Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Gilles Lapouge fala sobre o livro 'Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil'

Jornalista, escritor francês e correspondente do 'Estado' recebe prêmio e inspira um documentário sobre sua maneira de escrever

Andrei Netto - CORRESPONDENTE, O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2014 | 03h00

PARIS - É fácil encontrar na Europa apaixonados pelo Brasil. Menos fácil é encontrar quem já tenha ouvido muito mais do que os estereótipos do país - a mulher, o carnaval, o futebol, a Amazônia devastada. Como diria Antônio Carlos Jobim, “O Brasil não é para principiantes”. Na matéria, o jornalista e escritor francês Gilles Lapouge, correspondente do Estado, é tudo, menos um iniciante. 

Essa é uma excelente razão para se lançar à leitura de Dicionário dos Apaixonados pelo Brasil (Dictionnaire Amoureux du Brésil), obra agora traduzida que teve ótima recepção da crítica na França quando de seu lançamento original, em 2011.Com a publicação, o autor encerra um ano excepcional, no qual recebeu três grandes prêmios literários, um dos quais da Academia Francesa, e foi alvo de um documentário, Le Colporteur de Songes (O Mascate de Sonhos, em tradução livre), dirigido por Joël Calmettes.

Lapouge é um velho aficionado da Terra Brasilis. Seu primeiro contato aconteceu em uma escala de avião em Pernambuco, em 1951. “Mesmo que 60 anos tenham se passado, a escala em Recife escapou à usura do tempo”, escreve. O então jovem francês à procura de um métier havia ouvido falar de um jornal brasileiro que buscava um editor para comandar a editoria de Economia e Finanças. Selecionado por um certo Fernand Braudel, Lapouge foi recebido em 21 de março daquele ano pelo seu novo patrão: o diretor de O Estado de S.Paulo, Julio de Mesquita Filho. Era o início de uma carreira de mais de 60 anos como jornalista, sempre para o Estado.


A vida no Brasil, e a seguir as décadas em que passou visitando o País, solitário, lhe permitiram descobrir as entranhas de uma nação que a maior parte dos brasileiros desconhece. Da Amazônia ao sertão, do interior ao litoral, Lapouge se tornou não apenas uma conhecedor, mas um apaixonado pelo País. 

Nada mais pertinente, então, do que aceitar o convite para participar da coleção Dicionário dos Apaixonados, iniciada pela editora Plon em 2000, um imenso sucesso de público, com mais de 250 mil livros vendidos todos os anos. Da mesma coleção fazem parte livros como Dicionário dos Apaixonados pelo Vinho, de Bernard Pivot, Dicionário dos Apaixonados por Veneza, de Philippe Sollers, ou ainda Dicionário dos Apaixonados pelo Rock, de Antoine de Caunes. Dentre as 77 obras da série, todas com caráter mais ensaístico do que enciclopédico, poucas foram elogiadas pela crítica na França como mais precisas, eruditas e fascinantes do que o trabalho de Lapouge, que mescla linguagem literária com reportagem, ensaio e crônica.

“Podemos confiar em Gilles Lapouge: onde está o enigma, o milagre, a crueldade, a beleza, a loucura, a saudade, as ruínas e as árvores milenares - o Brasil produz tudo isso e muitas outras coisas em abundância -, ele está presente, atento, maravilhado ou agarrado, sempre enfeitiçado”, afirmou em 2011 Bernard Pivot, nada menos do que o presidente do júri do Prêmio Goncourt, o mais importante da França.

Profundo conhecimento. O que torna o Dicionário dos Apaixonados de Lapouge diferente talvez seja o casamento entre o conhecimento profundo, a informação rigorosa - não raro crítica - e um olhar poético. Essas características lhe permitem fugir dos estereótipos. “Quando escrevi esse livro, só queria duas coisas de início”, explicou. “A primeira regra foi poder falar mal quando fosse necessário, por exemplo sobre o racismo ou sobre hipocrisia do brasileiro de não dizer as coisas na cara; a segunda foi de não falar do futebol, do fio-dental, que eu adoro, nem do carnaval, que eu também adoro.”

