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Flip vai homenagear a poeta Ana Cristina Cesar em 2016

Morta em 1983, ela deixou uma obra que repercute na escrita de jovens poetas contemporâneos; Flip será de 29/6 a 3/7

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2015 | 18h02

Pela segunda vez em sua história, a Festa Literária Internacional de Paraty vai homenagear uma mulher. Referência entre poetas da nova geração, mas não tão conhecida do grande público, Ana Cristina Cesar (1952–1983) foi a escolhida para a edição de 2016 do evento, que será realizado entre 29 de junho e 3 de julho. Antes dela, só Clarice Lispector, em 2005.

Ana Cristina Cesar, Ana Cristina C., Ana C. tinha 24 anos quando teve poemas incluídos na antologia 26 Poetas Hoje, organizada por Heloisa Buarque de Holanda em 1976, e só três anos depois lançou Cenas de Abril, de poesia, e Correspondência Completa, de prosa, em edições de autor. Em 1982, publicou A Teus Pés, obra que abriria a lendária coleção Cantadas Literárias, da Brasiliense, que fez história ao revelar toda uma geração de escritores, como Caio Fernando Abreu, Marcelo Rubens Paiva, Reinaldo Moraes. “Ouvimos falar sobre todos eles, mas não tanto de Ana Cristina. Será a chance de corrigirmos isso”, diz Paulo Werneck, curador da Flip.

Ele conta que desde que assumiu a programação do evento, em 2014, o nome da poeta aparece durante as discussões para a escolha do escritor homenageado. “Olhando retrospectivamente, a poesia ganhou um espaço importante na Flip e só seguimos a direção que já estava sendo apontada”, comentou. Em 2013, as jovens poetas Bruna Beber, Ana Martins Marques e Alice Sant’Anna encantaram o público – e Rua da Padaria, de Bruna, chegou a ficar entre os mais vendidos durante o evento. Em 2015, a portuguesa Matilde Campilho foi o destaque e seu Jóquei foi o best-seller. Houve outros momentos importantes, e até mesmo a escocesa Jackie Key, sem nenhum poema traduzido antes ou depois da festa, causou comoção.

Leitor da poeta durante a adolescência, Werneck diz que com os preparativos da homenagem terá a chance de redescobrir seus escritos. “É uma obra curta, mas muito densa, com vigor forte e emoção. Seu aspecto confessional tem muito a ver com nossa época – e a escrita de diário, a autoficção também. Ela praticou uma escrita muito pessoal e confessional, aspectos que ganham bastante relevo hoje em dia.” O curador revela que hoje, lendo a obra de poetas brasileiros contemporâneos, vê, em cada página, o traço de Ana Cristina Cesar.

Para homenageá-la, Werneck pediu a bênção a Armando Freitas Filho, amigo pessoal da poeta e nomeado por ela como o guardião de suas caixas e de sua memória. Ana se matou aos 31, em 29 de outubro de 1983. Hoje, ela teria 63.

Armando, Heloisa, Silviano Santiago, Viviana Bosi são alguns dos nomes que devem circular por Paraty em 2016. São próximos de sua obra ou conviveram com ela. Aliás, esta é a segunda vez, também, que um autor mais contemporâneo é escolhido – o primeiro, Millôr Fernandes, até participou da festa. “Fica mais quente, mais próximo. A homenagem será centrada nos anos 1970 e 1980. Antes, ficávamos naquele miolo do século 20, o modernismo amadurecendo no Brasil”, comenta Werneck.

Na esteira da homenagem, como ocorre todos os anos, livros devem ser lançados. Seu acervo está sob os cuidados do Instituto Moreira Salles e sabe-se que há material inédito, como traduções, ensaios, etc., a ser descoberto. Para quem quer se preparar para o festival ou conhecer o seu universo, que reproduz, também, o drama de sua geração e sua angústia existencial, a dica é ler Poética, lançado pela Companhia das Letras em 2013 com todos os livros publicados pela autora, além de alguns rascunhos, e o ensaio de Marcos Siscar sobre ela que integra a coleção Ciranda da Poesia, da Eduerj. Ana também figura no catálogo Poesia Marginal – Palavra e Livro (IMS).

Outros homenageados

2015 - Mário de Andrade

 2014 - Millôr Fernandes

 2013 - Graciliano Ramos

 2012 - Carlos Drummond de Andrade

 2011 - Oswald de Andrade

 2010 - Gilberto Freyre

 2009 - Manuel Bandeira

 2008 - Machado de Assis

 2007 - Nelson Rodrigues

 2006 - Jorge Amado

 2005 - Clarice Lispector

 2004 - Guimarães Rosa

 2003 - Vinicius de Moraes

Confira alguns poemas de Ana Cristina Cesar

QUARTETOS

Desdenho os teus passos

Retórica triste:

Sorrio na alma

De ti nada existe

Eu morro e remorro

Na vida que passa

Eu ouço teus passos

Compasso infernal

Nasci para a vida

De morte vivi

Mas tudo se acaba

Silêncio. Morri

(1967)

Quando eu morrer,

Anjos meus,

Fazei-me desaparecer, sumir, evaporar

Desta terra louca

Permiti que eu seja mais um desaparecido

Da lista de mortos de algum campo de batalha

Para que eu não fique exposto

Em algum necrotério branco

Para que não me cortem o ventre

Com propósitos autopsianos

Para que não jaza num caixão frio

Coberto de flores mornas

Para que não sinta mais os afagos

Desta gente tão longe

Para que não ouça reboando eternos

Os ecos de teus soluços

Para que se perca no éter

O lixo desta memória

Para que apaguem-se bruscos

As marcas do meu sofrer

Para que a morte só seja

Um descanso calmo e doce

Um calmo e doce descanso.

(julho/67)

Fama e Fortuna

Assinei meu nome tantas vezes

e agora viro manchete de jornal.

Corpo dói - linha nevrálgica via

coração. Os vizinhos abaixo

imploram minha expulsão imediata.

Não ouviram o frenesi pianíssimo da chuva

nem a primeira história mesmo de terror:

no Madame Tussaud o assassino esculpia

as vítimas em cera. Virou manchete.

Eu guio um carro. Olho a baía ao longe,

na bruma de neon, e penso em Haia,

Hamburgo, Dover, âncoras levantadas

em Lisboa. Não cheguei ao mundo novo.

Nada é nacional. Desço no meu salto,

dói a culpa intrusa: ter roubado

teu direito de sofrer. Roubei tua

surdina, me joguei ao mar,

estou fazendo água. Dá o bote.

Um beijo

que tivesse um blue.

Isto é

imitasse feliz

a delicadeza, a sua,

assim como um tropeço

que mergulha surdamente

no reino expresso

do prazer

Espio sem um ai

as evoluções do teu confronto

à minha sombra

desde a escolha

debruçada no menu;

um peixe grelhado

um namorado

uma água

sem gás

de decolagem:

leitor ensurdecido

talvez embevecido

"ao sucesso"

diria meu censor

"à escuta"

diria meu amor

sempre em blue

mas era um blue

feliz

indagando só

"what's new"

uma questão

matriz

desenhada a giz

entre um beijo

e a renúncia intuída

de outro beijo.

Sonho

Entre os complementos

uma massa se agita,

Indecisa.

Por sobre os remendos

uma nuvem se estica

Esbranquecida.

Unindo os membros

uma luz principia,

Unida.

Entre os complementos.

(Inconfissões, novembro/68)

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