George Packer retrata o fim da solidariedade nos EUA

Com 'Desagregação', autor explora o choque provocado pela assimetria entre a ambição do americano médio e a realidade desalentadora; leia trecho

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

16 de julho de 2014 | 02h00

Em 1936, durante a Grande Depressão americana, o jornalista James Rufus Agee (1909-1955) e o fotógrafo Walker Evans (1903-1975) percorreram o sul dos EUA e conviveram por um mês com três famílias pobres do Alabama. O livro que retrata essa experiência, Elogiemos os Homens Ilustres, se tornou um guia indispensável para estudantes de jornalismo, inclusive para George Packer, hoje um veterano vencedor do National Book Award com Desagregação, que representa para a América contemporânea o que a obra de Agee e Evans significou no passado.

O premiado Desagregação fala de um povo à deriva. Talvez desde sempre, porque, como diz Packer no prólogo de seu livro, “ninguém é capaz de dizer quando começou a desagregação”, ou seja, quando “a cola que mantinha os americanos unidos se soltou”. O brutal realismo de Desagregação corresponde ao choque provocado pela assimetria entre a ambição do americano médio e a realidade desalentadora que impõe suas regras ao mais otimista dos indivíduos, especialmente após o colapso financeiro de 2008. Desagregação é um retrato emocionado do crepúsculo americano, da devastação que levou muitas famílias da classe média para o olho da rua. 

Épico. Packer foi atrás desses despossuídos para escrever seu épico sobre a desigualdade, a ambição desmedida de Wall Street, os corredores do poder em Washington e, principalmente, a solidão de quem não pode mais contar com os outros. Nem a força do pensamento positivo, tão cara aos americanos, salva pessoas como o empresário Dean Price, filho de um fazendeiro que apostou no negócio do petróleo e afundou. O livro traz outros personagens, como Tammy Thomas, ex-operária de uma montadora da GM, que integra o painel de Desagregação ao lado de um desiludido assessor do senador Joe Biden, Jeff Connaughton, e um magnata do Vale do Silício, Peter Thiel, o bilionário que apostou no Facebook e funciona como contraponto no mural dos desagregados, inspirado na Trilogia USA (1930-1936) de John dos Passos (1896-1970).

Ideologia. Dos Passos buscou, em sua revisitação moderna dos épicos, pintar um panorama histórico dos EUA dos primeiros anos do século passado. Até mesmo porque John dos Passos virou a casaca, de militante comunista a eleitor de Nixon, sua influência é assumida com reservas por George Packer. Em Desagregação, o repórter da revista The New Yorker evita contaminar a narrativa com ideologia, deixando o julgamento a cargo do leitor. Mas não consegue esconder certa nostalgia da República de Roosevelt, que criou uma próspera classe média, fortaleceu as instituições americanas e estabeleceu uma ética de solidariedade hoje extinta na América, como observou Packer, em entrevista por telefone ao Caderno 2.

New deal. As reformas econômicas e políticas da República de Roosevelt viraram poeira. Numa economia fictícia como a americana de hoje, que fez crescer o gap entre ricos e pobres, a classe média não conta mais com o estado keynesiano – ela é empurrada sem piedade para o abismo da miséria e do desamparo. “Talvez por isso, mais que John dos Passos, devo dizer que a obra de Agee e Evans, que li aos 20 anos, teve uma influência maior na elaboração do meu livro.” Não é tão dramático, alerta o autor, “até porque esse drama, hoje, está oculto nos subúrbios americanos e não interessa à mídia, concentrada no culto à celebridade”. Em épocas de crise como a atual, observa Packer, o personagem que importa para a mídia conservadora não é a do homem comum das ruas, “mas o executivo da Bolsa que perdeu tudo ou o banqueiro que faliu”.

