Waletr Craveiro|Divulgação
Waletr Craveiro|Divulgação

Flip 2016 termina com menos ingressos vendidos, vaias a escritor sírio e protesto

Festival começou na quarta, 29, e terminou neste domingo, 3; veja os altos e baixos desta 14.ª Flip

Guilherme Sobota, Marilia Neustein e Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2016 | 18h45

PARATY - A primeira mesa da Flip deste domingo, 3, chamada “Síria mon amour”, teve de tudo, menos amor. O escritor sírio Abud Said dividiu o espaço com a jornalista brasileira Patrícia Campos Mello, especializada em coberturas de conflitos – e a primeira frase que Said falou foi: “não quero falar sobre a guerra”. Depois, ao criticar organizações de direitos humanos, meios de comunicação e intelectuais, Said foi vaiado (o que se repetiu ao fim da mesa).

“Não quero ficar aqui a falar do Estado Islâmico”, disse Said, em árabe. “Não tenho medo, mas não quero. Não existem direitos humanos, não existe jornalismo, o que existe são pessoas que querem ganhar dinheiro. Sou egoísta. Não quero ser a voz da Síria. Faz três anos que cansei. Não há uma sociedade mais doente do que a sociedade intelectual e de quem trabalha com direitos humanos”, opinou.

Elegante, Patricia disse concordar que os jornalistas, nessas coberturas, contam experiências pessoais, que não necessariamente refletem a realidade. “Só espero que o relato não seja muito deturpado, com a ajuda de vocês”, disse, se referindo ao povo sírio. Ela está escrevendo um livro que conta a história da guerra contra o Estado Islâmico e a história de um casal que sobreviveu ao cerco a cidade de Kobani em 2014 (Lua de Mel em Kobani, que a Companhia das Letras deve publicar ainda este ano).

“Não tenho direito de ter medo”, explicou. “Há gente que mora lá, elas estão lá todo dia. Eu ter medo é uma coisa um pouco absurda”, comentou, sobre suas coberturas.

Said veio a Flip com o seu livro O Cara Mais Esperto do Facebook (Editora 34), que reúne alguns de seus posts – uma mistura de diário, comentários sarcásticos sobre a vida e observações irônicas. “Esses jornalistas e o pessoal da cultura só falam da guerra”, disse. “Estou feliz de estar aqui, é serviço cinco estrelas. Me levam para jantar e almoçar, ontem fiz sauna. Estou muito feliz. Sou sírio, mas não tenho nada a ver (com política).”

Ele conta que abriu uma página no Facebook e começou a escrever um diário. “Não sabia que ia virar escritor e vir para o Brasil”, brincou. Ao contar histórias relacionadas à família, fez o público rir. “Comecei a escrever e aí o pessoal mais preparado me explicou que era literatura.”

Na mesa em seguida, Sergio Alcides e Vilma Arêas discutiram características para além da poesia na obra de Ana Cristina Cesar. Na mesa “Luvas de pelica”, o crítico literário e a escritora comentaram os aspectos ensaísticos e críticos da poeta. Alcides enfatizou a “presença felina”, quando Ana Cristina escrevia críticas. “Ela tinha uma inteligência fulgurante, de intimidade, do feminino e um aspecto mental de como se aproximar do poema de um modo menos ingênuo”, disse. Isso sem esquecer sobre os lados transgressores da poeta com a ousadia que tinha ao misturar linguagens: “Ela se apropriava de discursos diferentes. Não tinha preocupação de separar a prosa da poesia”, completou. 

Já Vilma que, além de professora era também amiga da escritora, falou sobre o distanciamento que ela tinha de sua obra. “Nas artes plásticas, essa distância é fácil, mas na literatura e na poesia a linguagem é radical. O poeta pode querer comunicar, mas é sempre uma linguagem de contorno”, disse. Vilma também falou sobre o conceito de “fingimento”: “Ana tinha um aspecto teatral. E acho que todos os atores são grandes tímidos”, afirmou. A acadêmica não conteve a emoção e chorou ao ler um poema de Antônio Carlos de Brito, o Cacaso, em homenagem à Ana C. “Ele fala da partida, mas também de reencontro. E ele tem razão, porque ela está aqui, na Flip, nos ciúmes, nas palavras, nos versos.”

Manifestações políticas marcam última mesa

A última mesa da Flip, Mesa de Cabeceira, também foi marcada por manifestações políticas. O escritor João Paulo Cuenca, após ler trecho de Lima Barreto, gritou, no palco: “Fora, Temer”, “Fora, PMDB” e “Fora, Dornelles”. No final, alguém da plateia projetou no cenário: “Jamais Temer” e “Não Piso na Democracia”.

Festa teve menos ingressos vendidos para tenda principal

A Flip viveu momentos distintos em relação à frequência de público deste ano: se diminuiu a venda de ingressos para a Tenda dos Autores em relação a 2015, aumentou a quantidade de pessoas diante do telão, na mesma comparação. 

Depois de 19 mesas (de um total de 21), foram computados 23.246 espectadores (soma que inclui as duas modalidades), número superior ao de 2015 (21.990). Mas, para a tenda, foram vendidos mil ingressos a menos que no ano passado. “A redução se deve à antecipação da data da Flip, por causa da Olimpíada”, acredita Mauro Munhoz, presidente da Casa Azul, entidade responsável pela festa.

A crise econômica também foi decisiva. “Se marcássemos para a semana seguinte, aumentaria o custo da infraestrutura, o que seria inviável.”

Curador da Flip, Paulo Werneck notou um grande interesse pela programação, que foi diversificada. Mesmo assim, reconhece desafios – como a cobrança que recebeu de ter menos autores de origem afro nas mesas principais. “Nenhum curador faz a Flip apenas com seu próprio repertório”, disse.

ALTOS

Programação Off

Longe da tenda - Eventos em locais alternativos como Casa Cais, Sesc, Itaú Cultural, PublishNews foram tão ou mais interessantes que a programação oficial.

Humor

Riso certo - Mesa que reuniu Gregório Duvivier, Tati Bernardi e Ricardo Araújo Pereira mostrou que é possível pensar gargalhando. 

BAIXOS

Sexo

Desanimador - Não deu liga o encontro entre Gabriela Wiener e Juliana Frank, na mesa Sexografias. Em alguns momentos, chegou a ser constrangedor.

Machismo

Sem noção - O sírio Abud Said foi vaiado mais de uma vez por comentários duvidosos e por evitar falar um assunto cada vez mais sério: a guerra que dizima a cada dia seu país

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