Gabriela, cravo e canela

Na extensa e, já hoje, internacionalmente importante obra desse notável romancista que é Jorge Amado, o seu último livro apresenta um aspecto imprevisto e, de certa forma, desconcertante, dadas as modificações que parece indicar, não nas convicções políticas ou ideológicas do escritor, porém nos seus processos de fazer romance. Valorizando-o, diga-se desde logo. A maturação definitiva do estilo e da técnica de composição salta aos olhos, mas não é precisamente a isto que me refiro.

Luis Martins, especial para o Estado,

05 de agosto de 2011 | 14h26

 

O que, sinceramente, eu não esperava, era a vitória conquistada pelo artista sobre o homem, essa libertação de toda a preocupação doutrinaria de fazer "romance proletário", despojando "Gabriela, cravo e canela" de qualquer laivo de pregação socialista que, em seus livros anteriores, alcançava por vezes uma ênfase poética de alta beleza, porém não raro decaia na demagogia, na retórica e na vulgaridade. Como que uma compreensão mais profunda, uma ternura mais generosa, uma simpatia mais equitativa pelos homens, leva agora o romancista social a uma isenção puramente estética, que liberta o romance da polêmica e dá-lhe mais sólido, mais permanente e mais convincente conteúdo humano.

 

Essa evolução de seus processos já se fazia sentir em "Terras do Sem Fim". Mas neste ainda havia "tiradas" de discurso, acentos de comício político, trechos de poesia revolucionaria, que funcionavam, á margem do romance, como reafirmações isoladas das convicções doutrinarias do seu autor. Em "Gabriela, cravo e canela" o tom épico desaparece, a atmosfera de luta se transforma em lirismo de paz, os dramas sangrentos são ocasionais e secundários, e o livro acaba "bem", quase ninguém morre, toda a gente feliz, a justiça satisfeita e o amor renascido. Esse otimismo é uma nota nova e surpreendente no cenário trágico, agitado e heroico da grande obra romanesca de Jorge Amado. Os personagens principais, os mais simpáticos, não pertencem necessariamente á classe social oprimida, não são proletários, nem marujos, nem camponeses. Nacib é um negociante, Mundinho Falcão é um grã-fino, Gabriela é apenas mulher, o mais estranho, o mais perturbador, o mais misterioso dos tipos de mulheres criados por Jorge Amado.

 

E' uma simples cozinheira, porque ama sê-lo, porque está satisfeita com a sua condição, porque não se sente bem nos ambientes de luxo, nos vestidos caros, nos sapatos apertados. Não é uma revoltada, não tem a menor consciência de sua inferioridade social, pelo contrario, sente-se feliz quando se liberta do casamento, que a elevava na escala da sociedade e lhe garantia a prosperidade econômica. E' uma encarnação sertaneja do enigma feminino, esfinge de pés no chão, de uma animalidade sadia de fêmea, de um amoralismo cândido que a situa, pura e intangível, acima do bem e do mal.

 

- Importa não... - é o seu refrão filosófico em face da vida. Nada importa. Nem as convenções mundanas, nem os requintes materiais do conforto, nem a vergonha do adultério, nem o inferno do ciúme, nem as concessões ás exigências do sexo. Ser de uma feroz autenticidade humana, primaria, incontaminada, virgem das deformações psicológicas da civilização, ela é uma força bruta da natureza, que se choca com os preconceitos e leva-os de roldão.

 

Mas não é Gabriela o personagem central do livro. Este é a cidade de Ilhéus, num determinado momento de sua historia e de sua evolução, justamente no instante em que se transforma de boca de sertão em centro urbano, isto é, em que deixa de ser uma continuação das fazendas de cacau, com suas lutas pioneiras pela conquista da terra, para receber do mar os eflúvios da civilização, da ordem, da disciplina jurídica. Ela se destaca da barbárie sertaneja e integra-se na crosta litorânea, que é a orla civilizada do Brasil. O drama é esse choque, essa adaptação, essa metamorfose.

 

Essa mudança não se processa sem sangue, mas este é o ultimo, que corre. A política de trabuco, o mandonismo dos coronéis, a justiça do crime, a lei do mais forte, o autoritarismo implacável do patriarca, a covardia do macho, não encontram mais ressonância nem receptividade na clara atmosfera dos tempos novos. O progresso conquista Ilhéus, a cidade civiliza-se. A abertura do porto é um símbolo. Nostálgico do seu antigo poderio, o ultimo mandão dos latifúndios, o ultimo coronel, o chefão político da zona, desaparece, antes de ver a entrada triunfal, no porto de Ilhéus, dos grandes transatlânticos, que ligarão a cidade à civilização ocidental.

 

E assim, em lugar de escrever uma epopeia, o autor faz um idílio. Não é mais o heroísmo que distingue os homens, que os eleva, que os valoriza: é o amor. Nacib esquece a lei tradicional nascida dos costumes bárbaros, que manda matar a mulher infiel - e perdoa o adultério. Ninguém o despreza por isso. Pelo contrario, todos o admiram, o elogiam, o compreendem. E o livro termina com um "post-scriptum" contando que, no julgamento do coronel Jesuino Mendonça, "pela primeira vez, na historia de Ilhéus, um coronel do cacau viu-se condenado à prisão por haver assassinado esposa adultera e seu amante".

 

Vê-se, pois, no final das contas, que Jorge Amado não deixou de escrever um "romance social". Mas escreveu-o sem "parti pris", sem se situar num angulo predeterminado e deformador, com uma isenção, uma imparcialidade, uma generosidade, que tornam "Gabriela, cravo e canela" não um libelo contra a sociedade, mas um extraordinario mosaico de vidas, de paixões, de perfis humanos, de episodios dramaticos, tudo ligado por um fio romanesco que empolga e interessa, numa atmosfera de permanente e sonora poesia, que é um dos dons mais admiraveis desse notavel escritor.

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