Arquivo da Família
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‘Fotobiografia’ traz imagens e manuscritos inéditos de João Cabral de Melo Neto

Poeta evitava se referir à vida íntima em sua biografia, lacuna que é suprida pelas imagens do livro

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2021 | 05h00

João Cabral de Melo Neto (1920-1999) acreditava piamente que a vivência particular do poeta deveria ficar longe da própria escrita, ou seja, recusava o que se chama de poesia confessional. Com isso, opunha-se enfaticamente à figura mítica do poeta romântico, aquele que tanto era herói e marginal, iluminado e vagabundo. 

“Foram poucas as vezes em que João Cabral se referiu à sua vida íntima e à sua biografia em seus poemas. Em Museu de Tudo, Sevilha Andando e Agreste, podemos vislumbrar traços mais biográficos. A vida íntima, no entanto, apareceu raríssimas vezes em seus livros”, observa a autora, editora e pesquisadora Valéria Lamego, coordenadora-geral do livro Fotobiografia de João Cabral de Melo Neto, que será lançado na próxima semana, pela editora Verso Brasil.

Trata-se de um valioso volume que reproduz mais de 500 imagens – incluindo manuscritos inéditos – que buscam contar a trajetória do poeta, especialmente nas funções de escritor, pai e diplomata – desta última, há registros feitos nos 13 países em que João Cabral trabalhou a serviço do governo brasileiro, especialmente sua passagem pela Espanha, nas décadas de 1940 e 1960, que ressalta, por exemplo, sua paixão pela tauromaquia. 

“Na Fotobiografia, cometemos essa ‘inapropriação’, ao revelarmos a intimidade do poeta”, continua Valéria, lembrando que são imagens familiares e também aquelas coletadas em acervos brasileiros e internacionais, públicos e privados. 

João Cabral construiu uma carreira singular, tornando-se um dos principais poetas da língua portuguesa do século 20, da mesma grandeza de Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade. O escritor pernambucano que não acreditava em inspiração – para ele, a obra-prima era fruto do extenuante trabalho com a palavra – era um estilista mesmo não admitindo: cada verso era cuidadosamente pensado, a fim de dar forma a uma estrutura consistente do poema, o que o tornava conhecido como o poeta da matéria, por seus versos secos, exatos, sem ilusões e de emoções omitidas.

Pessoalmente, manteve uma vida reservada, ainda que marcada por uma ativa rotina cultural, como comprovam os registros reproduzidos no livro: desde encontros (como com o pintor catalão Joan Miró) até obras de artistas (Joan Brossa, Fayga Ostrower, Franz Weissmann, Mary Vieira). “Encontramos documentos e imagens de um homem que viveu intensamente e com enorme vigor sua juventude e maturidade. Um pai amoroso; um amigo; um diplomata presente em momentos críticos de países como a Espanha, na década de 1940, e a República de Gana na década de 1970”, afirma Valéria.

Segundo a pesquisadora, várias paixões visualizadas em suas poesias foram reiteradas em novos ângulos através do registro fotográfico. “Quando diplomata, em seu primeiro posto, em Barcelona, aos 27 anos, foi tomado por um grande entusiasmo pela tauromaquia que não se resumiu a assistir a touradas, mas a entender o que estava em jogo; acompanhou o percurso dos toureiros, guardou cartões e fotografias dedicadas a ele, e a mulher Stella Maria; visitou locais célebres de toureiros e aficionados, como a Venta de Antequera, em Sevilha, frequentada por gerações de escritores espanhóis como a de García Lorca; acompanhou as homenagens póstumas a Manolete, o maior toureiro de todos os tempos. Tudo registrado por ele e Stella”, observa. “Essa aproximação com a tauromaquia foi tão intensa que, em 1986, quando cônsul-geral na cidade do Porto, em Portugal, foi realizada uma tourada em sua homenagem.”

As fotos permitem notar que, no período vivido na Europa entre os anos 1940 e 60, João Cabral não se distinguia apenas como o grande poeta e o diplomata, mas também pela figura de um pai amoroso, brincalhão e sorridente. “Revelamos uma vida familiar imensa. Nunca pensei em ver João Cabral na praia, porém lá estava ele, com sua família, tanto nas da Espanha, como nas inglesas, na década de 1950”, observa Valéria.

Touros. Segundo ela, o período na Espanha foi decisivo, não apenas pela afinidade com a tauromaquia, mas também pelo prazer de desfrutar do flamenco, a única música pela qual o poeta revelou um apreço, explicado pelo fato de os intérpretes cantarem “no extremo da voz”. “Um intelectual que despertou a jovem vanguarda artística catalã. Ao mesmo tempo em que se entusiasmava pelo que via – e o cenário intelectual e artístico na Espanha nos anos 1940, ainda sob a ditadura de Franco, é pulsante –, frequentava o ateliê de Joan Miró, artista já consagrado no período. Motivou tanto Miró, com suas ideias acerca de sua obra, como os jovens catalães Joan Brossa e Arnau Puig. Nas palavras de Brossa, Cabral foi uma “iluminação” naqueles anos obscurecidos pela violência de Franco.”

O também poeta Eucanaã Ferraz cuidou da organização da fotobiografia, trabalho de preencher lacunas, descobrir novidades, recuperar o que se dispersara, corrigir informações, além de descobrir centenas de registros inéditos. Afinal, o que as fotografias revelam e que dificilmente seria “visualizado” na poesia de Cabral? “Talvez o mais importante fosse: o que as fotos deixam ver daquilo que é ‘visualizado’ na poesia de Cabral. Ou seja, diante das fotos de um escritor, nós esperaríamos ver uma confirmação, uma iluminação de ordem íntima e biográfica de certas linhas de força – sobretudo temáticas – da sua escrita. Mas se isso já seria muito, vamos além, almejamos uma espécie de revelação de algo “a mais”, de um significado que transcende a escrita do autor”, comenta Eucanaã. “Os leitores sempre tentam levar a fotografia para um âmbito que não o da visibilidade absoluta e, assim, tenta descobrir uma semelhança subentendida entre as fotos e, quando o autor é um poeta, os poemas. Ou seja, agimos como se fosse possível encontrar um sinal de igual entre o silêncio da imagem e a voz que fala nos poemas.” 

 

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