Frases de João Ubaldo em entrevista ao 'Estado', em 2011

'Como ensina o dito popular, tenho de matar um leão a cada nova escrita'

O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2014 | 10h29

"Sou experiente, tenho uma longa carreira, mas não consigo planejar nenhum de meus livros. Faço como Faulkner que, tão logo criava um personagem, saía atrás dele, anotando todos seus passos. Assim, quando acredito estar em um processo de criação, eu converso sobre essa história com minha mulher (minha vítima preferida) e também com alguns amigos. Mas, quando vou escrever, o resultado é algo totalmente diferente do que contei. Não é que perco a condução da narrativa ou que entre em algum transe. Mantenho o controle estilístico. O que acontece é que se engata uma marcha estradeira na fabulação e vou criando coisas a despeito de planos anteriores. Com isso, aquele que seria coadjuvante, deixa de ser; o caráter de um passa a ser o do outro, e assim por diante"

"Quando morei em Itaparica, eu tinha acesso livre à biblioteca da cidade pois a coordenadora me emprestava uma sala para trabalhar. Assim, eu vivia cercado de dicionários, tamanho o fascínio que tenho pela palavra. Aliás, tenho uma confissão a fazer: já me encantei tanto com certas palavras descobertas ao acaso no dicionário que inventei cenas, não saberia dizer quais, apenas para encaixar essas palavras. Tenho certeza que isso chegou inclusive a afetar o destino de personagens."

Como ensina o dito popular, tenho de matar um leão a cada nova escrita. Mas, entre minhas técnicas, está a de conviver com um inimigo imaginário, que me serve muito. Visualizo um sujeito, um homem, que me detesta e que lê com extrema má vontade minhas palavras. Ele aparece, por exemplo, quando, ao escrever um texto claramente comprometido com a norma culta, penso em utilizar intencionalmente uma forma controvertida, que foge à regra. Mas logo me vem à mente esse inimigo imaginário me criticando e, então, me curvo à normalidade, pois não quero lhe dar o gosto de ter razão. Penso muito nesse homem, que não me aparece claramente, apenas sua voz."

"O avanço da tecnologia acaba me atrapalhando mais que ajudando. Veja bem, meu computador é potentíssimo, parece da Nasa. Quando escrevo, mantenho pelo menos três dicionários da língua portuguesa em linha, além de um corretor ortográfico e sites de pesquisa. Mas, ao consultar uma palavra, a leitura me leva a outro vocábulo, que leva a outro e, por fim, me descubro lendo o dicionário. É uma tentação muito grande, que provoca uma perda de tempo imperdoável. Outro problema é a ameaça de tornar uma afirmação sua em uma repetição de algo que é conhecido há muitos anos. Você pensa ter descoberto uma forma original de formular uma ideia e o Google te mostra que ela já foi criada há muito tempo. Lógico que é útil, mas para um romancista, é um atraso de vida."

"Algumas de minhas obras, como Sargento Getúlio e Viva o Povo Brasileiro, que foram publicadas há mais de 30 anos, tornaram-se clássicos. Ou seja, as pessoas se acostumaram com a sua presença e, mesmo não tendo lido nenhuma delas, afirmam que sim. Também certos comentários elogiosos me dão uma tristeza. Por exemplo: a rapsódia 14 da Ilíada, de Homero, trata da interferência da participação dos deuses na guerra de Troia. Já o capítulo 14 de Viva o Povo Brasileiro relata a batalha de Tuiuti com interferência dos orixás. De propósito, acreditando que todos entenderiam a semelhança, utilizei a linguagem homérica na narrativa, fazendo uma paródia em seu sentido mais elogioso. E não é que fui elogiado pela forma original, como se fosse uma invenção minha?"

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