Filho de Georges Simenon conta curiosidades do escritor

John, como é conhecido, foi trazido a São Paulo esta semana pela Companhia das Letras, que passa a publicar os livros do belga

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

06 Junho 2014 | 20h00

"Meu pai não era um homem alto. E era magro", disse John Simenon, filho de Georges, o criador de Jules Maigret, um dos mais célebres comissários de policia da literatura. Fiquei surpreso. Para mim Simenon era alto, forte, troncudo. Provavelmente eu misturasse um pouco de Maigret e um tanto do autor. John, 65 anos, é filho da relação entre Georges e Denyse Quimet, sua segunda mulher. Ele nasceu em Tucson, Arizona no dia 29 de setembro de 1949 e recebeu o nome de Jean Denis Chrétien Simenon. O Jean foi homenagem a Jean Renoir, o cineasta e futuro padrinho do menino. O garoto nasceu pesando cinco quilos (diziam que parecia ter um mês, revelou um Georges felicissimo em suas Memórias Íntimas) e o pai não teve autorização nem para assistir o parto, nem para visitar a mulher em seguida. Teve que se render às normas e horários da maternidade americana.

Este filho que se assina John foi trazido a São Paulo esta semana pela Companhia das Letras, que passa a publicar os livros de Simenon. Contudo, a editora L&PM, de Porto Alegre, continuará a publicar os títulos até o ano de 2016. Os três primeiros da Companhia estão nas livrarias: Pietr, o Letão (no qual nasce Maigret), O Enforcado de Saint-Pholien e O Cavalariço de Providence, todos de 1931; em junho, chegam A Noite da Encruzilhada e O Cachorro Amarelo.

Pena: o Teatro Eva Herz, dentro da livraria Cultura, não estava totalmente cheio como eu imaginava, na noite de terça-feira. No entanto, acabou sendo uma noite, eu diria, cult, com a conversa fluindo em uma atmosfera intimista. Talvez não tenha havido muita divulgação. Para mim, que leio Simenon e tudo sobre ele, foi emocionante ouvir o filho. Como se fosse um velho amigo que me veio contar coisas. No palco se reuniram Simenon, Tony Bellotto (o criador de Bellini) e Rafael Montes, a nova sensação da literatura policial brasileira, que conduziu, e bem, a conversa. Era uma plateia atenta e que conhecia o autor, várias pessoas traziam livros nas mãos, vindos das bibliotecas pessoais. Uma senhora trouxe dezenas de livres de poche, não vi se John assinou tudo.

Ele administra a vasta obra do pai, mais de 400 livros, botando o olho igualmente nas adaptações. O assunto adaptação entrou em pauta e John revelou que Georges preferia não ver os filmes e telefilmes, sabia ser impossível adaptar fielmente. Entre os que viu, gostou do Maigret vivido por Jean Gabin, depois o de Michel Simon. Em geral, dizia “fantástico”, e se calava.

Acrescentou-se detalhes curiosos a situações mais ou menos conhecidas, como a rapidez da escrita de Simenon - um livro em dez dias. Mas acentuou que ele se preparava para esses dias, como se estivesse "recebendo o santo". Ficava inquieto, andava pelo campo, ia mentalizando o personagem, criando a atmosfera, o cenário, a situação. E, quando se fechava em seu gabinete, a partir de cinco da manhã, o silêncio na casa devia ser absoluto, rigoroso. Era intransigente. Escrevia à mão um capítulo pela manhã, à tarde datilografava e revisava. Transpirava tanto que precisava tomar litros de água para repor. Era uma maratona física que o esgotava.

Vieram análises do personagem Maigret, da senhora Maigret, que John diz ter tanta importância quanto o marido, porque, silenciosa, calma, doméstica, é com ela que Maigret conversa, elabora mentalmente os casos, encontra um indício, faz amor. No entanto, a forma como Simenon narra é tão hábil que ficamos com a sensação de que a senhora Maigret nem existe. Somente um autor como domínio total da técnica consegue isso. Detalhe, não há um nome de batismo para a esposa de Maigret, ela é simplesmente senhora Maigret, que bebe vinho, nunca álcool e faz um coq au vin excelente.

Interessante foi quando John contou as relações entre Simenon e Fellini, desconhecidas por muita gente. No Festival de Cannes de 1960, o escritor, presidente do júri, lutou bravamente por A Doce Vida. Havia hostilidade por parte de jurados que consideravam o filme escandaloso (a igreja lutou contra ele com todas as forças), imoral, enfim, o habitual dos obscurantistas. Simenon, que tinha prestigio, respeito e força, venceu, A Palma de Ouro foi para Fellini. “Nasceu ali uma amizade curiosa”, contou John. "Porque ambos se admiravam e se respeitavam enormemente. Mas, quando se encontravam, se intimidavam, ficavam como crianças, calados, rindo, dizendo banalidades, até encontrarem o tom da conversa e se soltarem. Trocaram muitas cartas, nelas eram expansivos, abertos. Gostaria de ver essa correspondência editada no Brasil."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.