MÁRCIO FERNANDES|ESTADÃO
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França cria livro digital que adapta sua história a cada leitor

Não se trata de um livro interativo; projeto prevê que leitor preencha um questionário ou conecte o aplicativo à sua conta de Facebook

Melissa Serrato, EFE

10 de junho de 2016 | 16h00

Dizem que o leitor se identifica com a história que o faz chegar ao final do livro. Por isso, foi criado na França um aplicativo que adapta o texto ao gosto, à vida e à personalidade de cada leitor e, de quebra, ao ambiente em que o livro está sendo lido.

Assim, a história não será a mesma se o leitor for um homem ou uma mulher, se for ou não comprometido, se estiver lendo na praia, ou em casa num dia de chuva, ou num ônibus. A criação é da Via Fabula, uma empresa francesa emergente que desenvolve aplicativos para livros digitais.

“Não fazemos livros interativos, mas adaptativos”, diz Bruno Marchesson, criador do projeto. A diferença, explica ele, é que as histórias interativas permitem ao leitor escolher o que quer ler. “Já nossas histórias são adaptativas porque é o livro que escolhe a história que vai mostrar ao leitor e melhor se adaptará a seus gostos e interesses”.

Para isso, o leitor tem de baixar, gratuitamente, o aplicativo que, desde o lançamento, no início do ano, já tem mais de 1.100 usuários. Em seguida, tem de conectar o aplicativo a seu perfil no Facebook, ou preencher um pequeno questionário, e permitir que o aplicativo saiba qual é sua localização geográfica.

Aí, pode começar a ler o primeiro capítulo do romance policial Cronique(s) D’Abîme (Crônica(s) de Abismo), adaptado à hora e à cidade do leitor. Por enquanto, só existe a versão francesa.

Entretanto, para receber as adaptações propostas é preciso pagar, como qualquer livro digital, para continuar lendo a história. O preço é US$ 4,99 (R$ 17), dos quais 30% vão para a plataforma de download, 30% para a Via Fabula e 40% para o autor. “É uma grande vantagem para os escritores, pois habitualmente as editoras lhes pagam apenas em torno de 10% do obtido com as vendas”, diz Marchesson.

O escritor de histórias de terror Marc Jallier foi o escolhido para o teste piloto do projeto, apesar de Cronique(s) de L’Abîme já ter sido publicado há mais de 10 anos.

Segundo Marchesson, o escritor decidiu participar da iniciativa da Via Fabula pelo desafio que implicava escrever seis histórias diferentes, partindo da mesma base, com 9 finais alternativos e 150 variações no decorrer da história. “Além disso, ele ouviu uma vez um leitor dizer que havia gostado do romance, mas não do final. Quando começamos a trabalhar juntos, lembrou-se do episódio e quis tentar não apenas um final diferente, mas muitos”, diz o empresário.

Marchesson, que é engenheiro de informática, e Jallier deram início ao trabalho conjunto há dois anos, Depois vieram os dois sócios atuais do empresário: Rémy Bauer, desenvolvedor, e Aurélie Chavanne, designer de web e diretora-geral. Mais seis meses de trabalho coletivo e o projeto estava pronto.

“Tudo funciona com um algoritmo que se encarrega de introduzir as variações da história a partir de uma plataforma informática que muda dinamicamente para cada leitor”, diz Marchesson. Ele acrescenta que a equipe da Via Fabula trabalhou com os códigos e a programação, mas quem se divertiu foi o escritor, pois “saiu de sua zona de conforto e pôde explorar verdadeiramente sua criatividade e desenvolver o que poderá ser uma nova forma de literatura”.

Via Fabula trabalha agora na publicação de dois novos livros: um infantil e ilustrado, que deverá ser lançado ainda antes do verão, destinado a conquistar os pequenos e “estimulá-los a ler desde os primeiros anos”; e outro de ficção científica, esperado para o final do ano. “É um documentário de ficção – será baseado em fatos reais, mas o ponto de vista de cada personagem mudará segundo a vontade dos leitores”, conclui o empresário. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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