Eduardo Carvajal/Divulgação
Eduardo Carvajal/Divulgação

Fragilidade e humor desesperado marcam 'Viva a Música!', de Andrés Caicedo

Obra do colombiano, adaptada para o cinema, chega em breve às livrarias brasileiras e inaugura o catálogo da editora Rádio Londres

Wilson Alves-Bezerra, Especial para o Estado de S. Paulo

09 Janeiro 2015 | 22h25

O colombiano Andrés Caicedo (1951-1977), em uma carreira de cerca de dez anos, dedicou-se sobretudo à crítica de cinema, de música, a escrever contos, peças de teatro e à agitação cultural. Viva a Música! (1977) é seu único romance, publicado no dia de sua morte, quando ele decide, aos 25 anos de idade, tomar 60 comprimidos de Seconal e pôr fim à vida. Uma carta à namorada, Patricia Restrepo, escrita naquele 4 de março, dá testemunho de seu estado de tormento e paixão: “Não pense que a satisfação de ter recebido hoje o primeiro exemplar do meu romance possa se comparar à absoluta infelicidade que eu sinto pelo desprezo que agora você sente por mim”. Outra, à mãe, do mesmo dia, dá mostras da sua fragilidade: “Sou eu quem te perde”.

Paixão, fragilidade e, sobretudo, urgência são os elementos que marcam o romance Viva a Música! – que passados 38 anos chega ao Brasil. Romance único de um autor jovem, suas linhas exalam um saboroso imediatismo. A narradora é uma garota burguesa, loura, que se orgulha de seus longos cabelos. Suas aventuras pessoais – sobretudo incursões noturnas, tóxicas e musicais – são narradas atropeladamente para o leitor que tem por obrigação acompanhar o seu vigor: “Isso foi na semana passada, agorinha no sábado. Não quero me adiantar muito, para a gente não terminar começando pelo rabicho, que é difícil de pegar, que se debate e se enrosca. Gostaria que o estimado leitor acompanhasse a minha velocidade, que é energética”. (tradução minha)

Produzindo literatura urbana e jovial, Caicedo afasta-se radicalmente do encantamento pela selva que produz o já então celebrado García Márquez (1927-2014), e dá mostras de ter bebido muito na psicodelia e na literatura beat. O rock, o cinema e outras referências da cultura pop são também centrais para as experiências vitais da personagem, mais que isso, são o amálgama de suas descobertas e lhes conferem sentido, como se pode ver nesta cena, em que Ricardo, o amigo insone, vem visitar a protagonista, e entra na penumbra de seu quarto: “Essa camisa verde profunda e lilás, plenamente psicodélica. A palavra me fez arquitetar que se eu baixasse a veneziana, pintaria sombras horizontais no corpo dele, que se eu lhe tirasse a camisa, ele seria uma espécie de John Gavin com 30 quilos a menos, e que ambos éramos, ali, naquele quarto de uma casa perdida em uma cidade desolada e ardente, nada menos que o início de Psicose, esse filme que não quis nunca voltar a ver, para não esquecê-lo”.

Ao lado da embriaguez trazida pela juventude, pela noite, pela insônia, pela droga, há também uma dimensão política que atravessa o livro: a protagonista, bem de vida, confronta-se a todo momento com a diferença social e cultural. Um grupo de rapazes que estuda O Capital, de Marx, apresenta-se sempre como uma possibilidade. Depois de apenas uma reunião, ela troca a piscina pelo rio, que nem sabia que existia. O grande mérito de Caicedo é exibir o intricado das relações sociais, sexuais e culturais na perspectiva e nas palavras de uma adolescente ávida por experiências, legando ao leitor as articulações.

É certo que a morte precoce e seu livro roqueiro já bastaram para fazer de Andrés Caicedo um herói juvenil. Porém, pensar sua literatura na chave da beat generation, por um lado, e no quadro mais amplo de uma narrativa urbana de língua espanhola – desde os anos 20 com o argentino Roberto Arlt (1900-1942), para seguir com o uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994) – num contexto em que o exotismo do continente estava em voga, confere a seu Viva a Música! uma dimensão singularmente importante. Esperamos que a edição brasileira, que está prestes a ser publicada, possa estar à altura da sofisticação da linguagem oral trazida por Caicedo, com suas gírias e giros de humor desesperado.

WILSON ALVES-BEZERRA É ESCRITOR,TRADUTOR E PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UFSCAR

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