O resultado é um livro que fala com a mesma desenvoltura sobre abelhas e sobre arte barroca, sobre revoltas do passado e conformismo com o racismo ainda presente e atroz. Trata-se de um trabalho que com frequência desnuda o Brasil - e não só para os franceses, público para o qual foi planejado de início. “Muitos brasileiros, quando leem este livro, me dizem que aprenderam sobre o País. Isso me deixa muito feliz”, conta o jornalista, para quem a história do Brasil é a história de suas cores de pele. “O Brasil tem uma história bela, heroica às vezes, muito violenta em outras”, entende.

Para o público brasileiro, Dicionário dos Apaixonados é também uma oportunidade para conhecer melhor a obra do autor de Équinoxiales (Editora Flammarion, 1977), L’Incendie de Copenhague (Albin Michel, 1995) ou Le Bois des Amoureux (Albin Michel, 2006), três trabalhos pelos quais esteve às portas de vencer o Prêmio Goncourt.

Essa distinção ainda não veio, mas outras não param de lhe homenagear. Há 10 dias, Lapouge recebeu pelo conjunto de sua obra o Prêmio Paul Morand, da Academia Francesa - uma honraria atribuída no passado a dois prêmios Nobel de Literatura, Jean-Marie Le Clézio, em 1980, e Patrick Modiano, em 2000. Também venceu neste ano, duas distinções maiores na paisagem literária francesa: o prêmio France Télévisions e o Goncourt des Animaux, ambos pelo livro L’Âne et l’Abeille (Albin Michel, 2014) - um ensaio definido como “Um livro mágico” por Michel Houellebecq. 

Não bastasse, ainda há o documentário Le Colporteur de Songes. Em 2014, Gilles Lapouge parece ter sido onipresente.

DICIONÁRIO DOS APAIXONADOS PELO BRASIL

Autor: Gilles Lapouge

Tradução: Maria Idalina Ferreira Lopes

Editora: Amarilys (334 págs., R$ 59)

TRECHOS DO LIVRO

Acolhida

Cheguei ao Brasil, ao Rio de Janeiro, em 20 de março de 1951. Fiquei estarrecido. O que eu fazia nesse aeroporto? Olhava minha passagem de avião. Estava no Rio.

Três meses antes, encontrei por acaso nas ruas de Paris um de meus amigos do colégio de Digne, André Rougon, que morava na Rue du Cirque. Estávamos tranquilos. Ele me disse que um grande jornal brasileiro procurava um jornalista francês para manter, em São Paulo, uma coluna tratando de economia, finanças e Bolsa. Vinha bem a calhar. (...)

Amazônia

É belo e terrível o sol na Amazônia, nesta manhã. Ele é imenso. Não é um sol. É um "sol decapitado". É um buraco vermelho, um imenso recorte redondo no céu, uma janela para que possamos ver o que se trama do outro lado das coisas. Sobre a terra se arrastam vapores, faixas brilhantes, nevoeiros. As árvores estremecem. Têm tons de fotografia velha, do século XIX, e as auroras são como crepúsculo.(...)

Cordialidade

O Brasil é um país amável. Pelo menos, assim se considera. Gosta de alardear suas virtudes e suas graças. Não suporta que sua bondade passe despercebida e gosta que gostemos dele. Se alguém duvida de sua cordialidade, ele fica bravo, insulta e inicia uma batalha. Também se irrita se confundimos sua gentileza com polidez, pois as duas posturas lhe parecem contrárias. (...)

Crueldade

Que se danem Stefan Zwieg e os adeptos da "cordialidad". O Brasil é um país violento. Em relação a assassinatos, ele não tem rival. Produz mais mortes a bala e a faca ou facão que qualquer outro país. Ele mata no atacado, não no varejo. A leitura do livro de Paulo Lins, Cidade de Deus, provoca náuseas. Nessa favela de nome reconfortante, mata-se como se ri, e o assassinato é uma distração, um passatempo ou uma mania. Ora, o autor do romance é ele mesmo um antigo moleque da Cidade de Deus. Certamente exagera, mas não inventa. Ele se lembra. (...)

Culinária

Como todas as cozinhas, a do Brasil é ao mesmo tempo uma geografia, uma história, uma luta contra a fome, uma volúpia e uma sociologia. (...)

Sucupira

A sucupira é uma planta do sertão. É muito boa contra a gripe. Limpa a garganta. Também age sobre as articulações, como um antibiótico, e cuida de todas as doenças da família da artrose.

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