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'Gente Rica': Sátira folhetinesca retrata a São Paulo de 1912

Primeiro romance de José Agudo, epopeia da abastança sobre 'Cenas da Vida Paulistana' ganha uma nova edição

Elias Thomé Saliba, Especial para o Estadão

17 de outubro de 2021 | 05h00

O modernismo de 1922 comemora o seu centenário e, em tempos tão tristes, nada melhor do que rever o papel dinâmico que tal movimento desencadeou na cultura brasileira. Mas, na História, comemorações funcionam como aqueles holofotes giratórios, iluminando alguns personagens e obras e deixando outras na sombra ou na escuridão do passado. Muito oportuno, portanto, o lançamento de Gente Rica: Cenas da Vida Paulistana, o primeiro romance de José Agudo, publicado em 1912 – agora em caprichada edição, acompanhada de posfácio de Walnice Nogueira Galvão. Ausente das histórias literárias e visto apenas como um escritor menor, Agudo foi mais do que um professor da Escola de Comércio Alvares Penteado, português de nascimento, de nome José da Costa Sampaio, pois, entre 1912 e 1919, publicou sete romances, todos com histórias que tinham por cenário a São Paulo daquela época. 

Definido pelo escritor como uma “epopeia da abastança”, Gente Rica é uma sátira folhetinesca às elites paulistas e uma crônica alegre de alguns lugares característicos do centro paulistano. São vários personagens que circulam pelos lugares da afluente sociabilidade paulistana, como o Café Guarany, a confeitaria Castelões, a Rotisserie Sporstsman, o Teatro Santana – além das ruas, todas delimitadas pelo popularmente chamado “Triângulo”, formado pelas Ruas 15 de Novembro, São Bento e Direita. Lugares que o leitor pode revisitar, sobretudo a partir das raríssimas fotos reproduzidas no livro. Mais raras ainda porque, cabe lembrar, alguns dos edifícios acabaram destruídos pelo bombardeio da cidade em 1924. 

O personagem principal é Juvenal de Faria, “paulista da gema”, neto de descendentes diretos de Fernão Dias Paes Leme e bisneto do tenente Francisco Bueno Garcia Leme, descrito por Agudo como “um dos 30 felizes membros que testemunharam o célebre desarranjo intestinal do príncipe regente, ocorrido na tarde do não menos célebre 7 de setembro”. Apesar das origens, trata-se de um personagem absolutamente extravagante: abominava suas origens aristocráticas e envergonhava-se de ser forçado a “honrar- se de ser neto ou bisneto de bandidos e ladrões”. Quase como um alter ego do próprio escritor, cujo cognome popular era Juvenal Paulista, é ele quem vai propor a todos os amigos figurões a criação de uma “Mútua”(algo equivalente a um fundo de investimentos) e depois o Showing Club – uma evidente ferramenta de ostentação narcisista da elite – embora a quilômetros de distância do autêntico “show de egos” das mídias atuais. Todos os outros personagens são caricaturas verbais, nos quais se acentuam os contrastes entre a ambição arrivista e a realização de objetivos prosaicos, que beiram o ridículo. 

Entre as inúmeras outras figuras, cada uma com a narrativa das suas risíveis idiossincrasias pessoais, Gente Rica acaba por se constituir assim, segundo os desígnios de Agudo, num elogio da riqueza – mas é um elogio desmedido, de exagerada e hiperbólica ironia, prevalecendo o intuito cômico ou até mesmo humorístico, já que Agudo parecia antecipar, como poucos, algumas das modernas estratégias narrativas. 

Apesar de seus dotes, Agudo tornou-se mais um ilustre desconhecido no riquíssimo quadro cultural paulista daquela época. Seus escritos eram demasiado irreverentes, revelando uma ambiguidade que não era muito conveniente à construção da hegemonia paulista, sobretudo após a derrota da candidatura civilista em 1910. A outra razão relaciona-se ao fato de Agudo envolver-se em polêmica com Oswald de Andrade, a propósito quando seu segundo livro – uma sátira aos escritores – intitulado Gente Audaz. A apreciação de Oswald foi duríssima: “Porque Gente Audaz, não é romance, não é livro de filosofia nem de ciência nem de crítica, não é reunião de contos ou crônicas esparsas – é simplesmente uma vergonhosa declaração de amor próprio do autor de Gente Rica. E vamos confessar agora que o próprio sr. José Agudo seria capaz de tornar interessante um assunto reles como o que escolheu Gente Audaz, se não fosse hoje um rate”. A polêmica é longa, descambando em azedas ofensas pessoais e com um aviso de toda a redação, solidarizando-se com Oswald, ao definir a carta de insultos como “carta de um negro boçal e talvez bêbado”.

Esta bela edição de Gente Rica recupera, com justiça, um dos importantes livros de Agudo, fazendo com que aquele comemorativo holofote giratório ilumine alguns dos outros lados esquecidos da cultura paulista.

 

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