Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Gabriela Aguerre constrói um lugar para a dor em 'O Quarto Branco'

Em seu delicado romance de estreia, 'O Quarto Branco', a jornalista Gabriela Aguerre escreve sobre uma mulher que busca sua identidade enquanto lida com diferentes lutos

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2019 | 03h00

Gloria tem 40 anos e acaba de descobrir que não pode mais ter filhos. Ela quase teve um, e queria muito, mas perdeu. É nesse ponto de sua vida que a encontramos, triste, e a partir daí seguimos com ela em sua jornada – não de autoconhecimento ou superação, mas de recuperação de uma identidade que lhe foi roubada ainda bebê, e de aceitação da vida como ela é. Gloria é a protagonista e narradora de O Quarto Branco, romance de estreia da jornalista Gabriela Aguerre, 44, que será lançado nesta terça-feira, 26, pela Todavia.

Gabriela conta que queria escrever um livro sobre duas irmãs gêmeas, sobre o duplo e a falta desse duplo. Ao longo do processo, ela se permitiu ser tocada pela história que ia se desenhando na sua frente e O Quarto Branco resultou numa delicada obra sobre vida e morte, família, história, identidade e memória. 

Gloria lida com seu luto (seus lutos) e com a ideia de que “tudo acabou aqui, e não haverá mais nada nem ninguém para continuar a sua história”, ao mesmo tempo em que vive de perto a doença do pai e que decide encarar o fantasma de Gaia, sua irmã gêmea que morreu muito pequena e está enterrada no Uruguai, de onde sua família saiu pouco depois dessa perda, mas por causa da ditadura. Num rompante, viaja para sua terra natal e, com a ajuda de um tio, recupera as cinzas da irmã e viaja para uma praia qualquer, gelada porque era inverno, para acertar as contas com um passado nebuloso.

Uruguaia como sua personagem, que também se mudou para o Brasil muito pequena, aos 3, Gabriela conhece bem os cenários por onde Gloria passa, os cheiros e os gostos que sente. “O Uruguai é uma presença muito forte na minha vida e viajar também”, comenta a jornalista (especializada em viagem). Ela sabe da importância do deslocamento – também para organizar ideias e o mundo interior. Não para mudar exatamente, mas para ajudar a enxergar tudo com mais clareza. 

“Quando viajamos pensamos que os problemas vão ficar para trás, mas nós os carregamos porque nos carregamos para algum lugar. E por mais que este lugar apresente o novo, nós continuamos lá e somos os mesmos. Porém, o deslocamento é uma posição muito privilegiada para reflexão do novo e de si. Sair de cena para se ver melhor. Ver as coisas passando e se transformando lá fora e, quem sabe, isso não ecoe aqui dentro”, diz. 

Gabriela Aguerre começou esse livro como um projeto de escrita profissional. O Quarto Branco é seu trabalho de conclusão do curso de formação de escritor que fez no Vera Cruz. Um curso que ela, com vasta experiência em não ficção e alguns poucos contos e poemas na gaveta, decidiu fazer três anos atrás para ser despertada para algo novo, para voltar a ler e a estudar e para se reconectar com a literatura – ela também estudou Letras. 

“Na escrita desse livro, embora eu fosse conduzida por aquilo que eu achava que estava sendo o fio, a história principal, das gêmeas, eu senti que tanto a memória quanto a inventividade, a imaginação e costura de histórias foram aparecendo e achei que tinha que dar voz a tudo isso. Foi um exercício de liberdade muito grande.” Seu processo de escrita foi muito intuitivo, ela conta. “E de muita entrega, de procura de uma autenticidade de sentimentos, pensamentos e de descrições, e observando atentamente as coisas que me atravessavam – tanto o meu caminho como a minha escrita.” 

A doença do pai da narradora é algo que cresce na trama porque, como diz a autora, o texto estava permeável ao que acontecia ao seu redor. “E quando isso é narrado, sinto que tenho um livro e que ele acaba. Nada a ser feito diante do que aconteceu e do que vai acontecer, e essa consciência é o que traz uma certa ‘paz triste’. Este é um livro que admite que as coisas não são como elas devem ser, mas simplesmente são como são. Passa de uma inconformidade para um inconformismo tranquilo”, conta Gabriela, que perdeu o pai enquanto escrevia seu livro. “Para mim, essa não é uma história triste. Tem uma felicidadezinha na aceitação.” Mas é um pouco triste, sim, e é bonita.

O QUARTO BRANCO

Autora: Gabriela Aguerre

Editora: Todavia (120 págs.; R$ 49,90)

Lançamento: Hoje (26), às 18h30, na 

Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915)

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