Walter Craveiro
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Flip 2019: Aplaudida de pé, Marilene Felinto diz que levou décadas para superar o racismo brasileiro

Escritora e crítica fez uma das mesas mais incisivas da Festa Literária Internacional de Paraty ao denunciar visões racistas de Euclides da Cunha e questionar, com humor, o porquê de ter sido convidada

Guilherme Sobota, Enviado especial, O Estado de S. Paulo

13 de julho de 2019 | 12h43

PARATY - Numa das mesas mais aplaudidas da programação principal da 17.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) até aqui, a escritora Marilene Felinto emocionou a plateia ao comentar sua trajetória particular e dizer que levou décadas para superar o “racismo internalizado na mentalidade do brasileiro”.

“Os ancestrais de minha mãe são possivelmente sobreviventes da degola e da tortura a que foi submetida pelo exército de Euclides da Cunha a gente preta do arraial de Canudos, os milhares de escravos recém-libertos que zanzavam pelo sertão em busca de comida e alguma crença para suportar aquelas condições desumanas de vida”, leu, de um texto escrito previamente à mesa, num dos momentos mais emocionantes da Flip até aqui.

Ela reconhece que o escritor fez sua mea-culpa anos depois do fim da Guerra, em Os Sertões, mas diz que o fato pouco lhe importa. “Levei anos para superar o estrago do racismo internalizado na mentalidade do brasileiro, tão bem codificado no linguajar culto de Euclides da Cunha e dos sociólogos do seu tempo”, disse.

“Minha presença aqui e esta fala, que vocês infelizmente pagaram para ouvir, pode destoar assim do que se espera. Mas é que eu não aceito a norma quando ela significa a manutenção, a naturalização da perversidade, da exclusão, da desigualdade social. Levei décadas para superar o complexo de inferioridade resultado da discriminação de raça e de classe. Durante tempos, acreditei na minha própria feiura. ‘Sou feia’, eu me dizia quando menina, me olhando no espelho”, leu.

Dona de uma trajetória única no cenário das letras brasileiras, Marilene lançou seu primeiro romance, As Mulheres de Tijucopapo (republicado em nova edição para a Flip, em edição independente, assim como outros de seus livros), em 1982, e depois estabeleceu uma voz ativa na imprensa brasileira com uma coluna de comentários políticos na Folha de S. Paulo, a convite do jornalista Otavio Frias Filho, com quem depois rompeu. Ela deixou a experiência na imprensa de lado, disse, “por não aceitar o estado de coisas como ele é”.

“Não aceitei a censura, a liberdade de expressão que só cabe aos donos da mídia”, disse. Em outro momento, ela afirmou que a mídia brasileira deve uma reparação histórica aos brasileiros.

Rompida com a imprensa, Marilene desenvolveu ainda um trabalho educativo com jovens da periferia de São Paulo, estudando economia, sociologia e filosofia com alunos do ensino médio, e trabalhou para o PT em algumas ocasiões. A escritora vive há anos no interior de São Paulo e nunca parou de escrever, embora estivesse há tempos sem publicar.

Sobre As Mulheres de Tijucopapo, que chega agora à sua quarta edição, a escritora diz em seu prefácio: “É um romance de juventude. Por isso mesmo cheio dos defeitos, do ímpeto equivocado, dos impulsos irascíveis daquele período da vida (para não dizer da minha já tresloucada personalidade). Mas é nele também que reconheço a força inconfundível, o vigor imbatível da fase única em que uma pessoa se move impulsionada por uma fé cega no amanhã”.

Os outros títulos lançados agora em edição da autora são: Fama e Infâmia: Uma Crítica ao Jornalismo Brasileiro, Sinfonia de Contos de Infância: Para Crianças e Adultos, Contos Reunidos e Autobiografia de uma Escrita de Ficção.

Marilene disse ainda se sentir fora de moda e malcomportada. “No que se refere ao universo da cultura, das artes perpetua-se a mesma desigualdade da estrutura social brasileira em todos os âmbitos: trata-se da mesma hierarquia social branca e rica, o cenário é composto pelos mesmos sobrenomes de sempre”, disse.

Ao reconhecer que lhe foi muito custoso aceitar o convite para participar da Flip, dedicou sua fala “aos escritores do interior do Brasil”, “aos escritores anônimos, das cidades e das periferias das grandes cidades, entre estes últimos, jovens e moças negros, vítimas do extermínio cotidiano que ali se processa”.

Ela disse entender que os palcos e espetáculos de literatura, como aquele em que estava presente, não tem nada em comum com a atividade silenciosa da escrita e da leitura. “Mas o que, afinal, eu vim fazer aqui, então?”, questionou. “Acontece que certo tipo de escritor como eu é bem louco e faz pouco sentido.”

Escrever literatura, para ela, só serve para o próprio autor do texto elaborar e investigar questões que ele mesmo considera insuportável na realidade. “Para torná-la suportável, então, a pessoa escreve sobre ela, inventa outra realidade. Mas quem precisa disso?” Ela reconhece, a seguir, porém, que a literatura pode ser um "empreendimento de saúde", emprestando palavras de Gilles Deleuze.

Entre outras homenagens na sua fala de abertura, mencionou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (“o melhor que já houve por aqui, a despeito dos erros que tenha cometido”), Dilma Rousseff (“que abriu com suas saias de guerrilheira um espaço de esperança para nós, mulheres”) e o jornalista Glenn Greenwald, que na sexta-feira, 12, arrastou uma verdadeira multidão em Paraty. A curadora da Flip, Fernanda Diamant, Marielle Franco e a jornalista Suely Duval Gonçalves, também foram citadas por Marilene.

No rápido papo que se seguiu à leitura do texto, o mediador Fernando Barros e Silva leu outro texto de Marilene, inédito, em que ela conta ter sido estuprada por uma figura relevante do mercado editorial brasileiro nos anos 1980. “Se fosse jovem, me juntaria ao movimento Me Too e diria seu nome”, escreveu. "Mas confio a missão às novas gerações."

Questionada pela plateia sobre sua opinião sobre os novos movimentos feministas, disse: “Sempre fui feminista. Tem que ser, alguém tem dúvida? Acho lindo essa coisa de feminismo negro. Na minha época era diferente, mas você tem um posicionamento do movimento negro jovem brasileiro que é admirável. Isso tem que ser dito, apoiado e admirado”.

Ao explicar que teve aprender o “paulistês” quando chegou em São Paulo (sua família é de origem nordestina), comentou que o choque cultural da cidade grande foi “fortíssimo”, questão que a fez escrever seu primeiro romance. Com bom humor, disse que poderia parecer que ela estava gostando de estar ali, no palco da Flip - “mas não estou”, riu.

No fim do debate, ofereceu sua visão sobre a atual situação política brasileira: “É uma tragédia, um retrocesso social gravíssimo para todas as camadas sociais. Jovens, velhos. Temos que apostar na Vaza Jato, não vejo outra solução no momento”, disse, referindo-se ao vazamento de mensagens de membros da Operação Lava Jato e do então juiz Sérgio Moro.

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