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'Fogo-fátuo' é uma ótima aventura de estreia

Protagonista do novo livro de Patricia Melo, a perita Azucena, que não é uma mulher comum, se revela uma escolha acertada da autora

Raphael Montes, Especial para O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2014 | 03h00

Fogo-fátuo é o décimo romance de Patrícia Melo e o primeiro da autora assumidamente no gênero policial. Nas obras anteriores, Melo já flertava com elementos como violência, crime, vida urbana e mistério. 

Neste Fogo-fátuo, no entanto, aparecem, a toda evidência, as bases da escola clássica norte-americana de literatura policial: um detetive problemático, um crime que se confunde com suicídio e um aparato policial tão burocrático que acaba por criar obstáculos à investigação.

A protagonista é Azucena, coordenadora do Setor de Perícias da Central Paulista de Homicídios. Uma loira bonita, com cabelos cortados num estilo moderno, a figura feminina se revela uma escolha acertada da autora, pois “a situação agora é diferente, as mulheres ocupam posições importantes, humanizam os departamentos policiais, mas o mundo policial continua machista e misógino”. 

Ao longo das páginas, somos conduzidos pela crise familiar vivida por Azucena: mãe de duas garotinhas, está em processo de separação e ainda é responsável pelos pais senis e pelas irmãs – uma alienada e outra antiética. 

A perita sabe também que não é uma mulher comum: “conversar com mortos é sua maior habilidade. Um talento inversamente proporcional ao de se comunicar com os vivos”.

No departamento, Azucena enfrenta lentidões procedimentais, corrupção policial e a frustração de investigações que precisam ser interrompidas ou finalizadas às pressas conforme a pressão midiática. 

Com essa sensação de guerra urbana, a autora trata da falência da polícia e da segurança pública: “não vai se surpreender nem um pouco se o secretário de Segurança acabar adotando uma política de ocupação das favelas, como no Rio, para agradar à mesma classe média que apoia a pena de morte”.

No romance, o caso principal enfrentado pela perita é a morte de Fábbio Cássio, um ator de sucesso na televisão que atira na própria cabeça durante uma peça de teatro. Suicídio ou assassinato? O mistério sobre quem carregou a arma ganha força conforme somos apresentados aos conviveres de Fábbio: Cayanne, a namorada que só pensa em fazer sucesso ao participar do reality show As gatas e os nerds; Olga, a mãe superprotetora; Cássio, o produtor interesseiro; e Telma, a tia com quem o ator mantinha uma estranha relação.

Através desses e de outros personagens, Melo faz críticas deliciosas à imprensa, com sua sede de tragédia, à sociedade voyeurista que cisma em acompanhar a vida íntima das celebridades, à busca desenfreada pela fama e também à brevidade do sucesso – “não adianta você ser o namorado da Madonna. Ou você é a Madonna ou você não é ninguém”.

O estilo de Patrícia Melo continua seco, com frases precisas e observações perspicazes. Ainda que a solução da trama pareça um tanto apressada, sem que Azucena consiga mostrar todo seu potencial dedutivo (descobre-se o assassino apenas por um golpe de sorte), Fogo-fátuo é uma ótima aventura de estreia para a perita Azucena. Além de provar, para desespero de alguns acadêmicos, que literatura policial pode ser, antes de tudo, boa literatura.

RAPHAEL MONTES É ESCRITOR, ADVOGADO, ESPECIALISTA EM LITERATURA POLICIAL E AUTOR DE SUICIDAS (BENVIRÁ) E DIAS PERFEITOS (COMPANHIA DAS LETRAS)

FOGO-FÁTUO

Autora: Patrícia Melo

Editora: Rocco (200 págs., R$ 29,50)

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