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Filósofo alemão Fichte coloca a formação da estética em debate

'Sobre o Espírito e a Letra na Filosofia' apresenta um dos momentos cruciais da constituição do gênero como disciplina autônoma

Pedro Fernandes Galé , Especial para O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2015 | 03h00

A publicação de um livro como Sobre o Espírito e a Letra na Filosofia, de Fichte, é, por si só, um fato a ser celebrado. Mas devemos louvar também o fato de tal opúsculo do filósofo ter recebido uma edição e tradução tão cuidadosas e completas. Além do rico texto que dá título à publicação, o volume vem acrescido de vasto material secundário para a compreensão do contexto e das contendas que o envolveram e uma rigorosa, porém agradável, introdução do organizador e tradutor Ulisses Vaccari. 

Filósofo crucial de seu tempo – e para que tenhamos uma noção de sua importância que baste por hora a declaração do romântico Friedrich Schlegel: “A revolução francesa, a doutrina da ciência de Fichte e o Meister de Goethe são as maiores tendências da época” –, a recepção dos conceitos de sua filosofia contribuiu para o desenvolvimento do espírito idealista da filosofia posterior a Kant e é um dos grandes móbiles do romantismo nascente.

Os textos aqui reunidos giram em torno do que ficou conhecido como a “disputa das Horas”. As cartas trocadas entre as partes da contenda, Fichte e Schiller, nos colocam no centro desta disputa singular ocorrida nos últimos anos do século 18 que colocava frente a frente duas concepções filosóficas de grande importância para a história da filosofia. Fichte, depois de contribuir com o periódico dirigido por Schiller, As Horas, enviou para a publicação as cartas sobre o espírito e a letra. Elas foram recebidas de modo muito crítico e para o autor de Maria Stuart, que já havia iniciado a publicação de suas cartas sobre a educação estética do homem no mesmo periódico, a retomada da sua forma e até mesmo de seu assunto seguiam aqui “um plano tão excêntrico que é impossível considerar em um todo as partes de seu texto”. Tal resposta em nada agradou ao filósofo que não tardou em responder e clamar por um juiz: Goethe! 

A despeito da polêmica, é inegável que a tarefa de fazer com que a letra e o espírito, ou seja, de uma distinção que se estenderia para além da própria filosofia, sejam discernidos e que se apliquem também à arte contribuiu de forma essencial ao debate da filosofia da arte e da estética, duas concepções nascentes e centrais para a filosofia alemã da segunda metade do século 18 e que envolveu, fora o filósofo em questão, Schelling, Hegel entre outros.

Ao isolar o que chamava de “impulso estético” dos outros impulsos, Fichte – para quem a noção de impulso era crucial: “É pelo impulso que o homem é homem” – estabelece um campo autônomo à arte: “O artista deve desenvolver, desde a profundeza de seu próprio ânimo, aquilo que, escondido a todos os olhos, reside na alma humana”. Esse mergulho na alma do artista, posto que o impulso estético “não visa a nada exterior ao homem, mas algo que está unicamente dentro dele”, abre caminho para uma noção das mais caras ao pensamento artístico de sua época, o gênio: “O gênio veste os corpos sólidos com as formas que se desvelaram ao seu olho espiritual e assim as apresenta aos seus contemporâneos”. 

O fundamento subjetivo não deve ser confundido com uma noção individualista das artes, que coloque a questão do relativismo artístico, quer no âmbito de sua produção, quer no âmbito de sua recepção. O impulso estético nos é, em grande medida, de capital importância no desenvolvimento da interioridade do homem, pois “o sentido para o estético dá-nos o primeiro ponto de apoio seguro em nosso interior”. A obra de arte visa a nosso espírito e é nele reconhecida, por uma capacidade chamada gosto: “A habilidade de julgar a esse respeito e de forma universalmente válida chama-se gosto por excelência”.

O trajeto que leva dos impulsos do homem à caracterização de temas dos mais caros à estética, gosto e gênio, já nos demonstra a inserção de Fichte no debate de seu tempo e sua posição no universo da filosofia alemã clássica que centrou fogo nos debates estéticos e artísticos de modo muito singular. Mais do que pensar em termos de uma interdisciplinaridade o que Fichte buscava, e com ele toda a estética clássica alemã, era o duplo influxo existente entre espírito e obra, indo ao encontro de uma nova caracterização de homem e arte que marcou as demandas teóricas de seu tempo.

PEDRO FERNANDES GALÉ É DOUTORANDO EM FILOSOFIA PELA USP E BOLSISTA FAPESP

SOBRE O ESPÍRITO E A LETRA NA FILOSOFIA

Autor: Johann Gottlieb Fichte

Trad.: Ulisses Vaccari

Editora: Humanitas (348 págs., R$ 40)

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