Adriano Fagundes
Adriano Fagundes

Fotógrafo cria diálogo com a obra do poeta Drummond

‘Vasto Mundo’ partiu da ideia de reunir o acervo do brasileiro Adriano Fagundes, radicado em Portugal, com textos do escritor

Matheus Lopes Quirino, O Estado de S. Paulo

15 de janeiro de 2022 | 05h00

“Escolhe teu diálogo e / Tua melhor palavra ou / Teu melhor silêncio / Mesmo no silêncio e com o silêncio dialogamos” – são esses os versos que abrem Vasto Mundo, uma experiência fotográfica imaginada a partir de textos do mineiro de Itabira Carlos Drummond de Andrade. Idealizado pelo fotógrafo Adriano Fagundes em parceria com Pedro Graña Drummond, o livro traz um diálogo entre a obra do fotógrafo e a do poeta, cuja data de nascimento completa 120 anos no dia 31 de outubro. 

“A publicação veio em boa hora, temos duas efemérides de peso, tanto a ocasião do centenário da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, quanto o aniversário póstumo de Drummond, no dia 31 de outubro”, diz Fagundes, de Lisboa, em entrevista por telefone ao Estadão. Lançado no primeiro Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira), o livro recebeu apoio integral do herdeiro de Drummond, Pedro, que deixou a Companhia das Letras no ano passado para publicar a obra do poeta novamente pela editora Record, que tinha Drummond, ainda em vida, como carro-chefe. 

“O livro era para acontecer, foi exatamente na janela das negociações da obra entre editoras que a Rejane Dias. diretora do Grupo Autêntica, também mineira de Itabira, topou fazer o livro.” Como em uma gestação, depois de nove meses de intensa pesquisa no próprio acervo fotográfico, o livro saiu. “Desde 1980, não saiu nenhum livro de fotografia do Drummond, então percebi a responsabilidade que tinha em mãos, reli 16 livros do poeta”, relata o fotógrafo. 

“Há muitos textos que falam de fotografias, fotógrafos, poemas que me remetem a umas certas imagens. A Terra do Índio, por exemplo, é uma crônica, e o poema Hino Nacionalsão obviamente atuais.” E foi nessa conexão entre textos atemporais do poeta e imagens marcantes de mais de 20 anos de carreira que Fagundes se concentrou e concluiu: “A modernidade do Drummond é algo que a gente ficou pensando, é como se ele estivesse falando conosco hoje, como uma conversa mesmo”. 

Não bastava apenas intercalar imagens e textos, como simples reflexos de versos antológicos, conhecidos do público, como um dos trechos mais conhecidos do poeta, que dá nome ao livro, do Poema das Sete Faces: “Mundo mundo vasto mundo / Se eu me chamasse Raimundo / Seria uma rima, não seria uma solução”. “Em fevereiro de 2021, eu conheci o Pedro e ele propôs a ideia do livro.”

 Drummond, funcionário público e persona publicamente esquiva, tinha a introspecção e a solidão como companheiros de literatura. Ao contrário do fotógrafo, a reclusão não era uma imposição, mas um estilo de vida, que reflete também no passaporte do poeta. “Drummond foi no máximo até Buenos Aires, e esse aspecto de ele não ter viajado, de ele interiorizar essas viagens, essas buscas, esse foi o insight que guiou o livro”, conta Fagundes, que vivenciou a reclusão durante a pandemia. Nômade fotográfico, Adriano Fagundes viajou o mundo fazendo editoriais e campanhas publicitárias. Aproximou-se da fotografia comercial, sua fonte de renda durante anos, e foi só em 2014 que estreou na literatura com Dos Andes ao Atlântico: Uma Viagem pelo Rio Amazonas, outra experiência fotográfica-literária, desta vez um trabalho de campo seguindo o curso do rio homônimo, em parceria com o jornalista Daniel Gonçalves.

“Quando reli O Homem e as Viagens, fiquei atordoado”, revela o fotógrafo. “Fiz mais de 18 versões do livro, porque, quando construí a estrutura, tinha de ser a de uma vida, não podia ser algo aleatório ou alfabético.”

Na história contada pela dupla Fagundes e Drummond, o início de tudo, além do verbo, é a infância. 

“Quis estruturar o livro como se fosse uma vida, o livro começa baseado na vida dele e da minha vida, poemas sobre infância, sobre criança, aí entra uma parte de Minas Gerais.” E é na universalidade dos anos iniciais da vida do homem que o fotógrafo acerta ao trazer retratos de infâncias diversas, como os meninos jogando futebol , ou mesmo uma garotinha vestida em asas de anjo, que faz par com o Poema da Purificação. Em Infância, poema dedicado a Abgar Renault, vê-se uma pequena sertaneja sorridente abraçada com uma cabrita , ao fundo, a paisagem do Cerrado vai de encontro com “No mato sem fim da fazenda”, afinal, conclui o poeta: “E eu não sabia que minha história / Era mais bonita que a de Robinson Crusoé”. 

Amor, infância, desilusões amorosas, fé, solidão dão um contorno terreno nas fotografias, um espelho para o leitor se identificar com a própria vida. Presente nos anos de formação de muitos brasileiros, a obra de Drummond ecoa em imaginários diversos que aludem à educação elementar, como lembra o fotógrafo: “Poemas que vieram a partir de pensamentos, coisas da escola, tem um poema que é o Som na Praia, é um poema que eu lembro da oitava série”. 

E aos que descobriram Carlos Drummond de Andrade tardiamente, o frescor da obra do mineiro se mantém, mesmo depois de 35 anos de sua morte. A pedra continua no meio do cominho, e Drummond analisa também, já melancólico pela perda da filha que tanto amou, Maria Julieta, que “A pedra é sofrimento / paralítico, eterno. / Não temos nós, animais, / sequer o privilégio de sofrer”.

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