Walter Craveiro
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Flip 2018: A escrita de si e da dor, por Isabela Figueiredo e Juliano Garcia Pessanha

A escritora portuguesa cujo pai foi um colonialista em Moçambique e o escritor e filósofo brasileiro dividem a mesa Obscena de Tão Lúcida na Festa Literária Internacional de Paraty

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2018 | 13h09

A portuguesa Isabela Figueiredo e brasileiro Juliano Garcia Pessanha dividiram o palco da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) na tarde deste sábado, 28, para uma conversa que acabou centrada em como a família aparece na obra desses autores - e a define.

O mais recente lançamento de Isabela no Brasil, Caderno de Memórias Coloniais, fala sobre sua infância em Moçambique, onde nasceu durante a colonização de Portugal, e, sobretudo, sobre o modo como seu pai, que ela amava tanto e que virou sua obsessão, se relacionava com os africanos. Admiração e revolta. Racismo. Todas questões que aparecem fortes em sua obra e em sua trajetória.

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Juliano Garcia Pessanha lançou, recentemente, A Recusa do Não-Lugar, misto de ficção e não ficção em que ele reelabora questões como a morte da mãe. 

Uma escrita de si, afinal.

“Uma escrita de si, mas de alguém que não tinha a si mesmo. Vivi muitos anos como um lugar devastado. O tempo todo como se estivesse aterrisando ali. Vivi durante muitos anos nessa aterrisagem permanente. É uma escrita de si sem si nenhum. Nesse livro mostro o que seria ter um si e problematizo a condição de impessoalidade – suas vantagens poéticas e desvantagens humanas”, explicou Juliano.

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“Há muita violência no meu passado. Escrevo de forma violenta porque há muita violência no meu passado. E, quando escrevo, ela sai”, comenta Isabela, para quem seus pais, já mortos, são figuras sagradas, apesar dos pesares. “Eles ainda têm um poder enorme sobre mim. O tempo todo me pergunto: Meu pai tem orgulho de mim? Tem. Minha mãe também, mas sobretudo o meu pai. Eles são a minha Nossa Senhora, meu Menino Jesus."

Isabela é autora, também, de A Gorda – livro que ela considera, conforme disser em entrevista ao Estado, como a segunda parte de Caderno de Memórias Coloniais. Está ali a menina que fala sobre seu pai, já adulta e lidando com muitas questões. “Este é um livro sobre viver, ter medo, assistir a morte do pai, ser rejeitado, amar e não ser amado. Um livro sobre a vida, sobre a discriminação. Uma forma de dizer não olhe para a minha aparência, olhe para o que eu sou, para a minha essência.”

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Apesar de temas densos, íntimos, a mesa teve momentos de descontração – como quando Isabela contou que alguém lhe disse que ela dividiria o palco com um especialista em Heidegger e ela contou, brincando mas com alguns livros na mão, que foi atrás da obra do filósofo na biblioteca da cidade.

E também quando Juliano contou que lhe disseram que ele era um cara engraçado – e ele não se esforçava para isso. Isabela, descontraída, comentou: “Você não é só bonitão, filósofo e bom escritor. Você é engraçado sim.” E ficou imitando a forma com que o autor cruzava e descruzava as pernas.

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