabalho, a sexualidade, a habitação. Ou seja: embaralha as relações entre peso e leveza. Nesse sentido, a hipermodernidade seria uma alteração do estatuto ontológico (relativo ao ser) dessas duas categorias.

Lipovetsky analisa essa transição em diversos domínios. A escolha de materiais e as propostas da arte, da arquitetura, do urbanismo e do design contemporâneos. As relações interpessoais, os casamentos abertos ou de curta duração. A mobilidade crescente e o nomadismo digital dos trabalhos a distância. A modelização do corpo, da alimentação, beleza, estética. E, por fim, a tentativa de eliminar a dor e o envelhecimento por meio da vitória sobre a morte do corpo biológico. Aqui entram as nanotecnologias, bem como todo tipo de tecnologia leve, capaz de suspender a fatalidade do mundo material e preservar a vida por meio de ambientes ou recursos artificiais.

Essa nova civilização da leveza erradicaria todas as contradições, desigualdades e misérias humanas? O leitor se perguntaria. E a resposta é: não. Lipovetsky é um pensador fino. Não se deixaria seduzir por um elogio unilateral da leveza. Revela-nos também as consequências negativas da leveza tomada como fatalidade, sobretudo no que diz respeito à medicalização indiscriminada e às violências da normatização do corpo e dos padrões de beleza. Nesse caso, essa sombra da leveza se manifestaria como sintoma e como psicopatologia. Nasceria da incapacidade de convivermos com nossa triste e pesada finitude.

Pode-se definir a obra de Lipovetsky como um método de amplificação. Por meio dele, as partes se tornam maiores que o todo. Esse método não é exatamente novo. Desde Johann Huzinga, Marc Bloch, Philippe Ariès, Norbert Elias e Carlo Ginzburg, a história e a sociologia das mentalidades se ocupam dessas microscopias. Confere importância ao então desimportante substrato do cotidiano. Todo discurso da psicanálise pode ser visto como uma inversão da hierarquia entre os objetos à medida que o valor é definido pelo desejo e não por dados morais ou metafísicos. Por fim, Marshal Berman, Zygmunt Bauman, Jean-François Lyotard, Paul Virilio, Maurizio Lazzarato e Jean Baudrillard há décadas se ocupam dessa leveza imaterial, líquida e letal do mundo contemporâneo.

A especificidade de Lipovetsky reside em sua capacidade de manter o juízo suspenso durante seus voos rasantes na realidade prosaica. Nesse sentido, a relativização dos valores refina a reflexão e amplia os horizontes de possibilidades da cultura e da sociedade, ainda virtuais ou pouco compreendidas. Assim, como a explorou Milan Kundera, para Lipovetsky a leveza pode ser não apenas uma diagnose do presente, mas uma das tantas facetas, inerente ao ser e à nossa humana condição.

DA LEVEZA: RUMO A UMA CIVILIZAÇÃO SEM PESO

Autor: Gilles Lipovetsky

Tradução: Idalina Lopes

Editora: Amarilys (304 págs.,R$ 68)

* RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR E FILÓSOFO, DOUTOR EM LITERATURA COMPARADA PELA UERJ. PROFESSOR DA FAAP, MINISTRA CURSOS LIVRES E OFICINAS DE ESCRITA NA CASA CONTEMPORÂNEA 

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