Cíclico. Para Packer, o processo de desagregação americana não começou em 2008. É cíclico. Seu marco zero pode ser estabelecido, segundo ele, na Guerra Civil americana, que abriu caminho para crises subsequentes, como a do crash da Bolsa de Nova York, em 1929. A especulação financeira que se seguiu ao crash foi a responsável pela fragmentação da ética americana. “O mito do self made man, de que qualquer um pode chegar lá, se tiver talento e determinação, foi definitivamente por terra com a bancarrota financeira de 2008, responsável pelo desemprego e desabrigo de milhares de americanos, levando-os a conhecer o lado escuro da liberdade individual.”

Hoje, reforça Packer, as instituições americanas não funcionam, ao contrário do que acontecia na época de Roosevelt. Uma espécie de letargia e um sentimento de orfandade tomaram conta da nação, traumatizada desde Reagan com a ideia de que o governo não é a solução dos problemas, mas o problema em si. “Veja, não é por acaso que começo meu livro em 1978, quando a retórica de Reagan leva às mudanças nas leis americanas e o neoconservadorismo avança.” Isso significa dizer que o partido republicano, que tinha até alguns políticos liberais, fechou o cerco. “Esses liberais foram extintos e os conservadores venceram”, garante Packer, justificando sua afirmação com os sucessivos pedidos de impeachment de Barack Obama, especialmente por republicanos.

Ambição. “Obama não foi forte o suficiente, como todos esperávamos”, diz o autor, que prepara agora uma sequência de Desagregação, desta vez ampliando o território para um cenário globalizado, mostrando que a corrupção, que na era Reagan envolvia lobbies poderosos contra leis trabalhistas e a defesa do poder corporativo, hoje é sistêmica e ameaça até a diplomacia americana.

Em Desagregação, o idealismo político é derrotado pelo capital organizado, caso do lobista Jeff Connaughton, mas Packer não faz do drama pessoal desse administrador um libelo político, e sim um exemplo da patética crença no mito do self made man do americano, iludido com a ideia de que estar próximo do poder (no caso, do vice-presidente em exercício Joe Biden) é ser o próprio poder.

Connaughton, que trabalhou na campanha de Biden, não conseguiu derrotar os executivos fraudulentos de Wall Street. Packer diz que o lobista ficou tão desorientado após sair do emprego em Washington que voou direto para a Costa Rica e entrou no chuveiro do hotel – de roupa e tudo. Queria se sentir limpo, como a aspirante a atriz (Susannah York) que enlouquece ao ser usada por organizadores de uma maratona no filme A Noite dos Desesperados, que se passa, aliás, durante a Depressão.

DESAGREGAÇÃO

Autor: George Packer.

Tradução: Pedro Maia Soares.

Editora: Companhia das Letras (488 págs., R$ 59 ou R$ 39,50, na versão e-book).

Leia trecho de Desagregação, de George Packer, publicado pela Companhia das Letras:

"Se você é um americano que nasceu por volta de 1960, ou depois, passou toda a vida adulta na vertigem dessa desagregação. Viu estruturas que estavam em vigor antes de seu nascimento despencarem como colunas de sal por toda a vasta paisagem visível – as fazendas da região de Piedmont, na Carolina, as fábricas do vale do Mahoning, os loteamentos da Flórida, as escolas da Califórnia. E outras coisas, mas difíceis de ver, mas não menos vitais para a sustentação da ordem da vida cotidiana, mudaram a ponto de ficar irreconhecíveis – as práticas e métodos nos gabinetes políticos de Washington, os tabus nas mesas da Bolsa de Nova York, a moral e os costumes em todos os lugares. Quando as normas que garantiam a utilidade das velhas instituições começaram a se desagregar e os líderes abandonaram seus postos, a República de Roosevelt, que reinara durante quase meio século, se desfez. O vazio foi preenchido por aquela força sempre presente na vida americana: o dinheiro organizado.

A desagregação não é nada de novo. Houve desagregações a cada geração ou duas: a transformação da República mítica dos Fundadores num mercado barulhento de facções em briga; a guerra que dilacerou os Estados Unidos e os transformou de plural em singular; o crash que devastou os negócios do país, abrindo caminho para uma democracia de burocratas e homens comuns. Cada declínio trouxe uma renovação, cada implosão liberou energia, de cada desagregação veio uma nova coesão."

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