Walter Craveiro
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Flip 2018: 'O mar que circunda a Itália virou um cemitério', diz Agiaba Scego

Italiana de origem somali, ela participou da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta sexta-feira, 27, com o suíço de origem italiana Fabio Pusterla e mediação de Noemi Jaffe

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2018 | 13h39

Para a escritora italiana Agiaba Scego, escrever é um ato político, especialmente nos tempos que correm. “Na Itália, estamos vivendo um momento de racismo feroz. Tivemos vários casos de racismo recentemente. Ontem mesmo um homem atirou de dentro de sua casa contra um rapaz de Cabo Verde, que estava trabalhando num andaime. E depois disse que queria acertar os pássaros. Esses episódios não são de hoje, mas estão aumentado”, conta a escritora na mesa Minha Casa, no início da tarde desta sexta-feira, 27, na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Autora do romance Adua e do ensaio Caminhando Contra o Vento, um ensaio sobre seu ídolo Caetano Veloso, publicados pela Nós, ela explica que começou a escrever “para tirar essa língua do poder, a língua de quem atira, mas também a língua de quem escreve nos jornais, dos que dizem que você é clandestino”. “Quero contar uma outra história. A Itália não quer saber do coloniasmo. E hoje, o mar que circunda a Itália virou um cemitério. Não é possível ficar sentado”, diz.

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Igiaba é organizadora de duas coletâneas de textos de refugiados. Uma delas é 1938, título que faz referência ao ano da instituição de leis anti-semitas. “A gente se pergunta como uma coisa dessas pôde acontecer no passado. Está acontecendo hoje, diante dos nossos olhos.”

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O poeta Fábio Pusterla, que tem uma antologia publicada no Brasil pela Macondo, disse que o romance é uma ferramentea de ação direta e que a poesia é diferente – mas que pode tentar questionar as palavras, seus sentidos e a visão de mundo contruída através das palavras. Sobre o mundo hoje, diz: “Certamente estamos vivendo uma época atroz, em que a política de direita, quase abertamente fascista, está conquistando o poder. E, para isso, se apóia no medo. Não podemos pensar que o mundo pode continuar por mais um século com tantas injustiças. Esse momento tão difícil poderia ser uma transição para alguma coisa que ainda não conhecemos”.

A mesa teve mediação da escritora Noemi Jaffe e a programação da Flip 2018 segue até domingo, 29.

 

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