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Flávio Izhaki volta mais maduro ao tema das relações familiares e das misérias cotidianas

'Tentativas de Capturar o Ar' é estruturado como biografia fracassada de um escritor e organizado em blocos

André de Leones, Especial para O Estado de S.Paulo

23 Julho 2016 | 03h00

Antes de abordar Tentativas de Capturar o Ar, terceiro romance do carioca Flávio Izhaki, deixo claro que conheço o autor, com quem já trabalhei e de quem sou amigo. Meu nome está nos agradecimentos do novo livro, mas não precisava: ao contrário do que se afirma lá, não pude ler os originais. Ou seja, Izhaki é um ficcionista até na parte dos agradecimentos.

Estruturado como a biografia fracassada de um escritor chamado Antônio Rascal (autor do melhor romance brasileiro dos últimos 25 anos), e fracassada porque o biógrafo, Alexandre Pereira, morre num acidente antes de concluí-la, Tentativas de Capturar o Ar é organizado em blocos: há o diário do biógrafo, transcrições de entrevistas que ele fez com pessoas próximas do biografado (a viúva, a agente, o editor, um amigo, etc.), duas narrativas de Rascal (sendo que uma delas pode ou não ser a confissão de um crime) e um texto autobiográfico do filho do escritor.

No início, o romance pode dar a impressão de ser (mais) uma jornada ao intestino grosso do meio literário mediante uma estruturação “esperta”. Não é o caso, felizmente. O que Izhaki proporciona é menos óbvio e mais profundo. Seu romance encerra uma procissão de fracassos, na qual ele próprio não se inclui: de pais com os filhos e vice-versa, de um biógrafo amador com seu projeto e, sobretudo, de um escritor com o mundo ao redor e com a própria vocação – por motivos inexplicados, Rascal lançou apenas três livros, e nenhum em suas últimas décadas de vida. O crime que ele confessa (ou não) poderia ser a razão do silêncio autoimposto.

Note-se que Izhaki retoma aspectos e temas explorados em seus dois romances anteriores: do primeiro, De Cabeça Baixa (ed. Guarda-Chuva), algumas brincadeiras formais (como a inclusão de resenhas literárias no corpo da narrativa) e o modo como um autor lida com a repercussão de seu trabalho e enseja uma fuga (momentânea lá, incontornável aqui); do segundo, Amanhã Não Tem Ninguém (Rocco), o desenho opaco das relações familiares, com suas vozes dissonantes e misérias cotidianas, e o peso da sombra paterna – especialmente quando tal sombra é o índice de uma ausência.

Tentativas de Capturar o Ar é, assim, outro passo na construção de uma obra singular, ciente de seus temas e das melhores formas de explorá-los. Sua força está na honestidade com que evolui e no domínio técnico do autor, posto a serviço dos personagens e, por decorrência, dos leitores – e jamais em detrimento destes ou daqueles.

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