Laura Himmelstein|Estadão
Laura Himmelstein|Estadão

Flip: Helen McDonald mostra um livro humanista sobre um falcão

Escritora britânica ficou fascinada pelos pássaros brasileiros e conta como superou o luto ao treinar um animal selvagem

Marília Neustein, ENVIADA ESPECIAL

03 Julho 2016 | 03h00

PARATY - Depois de perder seu pai, a escritora Helen Macdonald decidiu que, durante seu luto, iria treinar um falcão. E não qualquer um, mas um açor – considerado uma das espécies mais selvagens de pássaros. Foi dessa experiência que nasceu seu livro, F de Falcão (Editora Intríseca), que a inglesa lançou durante a Flip. Ao Estado, a autora comentou que sempre foi obcecada por pássaros e acreditou ser um desafio interessante treinar um animal assustador legendário. No entanto, segundo conta, a vivência a levou “para longe de si”. “Comecei a me identificar com Mabel (o falcão), mergulhei nesse mundo selvagem, me perdi na natureza”, explica.

Indagada sobre o motivo de escolher um falcão, Helen afirma que levou em conta o magnetismo do animal: “eles são criaturas maravilhosas e sempre tiveram esse espaço fascinante na cultura humana. Trata-se de um símbolo de selvageria, quase religioso. É possível encontrar diversas referências em muitas mitologias sobre o falcão”. No entanto, o dia a dia, como mostra o livro, não foi fácil: “não é algo simplista. Ela era um animal que caçava sua própria comida todos os dias. Foi uma educação sobre vida e morte. Também sobre como a dor é algo solitário, meu livro é sobre humanismo”.

Uma das partes mais fascinantes do processo do livro, revela, foi o paralelo entre a morte e a natureza. “Nossa relação com o mundo natural nas grandes cidades é muito parecida com a morte. Há um distanciamento, uma ideia de que não podemos interferir. No entanto, se não interagimos com o meio ambiente, não existe razão para querer salvá-lo. Por isso estamos perdendo a natureza que nos cerca. Acredito que o mundo não pertence a nós, mas a todas essas outras criaturas”, disse, ainda fascinada com os pássaros de Paraty. “Não consigo parar de olhar para eles. Uma pessoa que conhece os pássaros de um lugar sabe como reconhecê-lo. Sabe o que é uma casa.”

Helen conta que sofreu preconceito, na falconaria, por ser mulher. “Quando lancei o livro na Inglaterra, muitos me perguntavam: ‘mas por que você quis treinar um falcão? Você é mulher!’ Isso acontece muito com autores de literatura natural. São quase todos homens”, disse. “No ano passado, dos 20 livros sobre esse assunto que foram lançados, o meu era o único escrito por uma mulher.

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