MITsp
MITsp

Flora Süssekind deixa a Fundação Casa de Rui Barbosa depois de 39 anos

'Amesquinhamento interno' foi um dos motivos para o pedido de aposentadoria da crítica literária e pesquisadora

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

03 de agosto de 2020 | 09h52

Flora Süssekind, uma das principais pesquisadoras da Fundação Casa de Rui Barbosa, que é um dos mais importantes centros de pesquisa do Brasil e referência para pesquisadores de todo o mundo, decidiu se aposentar. Sua aposentadoria foi publicada no Diário Oficial de sexta-feira, 31, quase 40 anos depois de ela ter chegado à instituição como bolsista e é uma consequência dos rumos que a Casa de Rui Barbosa está tomando.

“Eu estava em licença prêmio desde janeiro, pensando se devia de fato sair, se seria mais útil, nesse momento, à Casa Rui, lá dentro ou fora. Conclui pelo fora. Mas é uma dor”, diz a pesquisadora de 64 anos ao Estadão.

A licença à que Flora Süssekind se refere foi tirada logo após a sua exoneração, em janeiro, como chefe do Centro de Pesquisa em Filologia. Na mesma data, foram exonerados ou dispensados outros quatro servidores de funções de chefia, entre os quais a jornalista Jouelle Rouchou, que era chefe do Centro de Pesquisa em História. Ela se aposentou em abril, depois de 32 anos na Casa de Rui Barbosa, que é ligada à Secretaria Especial da Cultura.

A decisão de Letícia Dornelles, presidente da instituição, foi vista na época pelo servidores como política. O grupo estava entre os que questionavam sua nomeação, em outubro de 2019: a jornalista de TV não tem os requisitos mínimos necessários para o cargo e havia sido feita uma eleição interna para definir um nome para a presidência, sugestão que não foi levada em consideração.

A permanência do grupo também era vista como um entrave para transformar a Casa de Rui Barbosa em um museu-casa e diminuir sua produção cultural. A missão da fundação é preservar a memória nacional; formar, preservar e difundir o acervo bibliográfico e documental (estão ali cerca de 150 acervos de importantes intelectuais e escritores, além de coleções); desenvolver estudos e pesquisas em suas áreas de atuação (estudos ruianos, de política cultural, história, direito e filologia) e em cultura brasileira em geral; entre outras atividades.

Por meio da assessoria, em janeiro, Letícia Dornelles disse que a dispensa dos servidores de seus cargos de chefia foi uma medida de “otimização administrativa, decisões de governo”.

O que acontece na fundação carioca é exemplar do que ocorre no País, na opinião de Flora Süssekind. “Como em outras instituições, nomeiam-se para funções de direção espécies de interventores (encastelados) que não preencham minimamente os requisitos de formação ou de experiência em gestão exigidos para o cargo e a isso se seguem tentativas de questionamento ou pendengas jurídicas, que vão sendo proteladas enquanto se trava o funcionamento (cultural/científico) eficaz do órgão, atua-se (velada ou explicitamente) sobre as redes sociais, transformadas em instrumento de propaganda (algumas vezes de autopropaganda) e se amesquinha o potencial de intervenção da instituição no debate público de modo a que, se extinta, a força dessa extinção se tornará crescentemente diminuta.”

Trajetória e futuro

“Entrei na Casa de Rui Barbosa em abril de 1981 como bolsista do Projeto do Vocabulário do Português Medieval, coordenado por Antonio Geraldo da Cunha. Por meses e meses e meses me encarreguei de abonações com vocábulos iniciados com 'b'. Eu chegava a sonhar com palavras com b nessa época. Mas foi importantíssimo para mim - como disciplina de trabalho e como mergulho na gramática histórica”, diz Flora. “A Casa Rui foi, ao lado da universidade, um lugar de formação para mim. E para muitos que trabalharam lá desde bem jovens também. E foi um lugar de aprendizado constante, não apenas nos trabalhos realizados, mas no convívio e na conversa diária com os demais pesquisadores da Filologia e de outras áreas, alguns do quais amigos para toda a vida”, completa.

Para a pesquisadora, a Fundação Casa de Rui Barbosa foi uma instituição que soube se transformar ao longo dos anos e construiu um espaço vivo de formação e produção crítica de conhecimento. “Agora o que infelizmente se anuncia é não só um amesquinhamento interno, mas da fundação em seu caráter de instituição pública”, diz.

