Tomas Bravo/Reuters
Tomas Bravo/Reuters

García Márquez, que pouco escrevia cartas, terá correspondências reveladas

Encontradas numa caixa nomeada como 'Netos', cartas foram mandadas por Carlos Fuentes, Fidel Castro e Bill Clinton, entre outras personalidades

Mónica Rubalcav, EFE

20 de junho de 2022 | 11h23

Gabriel García Márquez quase nunca escrevia cartas, segundo a neta Emilia García Elizondo e o filho Gonzalo García Barcha, mas recebia muitas correspondências de celebridades, como Pablo Neruda, Bill Clinton, Woody Allen e Fidel Castro, e pela primeira vez o público poderá lê-las.

Após uma descoberta inesperada de mais de 100 cartas não publicadas, a família decidiu abrir as portas da casa do autor na Cidade do México para exibi-las em Gabo a 40 años del Nobel: El escritor sí tiene quien le escriba (Gabo 40 anos após o Nobel: Tem quem escreva ao escritor, em tradução livre).

"Gabo quase nunca escreveu cartas, ele gostava de ter conversas em pessoa. Ele vivia falando ao telefone. Penso que a maioria destas cartas foram provavelmente respondidas em conversas ao telefone ou pessoalmente. Há poucas cartas de Gabo", disse García Elizondo, que também é diretora da Casa de Literatura Gabriel García Márquez (CLGGM), onde a exposição estará até meados de agosto.

Pela mesma razão, o filho Gonzalo confessa ter "zero carta" do pai e acredita que, se tivesse vivido nos tempos dos smatphones, García Márquez "teria sido um usuário impiedoso de celulares".

A descoberta das cartas de García Márquez

Gonzalo e Emilia estavam em um estúdio da casa, localizada no número 144 da rua Fuego, na Cidade do México, à procura de uma fotografia para comemorar o 40º aniversário do prêmio Nobel que estabeleceu García Márquez como um dos escritores mais importantes da América Latina e do mundo em 1982, mas, em vez de encontrarem fotografias, encontraram cerca de 150 cartas em uma misteriosa caixa com a marcação "Netos".

"Nunca tinha visto antes, presumi que fossem fotografias, mas eram cartas. Cartas que fazem parte de um arquivo muito maior que já foi para o Ransom Center, em Austin, mas que suponho que Mercedes (Barcha, a mulher do escritor) tinha guardado para entregar mais tarde. Nenhum de nós sabia que estavam lá", contou García Elizondo.

Gonzalo explicou que entre as cartas havia também algumas dos próprios netos de Gabo, como o escritor Mateo García Elizondo, e as suas sobrinhas, mas por serem tão pessoais, não fazem parte da exposição, para a qual apenas foram selecionadas entre 35 e 40 cartas.

Quem escrevia para García Márquez

As palavras que Robert Redford, Woody Allen, Fidel Castro, Enrique Peña Nieto, Felipe Calderón, Carlos Fuentes, Augusto Monterroso, Bill Clinton e mais personalidades dedicadas a Gabo e à sua esposa Mercedes Barcha em papel serão expostas a partir de agora no CLGGM antes de fazerem parte da coleção do Harry Ransom Center, na capital do Texas.

"A que mais gosto é a de Pablo Neruda porque adoro poesia. É uma carta de 1972, o que significa que os meus pais eram jovens e Neruda não era tão jovem. Deve tê-los emocionado muito", disse Gonzalo sobre a carta do poeta chileno na qual convida Mercedes e Gabo para um evento em que Mario Vargas Llosa e Julio Cortázar aparentemente também foram convidados.

Como atriz, Emilia confessou que o mais impressionante para ela foram as cartas que encontrou de atores e realizadores de cinema. Mas foi uma surpresa maior saber da amizade do avô com celebridades como o ex-presidente americano Bill Clinton e o presidente cubano Fidel Castro.

"Gosto muito das cartas com Fidel, há uma certa ternura na amizade que tinham, e as cartas com Bill Clinton são muito boas", confessou a neta, que nunca deixa de se espantar com a vida dos avós devido à discrição que sempre conseguiram ter.

"Tudo (em exposição) é 'vintage', muito século 20, Guerra Fria, Cuba, Clinton. Acho que foi um pouco sobre manter as coisas muito em segredo, (Gabo e Mercedes) foram muito discretos", acrescentou Gonzalo.

"Na realidade, não sei se gostariam que isto fosse mostrado, mas no domingo vão ser ainda mais expostos", reconheceu, uma vez que o Museu de Arte Moderna da Cidade do México também exibirá segredos do escritor de Cem Anos de Solidão (1967) em Gabriel García Márquez: A Criação de um Escritor Global.

Embora a lenda diga que as cartas de amor que García Márquez escreveu à sua mulher Mercedes na sua juventude foram queimadas, Emilia promete continuar a procurá-las.

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