Richard Drew/ AP
Richard Drew/ AP

Formação pelos romances de Philip Roth

Nossas dores e alegrias se tornam, de repente, por obra e graça da grande literatura, perfeitamente traduzíveis

André de Leones, Especial para O Estado

23 Maio 2018 | 11h41

Faltava uma hora para escurecer naquela tarde de junho, há mais de vinte anos - eu tinha dezessete, escrevia e escondia (mal) uns poemas bem ruins e, à maneira de muitos protagonistas de Bildungsroman antes de mim, já sonhava com o meu próprio e monumental Bildungsroman -, quando, sentado nos fundos de um ônibus caindo aos pedaços que me transportava de Silvânia para Anápolis, onde fazia cursinho pré-vestibular, fui apresentado a Philip Roth

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O livro que tinha em mãos - cujo início parafraseei desavergonhada e canhestramente acima - era uma edição do Círculo do Livro de The Ghost Writer, rebatizado como Diário de uma Ilusão. Eu o pegara da biblioteca, atraído pela capa (um corpo nu de mulher, na penumbra, atrás de uma máquina de escrever). Comecei a ler no ônibus e, uma vez em Anápolis, não fui para o colégio, mas entrei em uma lanchonete das redondezas, pedi um café e devorei o resto do livro com a certeza de ter encontrado uma voz que falava tão diretamente comigo que era como se viesse de dentro para fora.

Era a voz de alguém que, embora estrangeiro, norte-americano, judeu, nascido quase meio século antes de mim, dava a impressão de estar sentado àquela mesa comigo, em um pé-sujo no interior de Goiás, confidenciando um espanto diante da existência e de muitas das coisas que ela arrasta - solidão, desejo, raiva, beleza, morte - que era também meu. Página após página, Roth me oferecia a história de um jovem autor (ninguém menos que seu alter ego Nathan Zuckerman) que, em meio a um conflito identitário, consigo mesmo e com os seus, ia ao encontro de seu mestre. Ele me colocou sob a pele de Zuckerman, e então aquele conflito (objetivamente distante) se tornou meu ou, melhor dizendo, traduziu-se, fez sentido de e para mim, possibilitou uma abertura para o outro.

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Nos anos seguintes, ao ler mais livros do autor, experimentei aquela mesma sensação de reconhecimento. Mergulhei na sexualidade artrítica (moral e literalmente falando) do protagonista de O Teatro de Sabbath; horrorizei-me com a morte do Pai (sic) em Patrimônio; desesperei-me com o descompasso do homem com seu tempo em Pastoral Americana; concordei que a raiva, além de ser vivificante, é muitas vezes só o que nos resta (em A Marca Humana); fui a um enterro de araque e depois a Israel (e voltei) com O Avesso da Vida; conheci Aharon Appelfeld e concebi um outro eu, oposto em seus propósitos, mas idêntico em sua fúria, com Operação Shylock; e fechei um ciclo da única maneira possível - encarando a morte - com Fantasma sai de cena.

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Falando como leitor, é bem possível que o "meu" Bildungsroman seja exatamente esse palmilhar pelo universo alheio. Ou, em vez de um "romance de formação", eu poderia falar de certa "formação pelos romances" de Roth, na medida em que eles não só mostraram e trouxeram para mim, bem cedo, aquela possibilidade de abertura, mas também me ajudaram a mapear o espaço intervalar que existe entre mim e o outro, espaço no qual é possível conviver comigo mesmo e com o outro, porque as nossas dores e alegrias se tornam, de repente, por obra e graça da grande literatura, perfeitamente traduzíveis.

 

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