Ela foi criada em 1930, viu seu acervo crescer significativamente ano a ano e viu sua função ser ampliada com a criação do Centro de Pesquisa, em 1952, e nas outras formas de atuação da instituição, que se voltaria para a produção de conhecimento, para a construção de políticas públicas e para a formação e o ensino, contando com um programa amplo de bolsas de pesquisa também em parceria com agências da ONU, com a Cátedra Unesco de Políticas Culturais e Gestão e com a Cátedra Sérgio Vieira de Melo sobre Migração e Refúgio (com o Acnur), da qual se desdobraria importante clínica jurídica de apoio a imigrantes e refugiados, destaca a pesquisadora.

“As cátedras dificilmente continuarão sem gestores qualificados. Os diversos setores também se acham em risco com o afastamento de pesquisadores e funcionários. Da pesquisa saíram, entre outros, Lia Calabre, Isabel Lustosa, Joelle Rouchou e foram afastados Adélia Zimbrão e outros técnicos cedidos pelo Ministério do Planejamento, fundamentais para o trabalho com políticas culturais. Creio que será difícil manter também a vinculação à área de Ciência e Tecnologia sem produção compatível – passávamos por avaliações anuais, por meio de realizações comprovadas (estudos, eventos relevantes regulares, palestras, orientações), como nas universidades.”

Crítica literária e professora associada no curso de Estética e Teoria do Teatro do Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Flora Süssekind é autora de, entre outros livros, Tal Brasil, Qual Romance?, Literatura e Vida Literária, Cinematógrafo de Letras, Papéis Colados, A Voz e a Série e O Brasil Não é Longe Daqui. Seus estudos são focados em historiografia literária e teatral, na cultura oitocentista brasileira, na produção cultural contemporânea, na escrita poética e teatral, nas relações entre as artes e entre arte e técnica e em formas diversas de intervenção crítica.

E quais são os planos a partir de agora? “O País parece dissolver muitos planos de todos nós agora. A experiência de tantas mortes, de tanta falta de solidariedade, estupidez e crueldade me faz lembrar toda hora aquilo que Darcy Ribeiro contava do Glauber Rocha ligando para ele e dizendo sem parar: ‘Ah, o Brasil. O Brasil.' Há essa dor épica, não é? Ela é muito forte. É muito forte não só em mim.”

Mas com a aposentadoria, ela vai poder se dedicar mais à universidade. E vai poder tocar outros estudos e trabalhos que foram deixados em segundo plano por suas funções dentro da Casa de Rui Barbosa. A primeira coisa a fazer é concluir uma coletânea de ensaios prometida em 2018 para o Suplemento Pernambuco. Depois, tentar a titularidade na UNIRIO e dar andamento a trabalhos coletivos, como como a edição crítica do Guesa, os dois novos volumes de depoimentos da série Cultura Brasileira Hoje: Diálogos e mais alguns livros resultantes de seminários organizados pela instituição. 

O que a Fundação Casa de Rui Barbosa diz

"Não conheço a sra. Flora pessoalmente. Trabalho na FCRB diariamente, de 8h às 18h, há quase um ano, mesmo na pandemia. E sigo trabalhando em casa, muitas vezes, até a madrugada. Tenho reuniões diárias com diversos setores. E órgãos de controle. Acho natural um trabalhador de idade avançada (ou com anos de serviço comprovados em CLT) se aposentar. Muitos solicitaram aposentadoria por causa da reforma da Previdência. Outros pela pandemia. Quem quer trabalhar segue na casa", diz a presidente Letícia Dornelles, de 46 anos, destacando, ainda, que o quadro da instituição é "composto por muitos idosos" e que este é um dos itens do relatório de riscos apresentado para a gestão 2019 a 2022.

"Se a sra. Flora solicitou aposentadoria o que posso fazer? Assinar a autorização. Sou obrigada por lei. Foi a pedido", comenta, por e-mail.

Letícia Dornelles cita, ainda, a exoneração dos pesquisadores em janeiro. "Alguns (pesquisadores ) perderam cargos de chefia, em janeiro, e é o caso desta senhora. Estava na chefia de Filologia desde 2015. Cargo de valor baixo. Que ainda é subordinado à direção do setor. Acho saudável um gestor formar equipe em cargos de confiança e é o que faço. Assim como em 2015 ela também substituiu alguém."

Quanto ao futuro da Casa, ela diz: "A FCRB segue firme e forte. Com os que ficam e com os que chegam. Só Rui Barbosa é insubstituível".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.